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O índigo e o indigenismo em El Salvador de Seth Micah Jesse

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O índigo ocupa lugar proeminente no patrimônio dos povos indígenas de El Salvador. “Nossos ancestrais trabalharam nesse cultivo e processaram esse corante”, afirmou Francisca Amalia Matamoros, indígena salvadorenha que pertence à Añil Cielo Azul, uma cooperativa situada em Cuisnahuat no departamento ocidental de Sonsonate, onde vivem comunidades que remontam suas origens aos migrantes Nahua Pipil que saíram do norte do México do século X ao século XIV. Cuisnahuat é um dos municípios mais pobres de El Salvador: 75% dos domicílios não dispõem de eletricidade ou de qualquer conexão a um sistema de esgotos e poucas famílias recebem remessas. A área circunvizinha está repleta de referências à história de seus residentes indígenas. Em 1932 Sonsonate foi o cenário de uma das últimas revoltas indígenas no Hemisfério e do outro lado das montanhas em Izalco, onde estão as plantações de índigo da Añil Cielo Azul, o líder indígena da revolta, Feliciano Ama, foi enforcado em uma paineira.

A Añil Cielo Azul está colaborando com Asociación El Bálsamo, donatária da IAF, em um plano para revi talizar a produção de índigo, também conhecido como xiquilite, nome derivado da palavra Nahuatl que significa erva azul. Antes da chegada dos espanhóis os habitantes deste canto da Mesoamérica extraíam um corante da planta para decorar cerâmicas e têxteis e usavam as folhas em forma de gota de lágrima para tratar doenças respiratórias, da pele e gastrointestinais. A conquista e o mercantilismo que seguiram alteraram drasticamente o lugar do índigo na vida salvadorenha, bem como precipitaram drasticamente a devastação e a dispersão da população nativa.

Exploração da terra e da mão de obra

Os espanhóis encontraram ricos depósitos de metais preciosos no Vice-Reinado do Peru e em partes do Vice- Reinado da Nova Espanha que hoje abrangem o México e a América Central ao norte do Istmo do Panamá. Mas a região que hoje abrange El Salvador oferecia apenas solo vulcânico que se adaptava muito bem ao índigo. Em contraste com o modo como tratavam outros cultivos nativos nas Américas, os invasores não desencorajaram a produção de xiquilite mas preferiram aproveitá-la e explorar o índigo como produto básico. Segundo David Browning (1971), em meados de 1500 as autoridades espanholas tinham organizado o cultivo em El Salvador, Nicarágua, Honduras e Guatemala para concorrer com o índigo produzido na Ásia importado para o mercado europeu por negociantes de Portugal, Holanda e Inglaterra. Os indígenas salvadorenhos foram obrigados a cultivar a erva e processar o corante e durante 300 anos o índigo sustentou a indústria têxtil europeia.

A demanda continuou décadas após 1821, ano em que El Salvador se tornou independente da Espanha, evento que em nada melhorou a sorte da população indígena minguante. Tal como sucedera no regime colonial, a elite latifundiária que continuou a lucrar do cultivo do índigo colocou fazendas estrategicamente próximas às comunidades indígenas a fim explorar o trabalho quase escravo ou, segundo Arnoldo Sermeño (2006), induziu migrações de aldeias indígenas distantes. Uma lembrança do trabalho árduo e perigoso necessário para produzir o corante são os vestígios dos moinhos onde indígenas descalços maceravam as folhas para realizar o processo de oxigenação, abrindo feridas suscetíveis a infecções em condições extremamente insalubres. Mas no início da década de 1900 o índigo tinha quase desaparecido como produto básico, descolocado por sintéticos baratos. O café suplantou o algodão e o cacau como principal exportação de El Salvador, lugar que ocupa até hoje. Para os indígenas salvadorenhos que lutavam para ganhar a vida como diaristas ou agricultores meeiros, o século XX foi uma época de sofrimento horrendo. À medida que a depressão do fim da década de 1920 se firmava, o preço do café despencou e os trabalhadores perderam seus empregos. Em 1932 a tensão social em Sonsonate transformou-se em insurreição violenta contra os latifundiários ricos acima mencionados. O governo reagiu matando dezenas de milhares de cidadãos indígenas e perseguindo os sobreviventes. A guerra civil brutal da década de 1980 resultou em 70.000 mortes e no deslocamento de um quarto da população de El Salvador, tendo um impacto desproporcional sobre os pobres da zona rural, inclusive indígenas.

Um contexto mutável para organização

Há 20 anos, em seu artigo “A visão desde a margem”, publicado no número de 1992 da revista Desenvolvimento de Base que focava os indígenas americanos e o quinto centenário, o antropólogo Mac Chapin observou o surgimento de uma organização singular de indígenas salvadorenhos que se empenhavam cautelosamente em melhorar as condições de Sonsonate enquanto a guerra civil ainda assolava o país. Os Acordos de Paz que naquele mesmo ano puseram fim a 10 anos de hostilidade assinalavam o início de uma era pós-conflito em que a sociedade civil poderia operar com mais eficácia. Desde então, mais indígenas salvadorenhos se organizaram para trabalhar a fim de alcançar as metas que incluem visibilidade, justiça social e desenvolvimento econômico. Como parte de seu programa para promover a conscientização pública da população indígena de El Salvador, o Museo de la Palabra y la Imagen (MUPI) documentou a insurreição em Sonsonate e as suas trágicas consequências no filme 1932, Cicatriz de la memoria e em sua publicação Trasmallo. Os programas do Consejo Coordinador Nacional Indígena Salvadoreño (CCNIS) desenvolvem a identidade cultural e a liderança de salvadorenhos Nahuat, Lenca e Cacawira, bem como a conscientização a respeito de seus direitos. No departamento ocidental de Ahuachapán, a Fundación para el Desarrollo Socioeconómico y Restauración Ambiental (FUNDESYRAM) investe em iniciativas econômicas lançadas por mulheres indígenas; e o Instituto para el Rescate Ancestral Indígena Salvadoreño (RAIS) ajuda as comunidades a valorizarem sua história compartilhada, revitaliza as tradições de artesanato e comercializa os produtos, inclusive organizando visitas de turistas.

Fundada dois anos antes do fim das hostilidades, a Asociación El Bálsamo tem apoiado projetos de autoajuda empreendidos nas duas últimas décadas por salvadorenhos deslocados pela guerra civil. Enfatiza a produção orgânica, o acesso ao crédito e a identificação de mercados de cultivos orgânicos, incluindo o índigo, que reintroduziu na região montanhosa de Cuisnahuat em 2007 por meio de um projeto-piloto. Chove pouco em Cuisnahuat, mas a experiência de El Bálsamo demonstrou que certas espécies de índigo prosperam em seu clima árido. Os agricultores envolvidos no projeto-piloto organizaram-se rapidamente como Añil Cielo Azul, despertando o interesse e atraindo mais afiliados.

O novo relacionamento com o índigo

Embora o índigo tenha sido quase irrelevante para a economia salvadorenha até recentemente, a produção nunca desapareceu completamente. Gerações de salvadorenhos continuaram a usar o índigo em remédios e a embeber e fermentar folhas de índigo para produzir um pasta que moíam transformando-a em corante para uso próprio. Começando na década de 1990 a demanda de corante da planta de índigo aumentou nos Estados Unidos, na Europa e além, refletindo a preferência de consumidores ambiental e socialmente conscientes a respeito de produtos considerados “naturais”. Esta tendência coincidiu com esforços do Consejo Nacional para la Cultura y El Arte (CONSULTURA) de El Salvador para revitalizar o índigo, impulsionados pela assistência para o desenvolvimento prestada pelo Japão e Alemanha. Norma Pereira, diretora da Asociación El Bálsamo, estabeleceu os fundamentos para o projetopiloto incentivando esses esforços e explorando o papel que este cultivo nativo poderia desempenhar em locais pobres da zona rural. Em parceria com universidades, outras ONGs e órgãos púbicos, El Bálsamo, sob a liderança de Pereira, confirmou a viabilidade comercial de cultivar o índigo e o processamento dele em corante. Atualmente a demanda internacional do índigo salvadorenho supera a produção e há um mercado interno crescente.

Os 50 agricultores da Anil Cielo Azul ainda plantam milho e feijão como produtos básicos para a família, mas estão cientes de que o índigo se adapta bem em pequenos lotes e estão apostando nele como recurso para o desenvolvimento. Graças a El Bálsamo apren deram a planejar seus cultivos, prevenir pragas e evitar os erros da era colonial que deixava os solos esgotados. Utilizam fertilizantes e pesticidas feitos de subprodutos provenientes do processamento do índigo, algo que é custo-eficiente e melhora o solo. Os fertilizantes e pesticidas excedentes são vendidos e a renda reinvestida na empresa da cooperativa. Muitas das novas aptidões são transferidas para outros cultivos.

O material da planta é transportado do moinho em veículos alugados. Os agricultores estão aprendendo o processo de fabricação do corante com a precisão requerida para obter alta qualidade de forma consistente, sem a desigualdade produzida pelas variações da umidade e tempo de oxigenação. Mas o processamento do corante ainda pode ser perigoso e El Bálsamo assegura que os membros da Añil Cielo Azul tomem as devidas precauções. Blocos de corante de índigo, por exemplo, são transformados em pó de tal forma que a poeira seja sequestrada pelos trabalhadores que se protegem contra problemas respiratórios usando luvas e máscaras. Nem todos os produtores salvadorenhos submetem seu corante a testes, mas os membros da Añil Cielo Azul rotineiramente levam amostras a um laboratório especializado em San Salvador que determina a contagem de indigotina ou o momento da matéria corante. Quanto mais elevada a contagem, tanto mais o corante se fixa nos têxteis. Um lote de corante com uma contagem de indigotina de 40% ou menos é vendido no mercado interno por US$20 a US$50 o quilo; uma contagem superior a 40% pode conseguir de US$50 a US$80 o quilo. Em 2011 o corante da Añil Cielo Azul atingiu mais de 50% de indigotina e foi vendido de US$60 a US$70 o quilo. María Delmy Linares, membro da Cooperativa de Mujeres San Luís Los Rodeos, afirmou que a sua cooperativa tinha dificuldades em obter um corante de índigo de qualidade suficiente para seus têxteis, vestimentas e artesanato. Mas, como cliente da Añil Cielo Azul, a cooperativa conseguiu aumentar a produção. “Estamos salvando algo que é nosso e o corante orgânico da Añil Cielo Azul agrega valor,” acrescentou Linares. “Podemos garantir que nossos produtos são feitos com corantes naturais”.

Os agricultores da cooperativa produzem atualmente dois cultivos de índigo por ano, mas esperam que a irrigação de seus campos permita uma terceira colheita nos meses de seca do verão quando o corante é escasso e os preços são altos. Se puderem produzir no verão, diz Silas Cornelio Trigueros, Presidente da Añil Cielo, “a gente não precisa deixar a comunidade para cortar cana-de-açúcar”. Uma doação complementar da IAF, concedida em 2012, está ajudando a cooperativa a introduzir a irrigação e subir na cadeia de valores para produzir têxteis baseados em índigo e outros artesanatos que são populares em El Salvador e poderão aumentar a renda domiciliar.

O índigo tem um passado muito complexo e um futuro promissor. Recuperar o relacionamento pré-colonial com a planta faz sentido mais do que econômico para os agricultores da Añil Cielo Azul. “Quando cultivamos e processamos o índigo somos transportados a outra época”, afirma Trigueros. Como estudante ele teve um professor que dedicava uma hora por dia a ensinar a 40 jovens Nahuatl salvadorenhos a língua de seus ancestrais. Como adulto, Trigueros não dava muita importância ao Nahuatl — até começar a participar do projeto El Bálsamo financiado pela IAF que lhe trouxe de volta a conexão de seu povo com o índigo. Inspirado, abriu seus manuais de Nahuatl e começou a melhorar seus conhecimentos do idioma.

Seth Micah Jesse é representante da IAF para El Salvador.


Indígenas em El Salvador

A etnicidade é notavelmente difícil de definir e as descrições tendem a depender de indicadores observáveis. Isso poderá funcionar na Guatemala onde seis milhões de pessoas falam uma ou mais das 20 línguas indígenas reconhecidas no país, trajam roupas distintivas e também observam tradições coloridas que permeiam a vida diária. Mas os ancestrais dos indígenas salvadorenhos contemporâneos viveram menos isolados de influências ocidentalizantes e, portanto, tinham menos possibilidade de proteger e transmitir grande parte de seu patrimônio cultural. O massacre de 1932 obliterou quase completamente o que restava e os sobreviventes evitaram práticas que os indicassem como indígenas. Sem marcas evidentes, a definição de quem é indígena em El Salvador é hoje frustrantemente evasiva e a própria existência desta população é facilmente negada. Como Mac Chapin observou em seu artigo de 1989 publicado em Cultural Survival Quarterly, apropriadamente intitulado “Os 500.000 indígenas invisíveis de El Salvador,” a identidade dos indígenas salvadorenhos pode ser consolidada mais pela história em comum de exploração, injustiça e necessidade desesperante.

Cinco séculos de deslocamento e subjugação realmente empurraram esse povo à periferia precária da sociedade. Cerca de 61% vivem em pobreza em comparação com 26% de outros salvadorenhos; 57% carecem de eletricidade; e 76% não tem título de propriedade. Os grupos principais são os Nahua Pipil nas regiões oeste e central de El Salvador e os Lenca que vivem nos departamentos a leste e nordeste. As autoridades indicam cifras que vão de 6% da população em 1930 (censo de El Salvador) a 10% em 1975 (antropólogo Alejandro Marroquín) e 1989 (Chapin) e a 11% em 1999 ou 660.000 (Organização Pan-Americana da Saúde) indivíduos. Estas cifras, que são questionadas, estão muito acima dos 2% reportados no censo de 2007 do Governo salvadorenho, o primeiro de 1930 a incluir uma pergunta sobre etnicidade — a qual, conforme alegam grupos indígenas, foi redigida intencionalmente para apresentar cifras mais baixas. Betty Elisa Pérez, do Consejo Coordinador Nacional Indígena Salvadoreño (CCNIS), chamou este exercício de “etnocídio técnico.”

No mesmo ano do censo, o Governo salvadorenho votou a favor da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, que inclui a identidade cultural e o desenvolvimento nos próprios termos. O governo do Presidente Maurício Funes, que assumiu o poder em 2009, introduziu programas destinados a abordar a pobreza e a desigualdade, o que, segundo Pérez, indica uma abertura para considerar a situação dos indígenas salvadorenhos. Ao ir ao prelo este número de Desenvolvimento de Base, ela chamou nossa atenção para a recente introdução de uma moção no legislativo salvadorenho no sentido de revisar a Constituição, a fim de reconhecer formalmente os povos indígenas do país. Esta moção ainda precisa ser votada pelo plenário do legislativo, mas Pérez considera essa introdução como passo importante para a articulação dos direitos dos indígenas salvadorenhos. “Finalmente conseguimos,” escreveu ela. — S.M.J.