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Cozinhando no sol de José Toasa

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Há cerca de 20 anos um pequeno grupo de mulheres da costa sul da Guatemala, a maioria de etnicidade Quiche ou Kaqchikel, organizou as Amigas del Sol (ADS) para enfrentar os desafios diários da vida rural. Quase imediatamente depois, se concentraram no fogo para cozinhar, o qual consome até 18% do orçamento domiciliar, causa queimaduras, acelera o desmatamento e expõe toda a família a doenças respiratórias que incluem pneumonia, bronquite crônica e até mesmo câncer do pulmão. Famílias sem dinheiro suficiente frequentemente mandam os filhos procurar lenha quando deveriam estar na escola.

A ADS ajuda grupos comunitários a construir fornos que utilizam como combustível uma fonte mais abundante de energia: o sol. Inventado por Siam Nandwani, professor universitário da Costa Rica, o desenho foi melhorado no fim da década de 1980 por Bill Lankford, físico estadunidense. Ele construiu um forno solar, constatou que funcionava e fundou o Projeto Centro-Americano de Energia Solar (CASEP) para promover seu uso. A notícia da invenção espalhou-se depois que Lankford construiu um segundo forno às instâncias de Jan Gregorich, freira designada a uma paróquia na costa leste da Guatemala. O sucesso do dispositivo baseiase em uma lição crucial para o desenvolvimento de base. Os primeiros fornos, construídos por carpinteiros especializados, não foram aceitos pelas pessoas de baixa renda a quem se dirigiam. A lição: As usuárias tinham que investir neles, ou seja, as próprias cozinheiras tinham que construir os fornos.

As mulheres tomaram conhecimento da ADS verbalmente. Aqueles que queriam introduzir a tecnologia na respectiva comunidade deviam convencer a ADS a respeito de seu compromisso durante um período de prova obrigatório de seis meses. Como grupo, recebiam um forno emprestado e aprendiam a cozinhar com ele, confirmando nesse ínterim que as condições climáticas locais eram adequadas. Os funcionários da ADS faziam visitas sem aviso prévio para verificar se o forno estava sendo usado. Os grupos que continuavam no programa passavam duas semanas construindo os próprios fornos. Durante esse período as mulheres aprendiam a usar serrote, chave de fenda, cortadores de vidro e pincéis. “As participantes aprendem que podem fazer as mesmas coisas que os homens”, confirmou Miguelina Miranda, que trabalha na ADS há mais de 15 anos. As mulheres do programa modificaram o desenho, acrescentando um compartimento de armazenagem e uma prateleira móvel para as panelas, bem como rodas e alças que permitem ao forno atuar como carrinho de mão. Aumentaram também o tamanho para ajustar toda uma refeição para uma família indígena típica. Os intervalos para almoço durante a construção eram usados para desenvolver confiança e coesão organizacional. Uma vez terminados os fornos, um grupo de cozinheiras-carpinteiras decidiu construir mobília para o centro comunitário local. Outros grupos conseguiram financiamento para trabalhar em conjunto em avicultura, criação de pequenos animais e melhoria da moradia instalando sanitários eficientes que usam pouca água e permitem transformar os dejetos em adubo.

O uso de fornos que não produzem fumaça, operam sem custo e salvam florestas é um pequeno passo para proteger o meio ambiente e tem reduzido significativamente a vulnerabilidade a doenças respiratórias. E os fornos ainda têm outra função importante. Todas as usuárias em uma determinada comunidade aparecem ao mesmo tempo para ajustar os fornos à posição do sol e manter contatos sociais. “É uma oportunidade para saber como vão as outras e manter-se em dia com o que está acontecendo”, disse uma das mulheres. A limitação dos fornos é o fato de só poderem ser usados seis meses do ano. A ADS está considerando fogões com combustível eficiente como alternativa para os dias nublados e época de chuvas. Neste ínterim, os fornos solares fazem bons vizinhos. — José Toasa, representante da IAF para a Guatemala