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Uma tradição de têxteis peruanos enfrenta os desafios do mercado de Janelle Conaway

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Chinchero, no Peru, está situado em um amplo planalto contra o fundo de picos cobertos de neve — uma aldeia perfeita para cartão postal com muros pré-colombianos, telhados vermelhos e igreja colonial, cercados por campos em terraços suavemente dispostos. É um ponto de parada para muitos turistas que viajam de Cusco ao Vale Sagrado dos Incas. Considerado pelos antigos como o lugar de nascimento do arco-íris, hoje em dia Chinchero produz uma paleta completa de fibras tingidas à mão, tecidas em desenhos que passaram de geração em geração.

Há mais de 30 anos Nilda Callañaupa adotou como missão pessoal revitalizar a rica tradição têxtil dessa área. Ela dirige atualmente o Centro de Textiles Tradicionales de Cusco (CTTC), uma organização sem fins lucrativos que proporciona uma renda modesta mas confiável a cerca de 700 tecelões em 10 comunidades. Beneficiário de doações da IAF em dois períodos plurianuais, o CTTC incentivou uma efusão de criatividade e ajudou a elevar a qualidade dos têxteis locais a novos níveis. De chapéus andinos a ponchos, trilhos de mesa e xales, as tecelagens cusquenhas ainda são produzidas em tear de cintura ou em tear de quatro estacas em um processo complexo e de mão de obra intensiva que remonta à época pré-incaica. A maioria dos têxteis do CTTC tem desenhos em ambos os lados e incorporaram iconografia e padrões específicos de cada comunidade. Todos são feitos de fibras naturais — alpaca, lhama ou ovelha — e utilizam corantes naturais feitos de insetos, sementes, flores, folhas, raízes ou minerais. “Aprendi que toda peça de fazenda incorpora o espírito, aptidões e história pessoal de cada tecelão”, escreveu Callañaupa em seu livro Weaving in the Peruvian Highlands: Dreaming Patterns, Weaving Memories [A tecelagem nos altiplanos peruanos: sonhando com desenhos e tecendo memórias]. A tecelagem é uma arte viva, uma expressão da cultura, geografia e história. Vincula com uma linha interminável a vida emocional do meu povo”.

Apresenta também desafios práticos. A economia da produção de têxteis tecidos à mão usando fibra fiada à mão é “formidável”, afirmou Ann P. Rowe, pesquisadora associada de têxteis do Hemisfério Ocidental do Museu de Têxteis em Washington D.C. “Os turistas geralmente não estão dispostos a pagar o valor do trabalho envolvido, em parte porque simplesmente não podem compreender o tempo enorme que o trabalho manual requer”, disse ela. “Há uma razão por que a revolução industrial começou com a tecnologia de têxteis”. Segundo Rowe, que conheceu Callañaupa em 1990 quando esta fez uma apresentação no museu, as pessoas que procuram comercializar têxteis indígenas talvez não compreendam plenamente a economia do esforço necessário ou o valor de preservar a estética. “O CTTC destaca-se como organização realmente dirigida por uma tecelã indígena que conhece perfeitamente o trabalho da profissão, mas que também realmente dispensa atenção à qualidade do trabalho”, afirmou.

Nascida em 1960, Nilda Callañaupa começou a tecer lã aos seis anos de idade e em um ano estava tecendo ao lado de sua mãe, Guadalupe Álvarez, agora com mais de 80 anos, que tinha aprendido a tecer com a mãe dela, a renomada artista Cipriana Valenzuela. Mas para o grupo etário de Nilda já não era mais um fato indiscutível que essas aptidões fossem transmitidas a outras gerações. Os mais velhos continuam a tecer, mas para a maioria dos jovens esta não era uma forma de ganhar a vida. Nesse ínterim, o uso de fibras e corantes sintéticos estava solapando a qualidade dos têxteis produzidos localmente. Callañaupa, formada pela universidade com alguns cursos em negócios, estabeleceu uma cooperativa informal com o objetivo de reintroduzir e documentar os desenhos e usos de têxteis, expandir a comunidade de tecelões e revitalizar um alto nível de qualidade. A explosão do turismo em Machu Pichu e Cusco levou compradores em busca do tipo de têxteis tecidos meticulosamente à mão, produzidos por seus ancestrais. Ao longo dos anos a cooperativa tornou-se muito conhecida em Cusco e além, conquistando apoio de antropólogos, colecionadores, fundações e organizações sem fins lucrativos. O CTTC foi formalmente criado em 1996 com a ajuda do Cultural Survival, sediado em Boston.

A IAF começou a trabalhar com o CTTC em 2004; a segunda de suas doações foi emendada com fundos complementares em 2011. “Estamos convencidos de que o CTTC poderá, trabalhando com as comunidades, revitalizar a tecelagem como atividade econômica viável. E já conseguiram fazer isso”, afirmou Wilbur Wright que recentemente se aposentou da IAF como diretor regional para a América do Sul e o Caribe. Wright ficou impressionado com o pessoal de Cusco do CTTC, o qual inclui vários jovens profissionais, e pelo entusiasmo na tecelagem que presenciou nas comunidades participantes, juntamente com uma melhoria contínua da qualidade e variedade de seu produto. Como a tecelagem é uma atividade que requer muitas etapas, da tosquia a marketing, pode incluir vários membros da família e produzir renda sem a venda de animal de criação. “É uma fonte que complementa a economia do domicílio”, explicou Callañaupa. A renda que recebe um tecelão da CTTC talvez não pareça muito — de US$3 a US$13 por dia — mas faz uma enorme diferença na vida do artesão, disse ela, e os tecelões podem permanecer nas suas terras comunitárias, com suas famílias, falar sua língua indígena e manter suas tradições culturais.

O CTTC vem trabalhando há vários anos em nove comunidades de língua quéchua: Accha Alta, Acopia, Chahuaytire, Chinchero, Chumbivilcas, Mahuaypampa, Patabamba, Pitumarca e Santa Cruz de Sallac. Recentemente acrescentou mais uma, Huacatinco, uma aldeia remota com uma forte tradição de tricô. A maioria dos tecelões do CTTS, embora nem todos, são mulheres. Embora trabalhem com desenhos tradicionais, tomam decisões artísticas relacionadas com cor, estilo e técnica. Toda peça tem uma etiqueta com a foto, nome, idade e comunidade do tecelão. Toda comunidade do CTTC tem uma entidade autônoma, semelhante a uma associação de tecelões, com a própria diretoria eleita. As comunidades determinam os próprios padrões de qualidade e preços, estabelecendo diferentes categorias e criando fórmulas para determinar quanto receberá o tecelão por centímetro quadrado produzido. Todos os meses o CTTC compra um número mínimo de peças de cada comunidade e depois procura vender os itens.

Obviamente o modelo econômico não é perfeito. Do ponto de vista da oferta e da procura, afirmou Wright, uma complicação é o compromisso assumido pelo CTTC com os tecelões: “Melhorem a qualidade, façam um bom trabalho e nós compraremos e venderemos o seu produto”. Quando a economia é fraca e caem as vendas, diminui o estoque. Embora no ano passado o CTTC tenha vendido 19.000 itens, ainda tem alguns milhares de peças em depósito e, segundo seus compromissos, continua a comprar mais todos os meses. Nos últimos anos o CTTC tem procurado ampliar sua atração junto a consumidores contemporâneos acrescentando produtos como jogos de mesa, fronhas de almofadas e bolsas de todo tipo. A escolha delicada, segundo Callañaupa, é adaptar-se ao mercado sem alterar o objetivo central da organização. “Precisamos ser cuidadosos. Caso contrário poderíamos perder nosso plano, a saber, manter vivos os têxteis tradicionais”, disse ela.

Os preços no varejo variam consideravelmente; uma bolsa tecida custa de US$20,00 a US$100,00, dependendo do tamanho, qualidade e complexidade. Uma peça grande, como uma colcha, pode ser vendida por mais de US$1.000,00. Uma meta constante é pôr nas mãos dos tecelões a maior quantidade de dinheiro possível, ao mesmo tempo pagando os impostos, arcando com despesas e enfrentando a concorrência. Uma fonte de concorrência são os têxteis antigos que ainda podem ser encontrados à venda na área; outra são as novas peças fabricadas por tecelões não afiliados ao CTTC. Considerando o problema criado pelo estoque excessivo, o CTTC não pode assumir compromissos com todas as comunidades da área e algumas já começaram as próprias empresas. Embora a entrada de mais tecelões no mercado signifique que um maior número de pessoas será beneficiado, também coloca pressão descendente sobre o preço de todos os têxteis. Como o CTTC precisa cumprir os acordos assumidos com os tecelões, não pode diminuir os seus preços. Isto significa que a sua solvência depende dos compradores que reconhecem a qualidade superior e estão dispostos a pagar por ela.

Uma cliente impressionada com a consistência da alta qualidade é Annie Hurlbut, diretora executiva da Peruvian Connection. Nos últimos cinco anos essa cadeia de varejo sediada nos Estados Unidos tem vendido vários itens do CTTC, principalmente capas de almofada e bolsas de vários tamanhos, em suas lojas e por catálogo. Hurlbut, que coleciona têxteis antigos dos Andes há mais de 30 anos, afirmou que as peças mais antigas tem uma sensação mais sutil — que ela atribui a diferentes técnicas de tecelagem — mas que o CTTC produz um aspecto comparável. “O nível de aptidão requerido dos têxteis andinos é simplesmente impressionante”, observou, assinalando que o estilo característico de “urdidura bem apertada [warp-faced]”, no qual o desenho surge de filamentos longitudinais, requer perícia e planejamento meticuloso. Hurlbut chama o CTTCC de “fato incrível de organização, amor e aptidão”.

O CTTC vende por meio de diversos canais nos Estados Unidos, incluindo lojas de museu e o Mercado Internacional de Arte Folclórica, evento realizado anualmente em Santa Fe, New Mexico. Porém a maioria dos compradores são turistas que visitam a sede em Cusco ou uma das comunidades e observam os artesãos trabalhando, em trajes distintivos da respectiva aldeia. “Para nós o mercado local é muito mais lucrativo e mais fácil de manejar”, afirmou Callañaupa. O CTTC programa regularmente aulas de tecelagem e demonstrações e oferece pensão completa no local a grupos de artesãos das aldeias que fazem rodízio na sede uma semana de cada vez. Cada comunidade também tem o próprio centro, sendo maior o de Chinchero.

Os itens do CTTC também são vendidos em lojas de varejo em Cusco e estão à mostra em hotéis locais como forma de divulgar o centro. O website do CTTC, www.textilescusco.org, apresenta alguns itens à venda, mas um catálogo completo não é prático, porque a maioria das peças são únicas. Os jogos de mesa são exceção, uma vez que cada jogo é produzido por uma única tecelagem em grandes proporções. Elizabeth Catunta, que dirige as atividades educacionais e o estoque do CTTC, afirma que nos oito anos desde que começou a trabalhar no centro de Custo presenciou o desenvolvimento de uma maior apreciação da tecelagem por parte do público. É preciso mais instrução, acrescentou, para que um maior número de pessoas reconheça seu valor e se incline para a alta qualidade, não apenas preços baixos. Embora o turismo seja a tábua de salvação do centro, pode também ter um lado negativo. Há planos de construção de um aeroporto internacional nos arredores de Chinchero, o qual beneficiará a economia local, mas poderá alterar de modo permanente e negativo a forma de vida comunitária e a sua tradição com relação à Mãe Terra.

Callañaupa sonha em alguma dia construir um museu maior em Cusco para exibir a riqueza dos têxteis da região e além, mas ela mesma questiona a viabilidade de projeto tão enorme. Enquanto isso, participa das exposições do museu, dá aulas de tecelagem e trabalha em uma série de livros para documentar os desenhos de cada comunidade do CTTC. Em 2010, com a assistência da IAF, o CTTC foi sede de uma conferência que reuniu 400 tecelões de nove países das Américas para comparar experiências e falar sobre questões como qualidade e marketing. Como a pessoa que começou tudo isso por seu amor pelo artesanato, Callañaupa lamenta que suas múltiplas responsabilidades limitem o tempo dedicado ao tear. “O que me faz falta agora é não ter muito tempo para tecer”.

Janelle Conaway é escritora autônoma, redatora e tradutora sediada no estado de New Mexico.