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Mapeamento de Kuna Yala de Mac Chapin

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Do início de 2001 ao fim de 2003 os índios kuna do Panamá trabalharam em um conjunto detalhado de mapas da Comarca de Kuna Yala, seu território. A Comarca perfaz um arco suave ao longo do litoral nordeste do Golfo de San Blas à fronteira com a Colômbia e abrange uma área de aproximadamente 5.400 quilômetros quadrados, dividida em partes quase iguais entre a terra e o mar. A parte terrestre contém toda uma bacia hidrográfica ao norte da Divisão Continental: a Cordilheira de San Blas. Seu curso superior é coberto de florestas chuvosas. Uma vegetação densa estende-se desde os sopés das montanhas até a planície costeira, onde as florestas cedem o passo às propriedades agrícolas de subsistência e às plantações de coco dos kuna. É uma área de alagados de baixa altitude e estuários cobertos de mangues. Estendendo-se ao mar, abrange várias pequenas ilhas de corais e recifes. Cerca de 40.000 a 50.000 kuna moram em 51 aldeias, incluindo 41 em ilhas próximas da costa e 10 no continente. Todas estão estrategicamente situadas para permitir acesso ao oceano, onde os moradores colhem recursos marinhos, e ao continente, onde trabalham na lavoura e obtêm água potável, lenha e materiais de construção.

Até recentemente não havia estradas para conectar a Comarca ao restante do Panamá. A viagem é feita de barco, avioneta a minúsculos aeroportos comunitários ou por terra a pé. Historicamente os kuna têm conseguido com êxito relativo manter afastados os forasteiros. No entanto, nos últimos anos o lado oeste da Comarca tem sido invadida por agricultores mestiços das províncias do interior e a primeira estrada utilizável em qualquer condição climática serviu para penetrar na insularidade com um fluxo rapidamente crescente de tráfego de ônibus e caminhões. No lado leste garimpeiros colombianos e traficantes de drogas têm penetrado no território, trazendo consigo a violência e a corrupção. Esta não é de forma alguma a primeira vez em que os kuna foram ameaçados pelo mundo externo. Povo resistente, através dos séculos têm mantido intactas sua independência política e identidade cultural, enfrentando desafios constantes à sua sobrevivência e adaptando-se rápida e agressivamente. O projeto de mapeamento é outro exemplo de uma estratégia kuna destinada a proteger suas terras, recursos naturais e modo de vida.

História dos Kuna

Antes do contato com os europeus no início do século XVI, a área ocupada pelos kuna estendia-se do Caribe através do istmo até a região de Darien, no leste do Panamá. Em 1510 o mundo dos kuna mudou drástica e irrevogavelmente. Uma frota de navios espanhóis capitaneados por Vasco Núñes de Balboa surgiu ao longo da costa em busca de ouro e outras riquezas. Balboa e seus homens penetraram na Divisão Continental e a atravessaram e no lado mais distante “descobriram” o Oceano Pacífico. Segundo os padrões da época, aparentemente houve pouco derramamento de sangue nesses encontros com os habitantes locais, pelo menos no início. A calma foi rompida com a chegada do novo administrador espanhol do Istmo, o abominável Pedrarias Dávila. Uma das primeiras realizações foi a execução de Balboa; e, a seguir, deflagrou uma campanha de terror contra os nativos.

A violência foi acompanhada por um inimigo ainda mais feroz: uma carga de doenças europeias contra as quais os habitantes nativos não tinham resistência. Houve um surto de epidemias mortíferas que se espalharam não somente pelo Panamá mas por todas as Américas, dizimando de 80% a 95% da população nativa no primeiro século após o contato. “Em termos do número de pessoas que morreram”, escreveu o historiador Noble David Cook, “foi a maior catástrofe da história, ultrapassando de longe o desastre da Peste Negra na Europa medieval.”

Com seus números drasticamente reduzidos e suas comunidades em desordem, alguns sobreviventes kuna felizardos refugiaram-se nas passagens montanhosas densamente cobertas de florestas e ao longo de remotas bacias fluviais ao norte. Em ambos os lados do istmo surgiam com frequência ainda maior forças potencialmente hostis. Os tesouros sacados do Império Inca ao sul e a prata das minas de Potosí no Alto Peru (atualmente a Bolívia) passaram pelo Panamá e atraíram legiões de piratas, soldados espanhóis e comerciantes. Os espanhóis ergueram postos avançados ao logo do litoral e trouxeram missionários católicos; colônias de escoceses e franceses lançaram raízes por um curto período antes de definharem ou serem expulsos. Os kuna fizeram parcerias e mudaram de lado tendo em mente os próprios interesses. E sobreviveram.

No fim do século XIX a ilegalidade tinha diminuído e os Kuna começaram a transportar-se para a planície costeira. Várias aldeias foram reassentadas em ilhas próximas ao litoral, no início de forma provisória. Ao longo do tempo a maioria da população Kuna assentouse nas ilhas relativamente livres de insetos e doenças. Naquela altura os Kuna se tornaram cidadãos da República da Colômbia, recém-independente. Residindo no remoto estado do Panamá, tinham contato mínimo com o governo central em Bogotá. Em 1903 os Estados Unidos, que estavam encontrando dificuldades nas negociações com a Colômbia para estabelecer uma rota através do Istmo, apoiaram a independência do estado do Panamá em busca pela independência. Os kuna ficaram então sob uma nova autoridade: a República do Panamá.

Nos primeiros anos a jovem república procurou estabelecer a sua identidade nacional. Parte de seu programa visava à “redução à vida civilizada de tribos bárbaras, semibárbaras e selvagens” dentro de suas fronteiras e, mais especificamente, “incorporar San Blas e civilizar os kuna”. O governo instalou postos policiais em algumas das ilhas, lançou uma campanha de vestir as mulheres com roupas ocidentais e tinha planos para abrir terras kuna à colonização e exploração. Os kuna resistiram, assumiram atitudes dilatórias e passividade para subverter as reformas indesejadas e contrataram um advogado panamenho para defender seu caso na capital. O governo respondeu com controles mais rígidos. Estourou a violência: uma aldeia foi totalmente incendiada e vários policiais morreram em escaramuças.

Ao se desenrolarem as confrontações, alguns norte-americanos que passavam por San Blas expressaram apoio à situação dos kuna. Por meio deles os kuna conseguiram estabelecer outra aliança estratégica, desta vez com o Governo dos Estados Unidos. A tensão com o Panamá intensificou-se em fevereiro de 1925. Aproveitando as distrações durante as festas de carnaval, os kuna de várias aldeias lançaram um ataque sincronizado contra os guardas panamenhos e seus colaboradores kuna, matando 30 pessoas. Uma embarcação repleta de policiais armados, enviada para retaliar, foi barrada pelo cruzeiro USS Cleveland no que é agora a entrada ocidental para a Comarca. As armas foram deixadas de lado e as três partes — kuna, panamenhos e norte-americanos — formularam um tratado que permitia aos kuna controlar seu território. Em 1938 receberam a designação de comarca com uma provisão de governo semiautônomo.

Cartografia

“Tanto quanto as armas de fogo e os navios de guerra”, observou o geógrafo J. Harley, “os mapas têm sido as armas do imperialismo”. Este princípio foi demonstrado na virada do século XV quando, com um tratado à distância e alguns traços da pena do cartógrafo, a América do Sul foi silenciosamente dividida em “possessões” portuguesas e espanholas.” Nações e impérios não são características naturais da paisagem; são construções humanas impostos para transformar grandes extensões do mundo em imóveis. A cartografia tem sido chamada de “a ciência dos príncipes”, usada na história por elites para legitimar reivindicações sobre a terra e os recursos. Em um ambiente mais atual, corporações multinacionais utilizam mapas para obter concessões em regiões e minérios, petróleo e gás natural, bem como para isolar (e desmatar) vastas extensões para cultivo de cana-deaçúcar, soja e óleo de palma.

Entretanto, nos últimos anos os povos indígenas viraram o jogo utilizando as ferramentas da cartografia para produzir os próprios mapas. Muitos foram além do uso de sistemas de informação geográfica (GIS), detecção remota e fotografia aérea e reuniram informações detalhadas no terreno sobre características significativas das terras que ocupam e usam. Seus mapas, cartograficamente exatos e enriquecidos pelo conhecimento local, têm a autoridade para ajudá-los a defender suas terras contra invasão de forasteiros, fortalecer a organização política e a identidade cultural, bem como concentrar a atenção em questões ambientais críticas e no desenvolvimento econômico. O processo de produzir mapas nos próprios termos é em si mesmo uma fonte de poder.

A necessidade de mapear

Quando os kuna iniciaram seu projeto, o Instituto Geográfico Nacional “Tommy Guardia,” órgão público de mapeamento do Panamá, tinha um inventário incompleto de mapas da Comarca em uma escala de 1:50.000. Segundo admitido por esse órgão, o que estava disponível não era muito confiável. Preparado com fotografias aéreas tiradas na década de 1960, os mapas careciam de detalhes e continham muitos erros e falsas alegações. Nem mesmo os contornos do litoral eram exatos. Mapas da área do continente mostravam apenas os rios principais; alguns rios estavam representados em lugar errado e os poucos que tinham nomes eram rotulados com uma mescla estranha de espanhol e kuna mutilado. Um rio a que os kuna chamam de Akwadi ou Rio das Pedras (das palavras awka e di que significam “pedra ” e “rio”) aparece como “Rio Água”. Embora os rios regularmente mudem de curso nos trópicos, neste caso os cartógrafos, que não podiam ver através da densa cobertura florestal mostrada nas fotos, usaram a própria imaginação. As cartas náuticas produzidas pelo Almirantado Britânico e pela Agência Nacional de Produção de Imagens e Mapeamento dos Estados Unidos (NIMA) de 1917 a 1919 (e retocadas em 2001) mostravam ilhas chamadas inexplicavelmente Ilha Gertie e Ilha George.

Os kuna decidiram corrigir essas distorções vendo a paisagem de sua própria perspectiva. Esse empreendimento envolveu o Congresso Geral Kuna, a autoridade máxima do povo kuna; o Instituto Geográfico; e o Center for the Support of Native Lands [Centro de Apoio a Terras Indígenas (doravante Native Lands)], uma organização não governamental sediada em Arlington, Virgínia, EUA, que trabalha com povos indígenas na América Latina. O Congresso organizou e gerenciou o projeto do início ao fim; selecionou a equipe de mapeamento; encarregou-se dos contatos com o governo; e conseguiu financiamento e logística. O Native Lands proporcionou a metodologia de mapeamento e a supervisão técnica. O cartógrafo do Instituto Geográfico trabalhou com a equipe de mapeamento e a unidade técnica do Instituto preparou uma versão preliminar dos mapas e imprimiu a versão final. A Fundação Interamericana e a Agencia Española de Cooperación Internacional (AECI), órgão de ajuda externa do Governo da Espanha, proporcionaram o financiamento.

O projeto diferenciou-se dos empreendimentos cartográficos de várias formas. A equipe de mapeamento – constituída de pesquisadores e coordenadores de campo de mais de 30 aldeias, uma unidade técnica formada por quatro cartógrafos e dois funcionários administrativos — foi totalmente kuna, com exceção de um cartógrafo do Instituto Geográfico. Os moradores de 51 comunidades da Comarca trabalharam com os pesquisadores na coleta de dados oferecendo seus conhecimentos da região. Esta informação foi registrada nos esboços cartográficos nas comunidades e depois plotados nos mapas de base revisados com informações das fotografias aéreas, imagens de satélite e outros recursos cartográficos disponíveis. Denis Fuentes, Diretor do Instituto, chamou o resultado híbrido de padrões cartográficos combinados com os dados de campo “até agora os mapas mais detalhados e exatos que temos de qualquer área rural do Panamá”. Acrescentou ele: “É um modelo a ser seguido”.

A metodologia

A metodologia aplicada foi desenvolvida da colaboração em uma série de projetos iniciados em 1992 com a participação da Native Lands e dos povos indígenas da América Central, América do Sul, África e Sudeste Asiático. Consiste de um período inicial de preparação básica para informar as comunidades e os órgãos governamentais, seguido de três workshops que se alternam com dois períodos no campo e finalmente a produção de mapas complexos. Este processo pode levar até 18 meses ou mais, dependendo da complexidade da área mapeada e de outros fatores. Esta metodologia é conceitualmente simples, mas sua aplicação pode ser complicada por reviravoltas imprevistas. Foi o caso do projeto dos kuna.

Dada a logística requerida para trabalhar com 51 aldeias, os kuna começaram por dividir seu projeto em duas fases. No melhor dos casos, as comunicações e viagens são precárias para as comunidades mais remotas e os workshops com participantes demais correm o risco de se tornarem incontroláveis. Assim a Fase 1 abrangeu 32 comunidades na metade oeste da Comarca e a Fase 2 incluiu 19 comunidades ao leste. Isso fez o projeto ser prorrogado por mais um ano. E nesse processo a equipe teve de atravessar vários matagais burocráticos e políticos que provocaram mais demoras e prolongaram o projeto por quase três anos.

O primeiro workshop foi realizado em junho de 2001 na ilha de Gaigirgordub (ou El Porvenir), na extremidade ocidental da Comarca. Em seu discurso de abertura, Gilberto Arias, um dos três Saila Dummagan ou Grandes Chefes do Congresso Geral, incentivou os 20 pesquisadores da Fase 1. Valerio Núnez, Diretor do Projeto, os coordenadores e cartógrafos começaram a prepará-los para selecionar as três categorias de características que seriam colocadas em seus mapas: (1) características físicas significativas, tanto naturais como feitas pelo homem, incluindo rios, trilhas, montanhas, ilhas e recifes de corais, com os respectivos nomes; (2) áreas de terra usadas para agricultura, pesca e coleta de alimentos; e (3) locais de importância cultural e histórica. Após muitas discussões, a equipe de mapeamento selecionou as áreas em que os kuna plantam coco e colhem as folhas da palmeira weruk, usada para cobertura de telhado; trechos de ervas marinhas em áreas rasas ao largo da costa; cemitérios, cuja maioria é encontrada em terra, ao longo dos rios; e galugan ou domínio dos espíritos, frequentemente encontrados nas montanhas. A seguir, a equipe escolheu símbolos para significar as diversas áreas. Áreas de caça, por exemplo, foram indicadas por um tapir, o animal de caça mais valorizado pelos kuna.

Os cartógrafos demonstraram conceitos básicos de mapeamento, tais como escala, orientação e representação. Entre eles figuram como identificar os melhores informantes e como transcrever sua informação em esboços cartográficos. Os caçadores e pagés, por exemplo, que viajam muito pelas montanhas, conhecem bem as regiões mais remotas. As mulheres, cujo trabalho as limita às respectivas comunidades, têm pouco conhecimento dos bosques além de um pequeno raio de extensão de sua casa. É mais eficiente trabalhar com grupos de três ou quatro informantes em vez de grandes grupos. Finalmente, os pesquisadores foram divididos em pequenas equipes e desenharam mapas de “teste”, trabalhando com o conhecimento já adquirido pessoalmente e fazendo uma crítica mútua dos produtos, um por um.

No fim do workshop de quatro dias, os pesquisadores retornaram às respectivas comunidades para começar o processo de desenhar mapas do meio ambiente usado para subsistência. Aqui encontraram o primeiro obstáculo significativo, aliás bastante comum. Os doadores trabalharam de forma independente e os desembolsos não estavam sincronizados. Isto causou deficiências em áreas-chave. Os materiais essenciais para a fase de pesquisa de campo não estavam disponíveis quando necessários — folhas de papel em branco, canetas, conjuntos de lápis coloridos, réguas, apagador líquido, tubos para mapas e bússolas. Os líderes do projeto conseguiram tomar empréstimos e fazer as compras, mas várias semanas foram perdidas nesse processo.

Além disso, os fundos para viagem não foram desembolsados a tempo para os cartógrafos e coordenadores visitarem os pesquisadores no campo e lhes prestar apoio. Como medida temporária, os pesquisadores mais especializados encontraram formas de atualizar os colegas não muito experientes. Quando os fundos para salários profissionais não foram desembolsados segundo previsto, um dos coordenadores comentou: “os intestinos do diretor estão em pedaços de tanta tensão”. Mas a importância dos mapas era clara e assim todos seguiram em frente. Em meados de julho os pesquisadores viajaram à Cidade do Panamá para participar do segundo workshop, a fase mais crítica do projeto de mapeamento: começar com os cartógrafos o processo de transcrever a informação das comunidades em mapas novos e georreferenciados. Cheios de entusiasmo, os pesquisadores chegaram com seus esboços cartográficos debaixo do braço e todos começaram a trabalhar.

A qualidade dos esboços cartográficos era desigual. Dois combinavam talento artístico e detalhes precisos. Vários eram esteticamente bonitos, mas de valor científico duvidoso. (Um mostrava rios se cruzando, o que os rios não fazem.) Outro era quase surrealista em sua confusão de escala e orientação geográfica, colocando agricultores em pântanos e topo de montanhas. Alguns eram tecnicamente corretos, mas ofereciam informações escassas. Essa incoerência poderia ser atribuída, em parte, à falta de supervisão direta no campo, mas o simples fato era o seguinte: alguns pesquisadores aprenderam mais rapidamente do que outros e produziram melhores mapas. Felizmente, todos eles tinham mais informações na cabeça do que se evidenciava em seus mapas e os cartógrafos as esmiuçaram durante a transcrição. Por um acaso, um cartógrafo kuna, funcionário do Escritório da Auditoria da República, encontrou alguns mapas recentes que sua divisão tinha feito da Comarca, mais exatos do que os mapas do Instituto Geográfico. Os cartógrafos passaram alguns dias limpando os mapas e eliminando as linhas de contorno para poderem transcrever os dados das aldeias em um espaço aberto limpo.

À medida que todos se acostumaram com a metodologia, a transcrição entrou em um ritmo e avançou a um passo cada vez mais produtivo. Pequenos grupos de pesquisadores de comunidades contíguas trabalharam cada qual com um cartógrafo. Equipararam rios nos esboços cartográficos com os rios das fotos e as imagens do satélite. Colocaram os recifes de corais no mar aberto e lhes deram nomes. Realinharam as ilhas e lhes deram uma forma própria e nomes kuna. (A Ilha George e a Ilha Gertie foram eliminadas). Definiram áreas de subsistência Incluíram cemitérios e lugares sagrados. Gradualmente, como por um passe de mágica, os mapas da Comarca começaram a ser preenchidos e a assumir um caráter realmente kuna.

O trabalho foi intenso mas gratificante, à medida que os coordenadores e cartógrafos trabalharam para fazer referência cruzada dos esboços cartográficos, fotos aéreas, imagens de satélite e mapas governamentais. Usando estereoscópios, examinaram as fotos aéreas em 3-D. Quando os pesquisadores ficavam encalhados, eram encorajados a começar de novo e “fazer uma jornada imaginária” através da floresta, o que geralmente refrescava a sua memória e fazia as imagens fluir. Quando os mapas esboçados se tornavam demasiadamente confusos com rasuras e correções, os cartógrafos faziam cópias limpas. Marcavam as lacunas e as áreas confusas nos esboços, os quais eram registrados nos notebooks dos pesquisadores para esclarecimento no segundo período de campo. O processo de constantemente questionar, revisar, eliminar e acrescentar era reiterativo e enfadonho, mas também criativo e empolgante, e os participantes estavam cientes de que faziam parte da produção de um documento singular e importante para seu povo.

As sessões da noite eram dedicadas às discussões. Os pesquisadores aprenderam a história das respectivas comunidades em longas sessões com os anciães e estavam ansiosos para repassar os relatos sobre relocações de aldeias e desastres naturais, bem como eventos e líderes significativos. O ambiente em deterioração da Comarca era objeto de preocupação especial. Observaram que muitos recifes que sofreram “desmatamento submarino” tinham sido tirados como aterro para expandir comunidades insulares. O lançamento de dejetos de sacos e garrafas de plástico, latas de metal e outros resíduos contemporâneos nas águas ao redor das ilhas desabitadas — ocorrência recente — causou séria poluição. Tartarugas e lagostas, outrora abundantes, estavam quase extintas devido à exploração excessiva. Como observou um pesquisador, quando há vários anos uma empresa chegou à Comarca para comprar peixes exóticos para aquários, os mergulhadores Kuna procuraram atender à demanda até ser suspensa pelo Congresso Geral.

O segundo workshop durou duas semanas. O conjunto relativamente bom de mapas esboçados produzidos recompensou os participantes com um sentido de realização. Os pesquisadores retornaram às respectivas comunidades com seus mapas para os moradores os verificarem, acrescentarem informação e responderem às perguntas dos cartógrafos. Por estas alturas todos os fundos já tinham sido desembolsados e as tensões acalmadas. Os coordenadores e cartógrafos foram aos locais que não tinham ficado claros nas fotografias aéreas – áreas de alga marinha, por exemplo, e pontos ocultos embaixo da cobertura florestal – e deram apoio aos pesquisadores. Após seis semanas no campo, os pesquisadores regressaram à cidade do Panamá para o terceiro workshop, realizado no início de 2002. A equipe trabalhou com afinco, sintonizando seus mapas e preparando as versões finais para os cartógrafos do Instituto. Terminaram o trabalho em uma semana.

Intervenção de políticos

O Congresso Kuna e o Instituto Geográfico tinham concordado em que os cartógrafos do Instituto se encarregariam da produção final dos dois conjuntos de mapas que se tornariam propriedade do Congresso. A primeira consistiria em uma visão geral da Comarca em duas folhas, as quais finalmente tiveram uma escala de 1:143.000; a segunda seria uma série de oito mapas maiores com mais detalhes em uma escala de 1:50.000. O orçamento incluía fundos para pagar os cartógrafos do Instituto alguma remuneração acima do salário notavelmente mais baixo de funcionário público por seu trabalho na elaboração dos mapas, adicional às suas tarefas normais. Esse bônus também era um incentivo para avançar a produção a um ritmo acelerado. O Instituto não dispunha de sistemas de informação geográfica (GIS) e todos os seus mapas eram produzidos à mão usando a técnica chamada traçagem. Este processo exigente requer que o cartógrafo trabalhe em uma mesa iluminada sobre folhas de plástico transparente revestido de uma substância semiopaca. As linhas cortam o revestimento suave com um estilete para definir as características terrestres; as letras e símbolos especiais são afixados ou gravados individualmente nas folhas. Cada cor do mapa requer uma folha separada; todas as folhas são combinadas para produzir a impressão final.

Certas circunstâncias conspiraram contra a concessão do bônus. Em boa parte de 2001 e até 2002 a imprensa panamenha divulgou a existência de contratos ilícitos, subornos e negócios por baixo do pano em órgãos públicos. Independentemente da validade das acusações, circulavam boatos juntamente com o temor de que qualquer órgão pudesse ser atingido pelo escândalo. O Diretor do Instituto considerou que a remuneração adicional poderia parecer outro exemplo de corrupção pública. Tentativas para reestruturar um mecanismo aceitável de pagamento não tiveram êxito e os cartógrafos terminaram sem seu incentivo. Compreenderam as circunstâncias e agradeceram os esforços envidados em nome deles, mas mesmo assim ficaram decepcionados e o seu trabalho foi reduzido a um ritmo moroso.

Fase II

Neste ínterim, em janeiro de 2002 a segunda fase do projeto prosseguiu na metade oriental da Comarca. Experiente e mais confiante, a equipe de mapeamento continuou sem problemas a orientação do novo esquadrão de pesquisadores. A região oriental é muito mais isolada do que a metade ocidental da Comarca, além de ser muito mais tradicional e inacessível a forasteiros. Os mapas da área do Instituto eram irregulares e extremamente não confiáveis; as poucas fotografias aéreas existentes eram antiquadas. Para compensar esta deficiência, a equipe recorreu a uma empresa privada da Cidade do Panamá que dispunha de sistemas de informação geográfica (GIS) e tinha o que se precisava a um preço razoável. Assim, naquela mesma tarde estourou a notícia de que essa empresa estava envolvida em um processo e que o Governo do Panamá estava a ponto de intervir. Duas semanas mais tarde foi fechada e o proprietário estava foragido. O projeto de mapeamento parecia envolto em escândalo por todos os lados. Felizmente a Native Lands estava concluindo um mapa da América Central e sul do México em colaboração com a National Geographic Society e forneceu a informação requerida e a equipe prosseguiu seu trabalho.

A partir de então correu tudo bem – com exceção de um pequeno contratempo. Dedicada intensamente à realização dos workshops e supervisão dos pesquisadores no campo, a unidade de cartografia dos kuna dispôs de pouco tempo para trabalhar com o pessoal do Instituto na preparação dos mapas finais. Os kuna erroneamente supuseram que os profissionais do Instituto, que não estavam familiarizados com a região nem com o idioma, poderiam transferir os mapas esboçados para a fase final sem a sua assistência. Esse cálculo errôneo aumentou com o fato de os kuna não terem revisado cuidadosamente os mapas finalizados antes de imprimi-los. Os mapas impressos, repletos de erros, tiveram de ser revisados detalhadamente e reimpressos, resultando em custo adicional e demora de vários meses.

Finalmente as atividades de campo terminaram, dando aos cartógrafos kuna mais tempo para supervisionar o trabalho no Instituto. Verificaram omissões, ortografia de palavras kuna, simbolismo, coerência e colocação de características físicas. Estavam assim dispensando mais interesse aos mapas, confirmando a qualidade da informação deles constante. A traçagem implica um trabalho metódico e intensivo e estava progredindo lenta mas regularmente. Após passarem por um escrutínio extremo, todos os mapas estavam prontos. O último mapa saiu do prelo em janeiro de 2004.

O resultado

A equipe apresentou os mapas em uma assembleia geral do Congresso Kuna da qual participaram delegados de toda a Comarca, da Cidade do Panamá e de Colón. Os participantes consideraram o conjunto de mapas muito bem elaborados, precisos e certamente os melhores jamais produzidos na Comarca, observando que eram o trabalho da equipe kuna com a assistência técnica do Instituto Geográfico Nacional e que no coração do projeto havia 51 comunidades que tinham fornecido a informação principal. Havia um forte sentido de propriedade coletiva. Os anciães, porém, tiveram uma reação mais moderada, reservando seu juízo até os benefícios ficarem claros. Esta, naturalmente, é a questão-chave: qual foi o resultado de todo este trabalho e valeu a pena o esforço?

O benefício mais óbvio é o conjunto de mapas detalhados e exatos do território kuna, produzidos segundo as especificações dos kuna. A visão geral da Comarca inclui um inventário dos locais culturais e recursos naturais, juntamente com os limites e áreas de conflito potencial. Menos óbvias são as aptidões adquiridas pela equipe do projeto e pelos residentes da Comarca: como ler e interpretar mapas e como usá-los. Embora os técnicos da equipe já tivessem conhecimento de cartografia, nunca tinham desenvolvido um mapa desde o início. Os outros membros da equipe não tinham nenhuma experiência com mapas, exceto os encontrados nos manuais escolares. O processo de coletar dados brutos no campo e daí trabalhar com cartógrafos na transcrição da informação em mapas georreferenciados mudou tudo. Muitos participantes do projeto tornaram-se alfabetizados em mapas”. O processo serviu para conscientizá-los a respeito de questões às quais poucos tinham previamente dispensado muita atenção.

Os kuna podem agora utilizar os mapas para identificar problemas, tais como a intrusão de agricultores não indígenas na Comarca ao oeste e de garimpeiros colombianos ao leste, bem como desenvolver estratégias para abordar essas questões. Podem perceber ações predatórias de empresas estrangeiras de mineração em seu território e negociar projetos específicos com o governo, corporações e doadores internacionais. E podem abordar questões ambientais, tais como deterioração de recifes de corais, pesca excessiva e poluição como mais do que abstrações.

A parte ocidental da Comarca é uma área de preocupação especial, uma vez que seus limites foram originalmente traçados de forma arbitrária em uma linha reta, seguindo o litoral. As comunidades insulares próximas vinham tradicionalmente penetrando no continente na busca de subsistência ou de terras sem título de propriedade em áreas remotas, terras consideradas, pelo menos oficialmente, como propriedade do governo. Até recentemente isso não tinha sido um problema, porque ninguém as reivindicava. No entanto, nas últimas décadas agricultores de subsistência e pecuaristas começaram a penetrar na região que os kuna tinham tentado, sem êxito, incorporar na Comarca e o resultado tinha sido o conflito. Os novos mapas documentam o uso da terra pelos kuna e por se tratar de mapas “oficiais” do governo, produzidos pelo Instituto, o Congresso Kuna os está usando para defender sua causa de uso e ocupação prolongados por meio de canais políticos e legais.

Os mapas são apenas instrumentos. Sua eficácia depende da forma como são usados e isto somente se torna evidente com o passar do tempo. Os kuna são astutos e tenazes. Prevaleceram no passado recuando quando necessário, escolhendo estrategicamente seus aliados e explorando oportunidades quando aparecem. Superaram uma série de obstáculos para produzir o que todos, tanto kuna como não kuna, consideram mapas altamente exatos e detalhados de seu território. Não resta dúvida de que farão um bom uso deles nos anos vindouros.

Mac Chapin é antropólogo que vem trabalhando com os kuna desde meados da década de 1960. De 1982 a 1984 foi representante da IAF para o Panamá e Honduras. É atualmente diretor do Center for the Support of Native Lands e mora em Boulder, Colorado, EUA.