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Awka Liwen de Amanda Hess

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Awka Liwen
Escrito e narrado por Osvaldo Bayer
Dirigido por Mariano Aiello e Kristina Hille
Macunudo Films: 2010

Awka Liwen, ou “Rebelião ao amanhecer” em mapuche, documenta a trágica saga dos argentinos que Osvaldo Bayer, a força propulsora desse filme, chama de los pueblos originarios. Historiador e jornalista, Bayer começou a se interessar por esses indígenas nos anos 1950; nos últimos 10 anos, ele se envolveu profundamente com as questões desses povos, como acadêmico, defensor e ativista. Awka Liwen está no centro desse esforço supremo para apresentar a versão correta a um público cuja educação, na sua opinião, negligenciou seriamente esses americanos nativos.

A lição de história de Bayer combina cinematografia contemporânea com fontes primárias, como jornais, fotos de arquivos e cinejornais, testemunho de peritos, animação reforçada com efeitos sonoros e excertos de La Patagonia Rebelde, o filme de1974 cujo roteiro ele escreveu. Repleta de detalhes fascinantes, a narração começa com Bayer observando que os fundadores da Argentina deram aos índios os mesmos direitos que aos outros habitantes e começaram a abolir a escravidão em 1813. Em poucos anos, esses princípios foram traídos na busca por terras que culminou com a Conquista del Desierto pelo General Julio Argentino Roca; deserto é um eufemismo, nos diz Bayer, da vasta extensão que incluía os férteis pampas. A consolidação levou tempo. Friedrich Rauch, o coronel prussiano que erradicou os índios ranqueles, foi morto em 1828, aparentemente por “Arbolito”, um jovem guerreiro que as tropas confundiram por um árvore. Nos anos 1870, o Ministro da Guerra Adolfo Alsina planejou conter os índios cavando uma trincheira de 600 quilômetros, que nunca foi concluída.

A campanha de Roca durou de 1878 a 1884. Pela conta de Bayer, a Conquista tirou a vida de milhares de índios e enriqueceu os 600 proprietários que haviam financiado as operações de Roca. Um deles, José Martínez de Hoz, adquiriu 2,5 milhões de hectares, quase a área de El Salvador. O filme traça até o presente o legado da mudança na posse da terra: estrutura fiscal injusta, degradação ambiental, flagrante desigualdade. De maneira mais imediata, a “distribuição de índios” com sanção oficial que se seguiu à Conquista forçou homens, mulheres e crianças a trabalhar em condições de semiescravidão nas grandes propriedades, projetos militares e plantações de cana de Tucuman. As ondas subsequentes de imigrantes europeus deslocaram ainda mais os índios argentinos, agravando sua pobreza e exclusão. Segundo Bayer, eles se tornaram los primeros desaparecidos, uma metáfora da guerra suja dos anos 1970 que denota extermínio e invisibilidade.

A noção de que a Argentina não tinha cidadãos indígenas era antes aceita, mas hoje o país é considerado multirracial e multicultural. Segundo Bayer, citando pesquisas realizadas pela Universidade de Buenos Aires e CONICET, 63,1% da população tem descendência indígena. Ele acha que as reformas constitucionais que reconhecem os direitos dos pueblos originarios são “o início da mudança”. Em pessoa, ele contou a Desenvolvimento de Base sobre a mobilização para afirmar os direitos dos indígenas e reclamar suas terras. A cena de seu filme que mostra o despejo de um casal mapuche de uma propriedade da empresa de moda Benetton inclui uma rápida referência ao ativismo dos mapuches e outras organizações em nome do casal, que resultou em cobertura pela mídia internacional.

A recepção que teve Awka Liwen certamente indica uma mudança em curso. Segundo uma fonte, cerca de 3.000 argentinos assistiram à estreia do filme. Seus créditos incluem patrocínios de municípios, governos provinciais e o Ministério do Desenvolvimento Social, além de fundações empresariais e ONGs; o gabinete da presidência declarou que o filme é de “interesse nacional.” A compra do DVD pelo Ministério da Educação para distribuição em escolas está esperando o resultado de uma ação iniciada pelos descendentes de José Martínez de Hoz. Nesse ínterim, Bayer, aos 85 anos, dá palestras toda noite, acompanhado de uma banda de rock, que, inspirada por sua mensagem, passou a se chamar Arbolito.

Não há uma rebelião em Awka Liwen. O título se refere a uma pequena menina mapuche chamada Awka Liwen que Bayer encontrou e nunca mais esqueceu. “Esse nome tão profundo,” ele explicou ao jornal Miradas al Sur, “esses olhos que eu jamais esquecerei, são a melhor interpretação do espirito do filme”. — Amanda Hess, assistente de programas da IAF, com Gabriela Sbarra, e Paula Durbin