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Uma estratégia de múltiplos aspectos para salvar as florestas incas de Wilbur Wright

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Entre as previsões da apreensão e caos com que foi recebido o novo milênio, há mais ou menos uma década, havia indicações do tipo de desastre ambiental que já se tinha transformado em realidade para um pequeno grupo de indígenas peruanos conservacionistas. A perda de florestas nativas ao redor de suas comunidades no altiplano andino e a degradação resultante do ecossistema não deixavam lugar a dúvidas. As florestas locais consistem primordialmente de árvores polilípedis que figuram entre as espécies mais raras nas altas elevações. Essas árvores estavam sendo cortadas a um ritmo alarmante para servir de madeira e lenha, bem como para criar espaço destinado a pastagens. Sua destruição estava causando um impacto prejudicial direto sobre o hábitat dos animais, inclusive pássaros, e sobre a fonte primordial de água e combustível para as comunidades vizinhas.

Os conservacionistas decidiram organizar-se formalmente como Asociación de Ecosistemas Andinos (ECOAN) e colaborar com mais de 20 comunidades indígenas da região de Vilcanota no altiplano andino, situadas acima de Cusco, capital dos incas. O programa da ECOAN propunha que cada comunidade identificasse uma área arborizada ou outrora arborizada e apresentasse ao governo peruano uma petição no sentido de que fosse designada como reserva natural de propriedade privada e fossem criados mecanismos formais para proteger a floresta ou reflorestar a terra cujas árvores tinham sido cortadas.

Favorecia às comunidades a sua proximidade da famosa Trilha dos Incas, um caminho pelo qual milhares de turistas transitam anualmente de Cusco às ruínas de Machu Picchu. Entre os caminhantes figuravam ávidos observadores de pássaros, familiarizados com as montanhas circunvizinhas como resultado de estudos e conscientes dos efeitos perniciosos do desmatamento da flora e fauna singulares que pontilhavam o percurso. Alguns levaram a devastação ao conhecimento de organizações internacionais de conservação e lançaram campanhas para salvar as florestas polilípedis.

Dada a convergência de interesses, a ECOAN e os grupos internacionais começaram a discutir uma parceria direcionada a recuperar ou salvar as florestas. A ECOAN ficou encarregada da iniciativa junto às comunidades do altiplano e coube ao American Bird

Conservatory (ABC) a prestação de assistência técnica e mobilização de materiais e apoio financeiro de outras organizações internacionais. Para a iniciativa funcionar as comunidades tiveram que abordar as necessidades econômicas e sociais à raiz do problema e identificar fontes alternativas de renda, combustível, materiais de construção e forragem. As discussões da ECOAN com os moradores e um representante do ABC produziram uma estratégia de múltiplos aspectos para mudar as percepções a respeito do valor da floresta e proteger esse recurso frágil. Os componentes incluíram conservação, organização comunitária e desenvolvimento econômico baseados em grande parte no turismo nas áreas cobertas de florestas. Como o desafio passou a ser o financiamento, a ECOAN dirigiu-se à IAF. Graças ao financiamento da IAF, o projeto deslanchou.

Muitos domicílios receberam fogões de barro eficientes em termos de combustível que usam menos lenha para preparar refeições de milho, batata, quinoa, cuy [porquinho-daíndia] e chuyo, um tipo de batata liofilizada. O cuy é criado em casa e precisa de certa fumaça para crescer, conforme descobriram os técnicos da ECOAN quando instalaram os primeiros fogões que não produziam nenhuma fumaça. Os fogões subsequentes foram refeitos para permitir aos moradores que continuassem a criar o cuy. Painéis solares foram instalados em escolas locais para produzir eletricidade para iluminação e água quente nos chuveiros das crianças.

A introdução de práticas destinadas a melhorar as pastagens aumenta a forragem para a pecuária, de forma que não haja necessidade de desmatar terras florestais. Estufas para prolongar a estação de cultivo de ervas e legumes melhoram a nutrição nas comunidades participantes. As comunidades investiram os recursos da IAF na reforma de uma incubadora de peixes abandonada, na qual os moradores criam truta rica em proteína.

Graças aos recursos de ECOAN, as tecelãs melhoraram seus têxteis de fios feitos de fibra de alpaca e lã, e os vendem em novos mercados internacionais e no Peru.

Mais de 8.000 moradores de 21 comunidades participantes beneficiaram-se do apoio logístico, defesa de direitos e treinamento focado na preparação de jovens como especialistas em conservação, guias turísticos, bombeiros e prestadores de assistência de emergência. Sete áreas designadas como de conservação incluem mais de 607 hectares de terra nos quais crescem atualmente cerca de meio milhão de outras árvores nativas. As sete comunidades que gerenciam essas áreas formaram a Rede de Reservas Vilcanota e abriram um centro de visitantes em Abra Malaga Thastayoc, a encruzilhada em que se cruzam a Trilha dos Incas e as estradas para a planície amazônica. As pessoas que visitam as florestas e os locais arqueológicos da região podem enriquecer sua experiência alojando-se com famílias locais que reformaram ou ampliaram suas casas para recebê-las.

Essas realizações conquistaram elogios em âmbito internacional para a ECOAN e abriram canais para outros recursos. Mais impressionante ainda, em 20 de junho de 2011 o Fondo de las Americas (FONDAM) e o Global Conservation Fund da Conservation International (CI) concederam à ECOAN US$2 milhões para uma dotação, a primeira deste tipo, destinada a apoiar a criação de outras áreas de conservação de propriedade privada. (O FONDAM é o mecanismo de redução da dívida Estados Unidos-Peru financiado com fundos públicos e que promove projetos dirigidos localmente em conservação, proteção de crianças e serviços sociais para os cidadãos locais. A CI é uma organização sem fins lucrativos de destaque, focada na restauração e preservação de hábitats em perigo de extinção.) De acordo com Constantino Aucca, presidente da ECOAN, o interesse gerado pela dotação possibilitará a expansão contínua de reservas de propriedade comunitária e sua incorporação na Rede de Reservas Vilcanota.

O trabalho restante para recuperar florestas nativas ainda é intimidante. No entanto, o compromisso e o entusiasmo das pessoas envolvidas e agora a disponibilidade de mais recursos poderão parar a degradação e transformar o sonho de alguns jovens indígenas conservacionistas em bosques prósperos que beneficiarão tanto a vida silvestre como a humanidade.

Wilbur Wright aposentou-se em 2011 do cargo de Diretor Regional da IAF para a América do Sul e o Caribe. Jefry Andrés Wright é fotógrafo profissional que vive em Las Vegas. Juan Carlos Rheineck é consultor da IAF no Peru.