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A reciprocidade indígena e globalização no interior da Bolívia de Marygold Walsh-Dilley

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Há uma década eu morei, como voluntária de desenvolvimento comunitário no Corpo da Paz dos Estados Unidos, na poeirenta cidade boliviana de San Juan de Rosario no altiplano centro-sul. Eu estava lá para trabalhar com uma comunidade quéchua no desenvolvimento de uma indústria do turismo, mas fiquei tão fascinada com as rápidas mudanças que ocorriam à medida que San Juan passava de uma economia de subsistência e emigração para se tornar produtor da quinoa, cereal andino, como cultivo comercial para exportação. Eu estava especialmente interessada em ayni, o termo quéchua para reciprocidade e passei 10 anos estudando como esta prática tradicional estava mudando à medida que a zona rural boliviana se tornava cada vez mais integrada nos mercados globais.

A forma mais comum de ayni que ainda se aplica nos povoados andinos hoje em dia é a provisão recíproca da mão de obra. Um agricultor trabalha no campo de outra pessoa, criando a obrigação de retornar o favor. As permutas são por serviços equivalentes, geralmente uma jornada de trabalho. Essas permutas, essenciais para ganhar a vida, recebem o apoio de um compromisso de ordem moral. Os antropólogos consideram a participação na ayni e a etiqueta que a acompanha como uma característica definidora da identidade dos quéchua, o maior grupo indígena dos Andes, e notam de sua importância para os rituais e cerimônias. “A reciprocidade é como um motor no coração da vida andina”, escreveu a antropóloga Catherine Allen (2002: 73). É uma parte central de um sistema econômico que tem apoiado comunidades e até mesmo impérios durante séculos no panorama montanhoso altamente desafiante.

Essas montanhas são importantes e sua inclinação acentuada e ar frígido representam um desafio formidável para manter a sobrevivência e as comunidades. O povo andino antigo transformou essas dificuldades em vantagem, estabelecendo controle sobre o maior número possível de nichos. As zonas diferenciadas por altitude e um ambiente físico altamente variável fornecem uma série de recursos que permitem a sobrevivência do povo andino. Por exemplo, a agricultura do altiplano produz diversos tubérculos e cereais; os vales mais baixos oferecem frutas e legumes, milho, algodão, guano, cacau e madeira. Ao contrário de comunidades em partes do mundo em que o comércio e os mercados asseguravam o acesso à variedade necessária de bens de consumo, as comunidades andinas sobreviveram por meio de uma prática chamada com frequência — e apropriadamente — de “verticalidade” (Murra 1972). Para ganhar controle sobre os recursos disponíveis, as comunidades andinas enviavam os “colonos” a diferentes altitudes e compartilhavam produtos por meio de um sistema elaborado de reciprocidade e redistribuição. Murra (1972) sugere que esse padrão era pan-andino e há provas de ter perdurado desde 500 A.D. até o dia de hoje. Este “arquipélago vertical” fundamentava-se em interação mutuamente benéfica em uma comunidade, a qual, conforme observado por europeus no início do período colonial, permitia ao povo andino obter prosperidade considerável. Posteriormente, à medida que seu império se expandia, os incas asseguraram o controle social mobilizando o compromisso andino a interações recíprocas entre indivíduos, comunidades e Estado. Embora práticas específicas tenham sofrido modificações ao longo do tempo, há um alto grau daquilo que o antropólogo Nathan Wachtel chama de “comunidade ideológica” no tocante à reciprocidade nos Andes e que continua a ser um fator organizacional na experiência social andina.

No entanto, há diversos desafios às práticas e costumes tradicionais que impingem constantemente às comunidades rurais andinas. Os atuais espaços rurais estão sendo rapidamente incorporados à economia global que enfatiza o indivíduo sobre a comunidade. As práticas agrícolas estão evoluindo à medida que os agricultores reagem cada vez mais às oportunidades do mercado, tecnologias, afiliações religiosas e até mesmo entidades de desenvolvimento, todas as quais contribuem para desviar compromissos comunitários. A migração da zona rural para a zona urbana, que se intensificou depois da reformas agrárias das décadas de 1950 e 1960, pôs fim ao sistema de “fazenda” e liberou muitas pessoas da servidão rural, mas também corroeu redes e desgastou instituições, incluindo a ayni.

Mesmo assim, a minha pesquisa confirma que a reciprocidade continua a ser uma tradição vibrante. Meu trabalho de campo me levou a três comunidades diferentes, cada qual com a sua própria história e forma de inserção nos mercados global e regional, fragmentação religiosa e migração. Embora neste relato eu enfoque somente a recente integração de San Juan nos mercados globais da quinoa, todas as comunidades rurais da Bolívia continuam a depender de estratégias recíprocas para reconstituir sua sobrevivência, mesmo ao se tornarem profundamente envolvidas nos sistemas e processos globais. No entanto, o modo de aplicar essas práticas depende das necessidades e das experiências de cada local. O panorama que predominou em minha pesquisa foi o de pessoas utilizando a prática da ayni, institucionalizada desde longa data, à medida que respondem aos desafios e oportunidades da globalização. De fato, como essas práticas tradicionais demonstraram ser recursos ecológica e socialmente apropriados, o seu uso está sendo expandido e adaptado às necessidades atuais.

Em San Juan os residentes somente se tornaram plenamente integrados nos mercados de produtos básicos nas últimas duas décadas à medida que aumentou a demanda internacional da quinoa. Embora a quinoa seja enormemente nutritiva, no período colonial foi evitada como alimento indígena em prol de cereais europeus e de outros produtos. Esse colonialismo culinário criou hábitos dietéticos que permanecem enraizados até hoje e a quinoa ainda é considerada alimento inferior entre bolivianos da zona urbana e da classe média. A demanda de mercado da quinoa foi limitada até a década de 1980, quando chegou à atenção dos consumidores dos Estados Unidos e da Europa. Isso incentivou um aumento drástico na produção dos agricultores bolivianos, uma vez que esse cereal só pode ser cultivado com eficiência sob as condições especiais do altiplano andino.

Os consumidores estrangeiros responderam a uma pesquisa realizada por institutos dos Estados Unidos e sob os auspícios das Nações Unidas e de governos da América do Sul que identificaram múltiplas propriedades da quinoa, inclusive níveis inusitadamente altos de proteína completa. Os órgãos públicos e as entidades doadoras tornaram-se interessados na promoção da quinoa, primeiro por seu potencial de melhorar a dieta inadequada dos camponeses no altiplano andino e posteriormente como cultivo comercial para ajudar a reduzir a pobreza. Por um breve período na década de 1960 as regulamentações governamentais do Peru e da Bolívia exigiram que todas as padarias utilizassem uma quantidade de farinha de quinoa na fabricação do pão, o que resultou em aumento temporário da produção, mas isso fracassou devido à resistência dos negócios e consumidores urbanos. Outras iniciativas para apoiar a produção da quinoa incluíram projetos empreendidos ou financiados pela Missão Católica Belga e pela Fundação Interamericana (ver Healy 2001). Foram beneficiadas as comunidades da região de Salar nas vizinhanças das Salinas Uyuni, as maiores do mundo, onde é principalmente cultivada a espécie mais procurada da quinoa. Esta zona, na qual se situa San Juan, tornou-se o ponto quente da quinoa e os moradores deixaram de plantar batata para subsistência e intensificaram a produção de quinoa para o mercado e até mesmo expandiram as terras marginais.

A mecanização parcial do processo ajudou a expansão. Graças à Missão Belga, o acesso a tratores ajudou os agricultores a limpar e preparar os campos para a produção da quinoa em um lugar onde quase nada crescia. Posteriormente, a formação de organizações de base comunitárias aumentou significativamente a disponibilidade de tecnologias mecanizadas. Porém, após anos de produção intensificada, a colheita começou a cair ou a fracassar à medida que a terra ia sendo degradada. Em particular, o uso do trator para plantar quinoa esfarela o solo, provocando a perda da umidade limitada necessária para germinar sementes e levando a uma erosão causada pelo vento que prejudica as mudas e reduz as colheitas.

Este fato, em combinação com a mudança das condições climáticas caracterizada por uma pluviosidade não muito confiável e ventos ainda mais prejudiciais, levou os agricultores a voltarem ao trabalho manual de plantar campos que os tratores podiam limpar e preparar. Embora exigindo esforço físico consideravelmente maior, o trabalho manual adapta-se bem às condições locais porque depende de conhecimentos específicos que minimizam os riscos associados a um clima impre visível, erosão e solo deficiente. Plantar à mão conserva e mantém a maior parte da umidade limitada do solo e minimiza a erosão causada pelo vento porque não esfarela a crosta protetora do solo — problemas que têm aumentado à medida que a produção da quinoa passou a terras cada vez mais marginalizadas durante períodos de demanda crescente.

Dada a demanda maior do mercado, a produção é mais intensa e os grupos de trabalhadores são maiores do que nunca. Como os agricultores muitas vezes carecem de recursos para pagar salários em dinheiro, preferem atrair trabalhadores ativando a ayni e incorrendo na obrigação de reciprocar. A ayni também capacita os agricultores a acessar a mão de obra com maior certeza quando os trabalhadores são muito escassos. Deve-se isso a que, embora a obrigação de retornar a mão de obra por meio da ayni seja apoiada pelo compartilhamento de uma ética sólida de reciprocidade, o salário em dinheiro de aproximadamente US$3 frequentemente não é suficiente para induzir produtores já ocupados a trabalharem para outra pessoa. Ironicamente, em San Juan, tecnologias e mercados novos levaram a uma dependência ainda maior de redes de reciprocidade.

Em minha dissertação argumentei que a reciprocidade tem sido renegociada à luz de novas oportunidades e desafios. As práticas contemporâneas parecem muito diferentes das aplicadas no âmbito do arquipélago vertical de John Murra. Embora reflitam a continuidade do passado, foram elaboradas por uma panorama social em evolução, a fim de continuarem a ser eficazes e apropriadas. Por exemplo, em San Juan o compartilhamento recíproco da mão de obra costumava ocorrer em pequenos grupos estreitamente unidos de cinco a sete domicílios; essas famílias faziam rodízio entre campos como uma coletividade. Mas como os campos de quinoa — e consequentemente os grupos de trabalhadores — cresceram muito, o compartilhamento da mão de obra envolve produtores individuais da própria comunidade.

A reciprocidade continua a ser relevante, em parte, porque atende às necessidades tanto individuais como comunitárias. Embora a permuta da mão de obra ofereça aos indivíduos um recurso importante para gerenciar a produção, também contribui para a solidariedade comunitária porque constrói redes de confiança e amizade. Isso se tornou especialmente claro em San Juan, local muito querido nos círculos de desenvolvimento. A comunidade tem tido grande êxito em atrair financiamento, bem como interesse e participação de entidades de desenvolvimento. Os moradores atribuem seu sucesso à solidariedade e disposição de trabalhar em conjunto, fatores que consideram como centrais de sua capacidade de progredir e se desenvolver como comunidade. Alguns pesquisadores referem-se a essa cooperação como capital social, considerado crítico para o desenvolvimento, redução da pobreza e melhoria da saúde e bem-estar (Grootaert e Narayan 2004).

A importância da reciprocidade no desenvolvimento da Bolívia é enfatizada pelo Presidente Evo Morales, primeiro presidente indígena do país. Ele tornou a reciprocidade, solidariedade e comunidade a base de sua visão de um novo sistema econômico que, assim espera, resulte em melhor futuro para a Bolívia e, de fato, para o restante do mundo. A reciprocidade funciona nas comunidades rurais como parte da interação normal entre vizinhos que participam de permutas face à face em conformidade com normas comprovadas pelo tempo que regem o acesso aos recursos. Obviamente, resta a saber em que grau esse padrão pode ser aplicado aos níveis regional, nacional ou internacional. Em linhas gerais, em comparação com pessoas preocupadas com o futuro das práticas indígenas, tais como a ayni, considero que a reciprocidade continua a ser relevante e suas manifestações contemporâneas capacitam os habitantes andinos negociarem as incertezas do mercado global.

Marygold Walsh-Dilley, parte do ciclo de bolsistas de 2007-2008 da IAF, recebeu o doutorado em sociologia do desenvolvimento da Cornell University em 2012.


Referências

Allen C. 2002. The Hold Life Has: Coca and Cultural Identity in an Andean Community. Washington, D.C.: Smithsonian Institute Press.

Healy, K. 2001. Llamas, Weavings, and Organic Chocolate: Multicultural Grassroots Development in the Andes and Amazon of Bolivia [Lhamas, Tecidos e Chocolate Orgânico: Desenvolvimento de Base Multicultural nos Andes e na Amazônia Boliviana]. Notre Dame, Ind: University of Notre Dame Press.

Grootaert, Christiaan e Deepa Narayan. 2004. Local Institutions, Poverty and Household Welfare in Bolivia. World Development 32(7): 1179-1198.

Murra, J. 1972. Formaciones Economicas y Politicas del Mundo Andino. Lima: Instituto de Estudios Peruanos.