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Negros na nação branca: uma historia do Afro-Uruguay de David Fleischer

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Blackness in the White Nation: A History of Afro-Uruguay
[Negros na nação branca: uma historia do Afro-Uruguay]

George Reid Andrews
The University of North Carolina Press; Chapel Hill, 2010

George Reid Andrews ensina na Universidade de Pittsburgh, onde recebeu o bem merecido título de professor emérito, em reconhecimento da sua contribuição ao estudo da diáspora africana na América Latina. Sua primeira publicação importante, The Afro-Argentines, 1800-1900 (University of Wisconsin Press: 1980), é considerada uma obra seminal sobre um povo cuja própria existência era ignorada ou negada. A partir daí, a bibliografia de Andrews apresenta alguns desvios geográficos e um amplo estudo histórico muito elogiado, Afro-Latin America, 1800-2000 (Oxford University Press: 2004). Seu livro mais recente, que resume tendências e eventos ocorridos durante cerca de dois séculos, leva-o de volta à região rio-platense, mas desta vez ao Uruguai, um país de maioria branca que, segundo ele, “opta por se definir, ao menos em parte, como culturalmente negro”.

Andrews vivenciou o Uruguai como poucos acadêmicos estrangeiros. Na primeira página de seu livro, ele expressa gratidão a Romero Rodríguez, fundador de Organizaciones Mundo Afro, ex-donatária da IAF, que, segundo ele, lhe deu as boas-vindas a essa organização uruguaia e o convidou a “voltar um dia” para pesquisar a história dos afrodescendentes no Uruguai. Quando Andrews voltou, ele ingressou na comparsa [bloco de carnaval] de Mundo Afro, e o livro mostra seu entusiasmo pela percussão. Isso não diminui a seriedade do trabalho e torna a leitura mais divertida.

Segundo o censo de 2010, 15% dos uruguaios se identificam como afrodescendentes. Alguns de seus ancestrais chegaram como escravos aos portos de Montevidéu e Buenos Aires; outros eram fugitivos do Brasil, atraídos a um país que havia abolido a escravidão em 1842. O fato de a emancipação ter acontecido relativamente mais cedo, segundo Andrews, combina com a reputação do Uruguai como país progressista. Ele considera que o país é a “principal democracia social da América Latina” e reconhece seu “forte e duradouro compromisso com a inclusão social”. Em contraste com essa reputação, há a dolorosa herança da escravidão: a desigualdade e a discriminação ainda não desapareceram completamente da vida nacional. Talvez como exemplo mais extremo, o racismo após a emancipação explica o alistamento sistemático dos negros, notadamente para servir de bucha de canhão nas linhas de frente da guerra com o Paraguai (1864 a 1870). O alistamento terminou em 1904, mas a exclusão de afrodescendentes dos serviços sociais e da vida econômica persistiu até o século 20. Os afro-uruguaios que Andrews entrevistou citam exemplos vívidos de obstáculos à educação e ingresso nos ofícios ou profissões.

Esse mesmo período também é caracterizado pelo fato de a maioria branca ter adotado a música e dança afro-uruguaia. As expressões culturais de raízes africanas se transformaram em aspectos distintivos da cultura popular: candombe, o gênero musical mais genuinamente uruguaio; a comemoração do carnaval com ritmos africanos; a vigorosa participação dos uruguaios de todas as etnias em comparsas; e mesmo o tango, um patrimônio compartilhado com a Argentina, mas que não deixa de ser uruguaio. Conforme documentado por Andrews, de maneira meticulosa e extensa, o fenômeno reforçou a divisão e os negros permaneceram à margem da sociedade: uma população que, até recentemente, era considerada insignificante ou inexistente.

A luta dos afro-uruguaios por justiça social tem-se concentrado na organização, em torno da cultura evidentemente, mas também em torno de uma imprensa vibrante e muito atuante. Embora Andrews se esforce para ser objetivo, ele considera Mundo Afro como “o mais visível dos grupos sociais e cívicos de afro-uruguaios” e atribui essa classificação à energia e esforço investidos desde a sua criação em 1988 em denunciar e expor a discriminação. A participação de seus líderes ajudou a marcar um grande tento para a população negra do Uruguai em 1999, quando o Comitê das Nações Unidas para Eliminação da Discriminação Racial emitiu um relatório contradizendo a negação oficial da existência dessa população, confirmando a prática de discriminação e recomendando medidas corretivas. As conquistas detalhadas no capítulo final do livro parecem indicar que houve progresso nessa década, mas que ainda resta muito a fazer para que os afro-uruguaios desfrutem de plena igualdade. Para saber mais sobre Mundo Afro e o projeto financiado pela IAF, veja a edição de 2007 de Desenvolvimento de base. — David Fleischer, representante para Uruguai e Brasil e Paula Durbin