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A mulher perseverante: os sonhos de Rosario Quispe para a puna de Patrick Breslin

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A paisagem em que Rosario Quispe se movimenta é medida em tempo geológico, mas ela tem mais pressa. Seu caminhão vai levantando poeira, enquanto ela atravessa a árida puna argentina, um imenso planalto que já foi o fundo do mar antes que as placas tectônicas colidissem e o arremessassem mais de 3.300 metros em direção ao céu, enquanto os picos dos Andes, subindo mais 1.500 ou 3.000 metros, se formavam ao redor. Seguiram-se milhões de anos de erosão pela ação atmosférica, desgastando montanhas, esculpindo rochas e solo em colunas retorcidas, transformando mares internos em grandes leitos salgados, expondo minérios em faixas de cores fantasmagóricas nas encostas. À primeira vista, a puna parece tão inóspita quanto a lua. Mas, em meio a essa vasta desolação, centenas de aldeias de adobe esparsas abrigam milhares de famílias de coyas, o maior grupo indígena da Argentina. Há quase duas décadas, Quispe e a organização por ela fundada, Warmi Sayajsunqo (WARMI), vem injetando nova vida nessas comunidades com uma visão de desenvolvimento tipicamente indígena.

Quispe é uma figura familiar nas aldeias, imediatamente reconhecível sob o chapéu de aba larga que protege sua pele cor de canela e seus olhos negros do sol inclemente, cabelos negros enrolados numa trança, calças escuras e botas tipo mocassim, uma blusa clara sob um xale ou poncho de lã para se proteger do frio penetrante que se faz sentir depois que o sol se põe. Suas frequentes visitas a comunidades da puna podem cobrir até 400 quilômetros por dia em estradas esburacadas e cheias de ondulações. Viajar com ela é presenciar o desenvolvimento ao estilo indigena. Durante cinco séculos, os povos nativos da América Latina foram empobrecidos, explorados e ignorados. Mais recentemente, se tornaram objeto de planos de assistência concebidos por “especialistas” nas capitais. WARMI, porém, era uma resposta 100% indigena à crise econômica da puna. No início, recebeu apoio da Fundação Avina (da Suíça) e depois da Fundação Interamericana, ambas dispostas a financiar as ideias de WARMI, e não impor suas próprias ideias. Essas ideias incluem um profundo ceticismo acerca do valor de peritos que não são da região, bem como a insistência no controle indigena do processo e uso do conhecimento acumulado pelos coyas em 8.000 anos de história na puna. Essas ideias se combinam com enfoques contemporâneos de desenvolvimento, como o microcrédito que está ajudando a concretizar a visão de Quispe de ter pelo menos uma empresa rentável em cada comunidade, uma ideia que brotou das memórias de uma infância passada na puna.

Seu nome de batismo é Rosario Andrada. Ela nasceu em 1959 em Puesto del Marqués, apenas 50 quilômetros ao sul da Bolivia. O Chile começa no topo das montanhas visíveis a oeste. Esse rincão longínquo da Argentina, a província de Jujuy, abriga a maior parte dos 200.000 coyas que habitam no país. Também é uma das províncias mais pobres da Argentina. Mas Quispe nos conta com orgulho que seu avô, Serapio Cussi, “tinha 300 vacas, 800 ovelhas e plantações de alfalfa e milho. Ele não ganhava um salário, mas não éramos pobres”. As memórias desse rancho, a sustentação e segurança que ela então sentia, proporcionaram o enfoque de volta ao futuro que orienta seu trabalho. Sua história faz parte de uma série de perfis para Desenvolvimento de base que investigam as experiências que formaram líderes de base bem-sucedidos na América Latina e as visões que extraíram dessas experiências. A vida e a visão de Quispe sugerem o poder e potencial dos povos indigenas da América Latina para superar meio milênio de submissão e construir seu próprio futuro.

Os líderes, como as montanhas, emergem quando as forças tectônicas mudam. Durante a vida de Quispe, a sociedade da puna mudou de maneira dramática. O mundo de seu avô, tão vívido em sua memória, baseava-se na exploração paciente dos recursos da puna e extenso comércio. Durante milênios, as rotas de comércio serpenteavam pelas montanhas e através da puna, ancorando-se num oásis ocasional onde a água límpida brotava na superfície. Ao longo dessas rotas, os coyas trocavam seus animais e couro, grãos e frutas, sal, têxteis e pedras preciosas entre zonas climáticas. A conquista espanhola adicionou novos produtos ao comércio: trigo, por exemplo, e mulas. Longos trens transportavam minerais e outros produtos para os portos coloniais em Lima e Buenos Aires. Os coyas adotaram as mulas para suas viagens comerciais pelas montanhas e mantiveram a rede intacta. Somente com a chegada da ferrovia no fim do século 19 é que começou a verdadeira sublevação.

A ferrovia não precisava de oásis; muitas comunidades que antes eram centros de comércio tradicional ficaram sem movimento e decaíram. Outras, como Abra Pampa, cresceram ao lado dos trilhos e se tornaram um portal para a puna. O principal motivo para a ferrovia era abrir a mineração industrial de chumbo, prata, zinco, cobre, ouro, estanho e lítio. As minas ofereciam empregos assalariados e os homens foram tirados de suas terras e rebanhos para extrair rochas ricas em minerais das montanhas. A agricultura de grande escala nos vales subtropicais atraiu mais coyas para as colheitas de cana-de-açúcar e tabaco. Durante grande parte do século 20, a economia da puna se baseava na migração dos homens para minas e plantações. Mudanças semelhantes estavam ocorrendo em muitas partes das Américas, na verdade, em todo o mundo. As gerações que cresceram nas décadas de meados do século 20 viram desaparecer as economias de seus avós. Essas economias, geralmente baseadas na agricultura e bastante auto-suficientes, sustentavam grandes famílias, mas definharam à medida que o investimento capitalista estimulou o crescimento e concentração na mineração, manufatura e agroindústria. A familia agrícola decaiu e os que trabalhavam na terra se tornaram assalariados, em geral longe de casa.

Quispe tinha oito anos quando sua familia se mudou para Minas Pirquitas e seu pai foi trabalhar nas minas. Na escola, ela participou de programas de esportes organizados pelo pároco, Pedro Olmedo, da Ordem dos Claretianos. Aos 19, ela se casou com Alfredo Quispe, mineiro como seu pai. Nos anos seguintes, deu à luz sete filhos e trabalhou como doméstica. Em meados dos anos 1980, outras mudanças tectônicas abalaram a sociedade da puna. A América Latina havia contraído uma dívida enorme para financiar sua economia de substituição de importações, que não podia mais se permitir. O México ficou inadimplente em 1982, a região se estagnou. Fábricas, minas e construções fecharam, milhares de empregos desapareceram. Alfredo Quispe perdeu seu emprego em 1988.

Rosario Quispe trabalhava desde 1984 com a Organización Claretiana para el Desarrollo (OCLADE), chefiada pelo agora Monsenhor Olmedo. Sua meta era organizar os habitantes da puna para melhorar sua situação. Quispe ficou encarregada de um projeto destinado a encorajar a participação das mulheres. Os principais funcionários da OCLADE eram peritos de fora de Jujuy, mas no final a iniciativa foi entregue aos locais. Já que a OCLADE atingia cerca de 200 comunidades, o trabalho de Quispe lhe deu uma perspectiva da região. Em suas visitas regulares, ela testemunhou que as comunidades que haviam se tornado dependentes dos salários recebidos pelos homens acabaram na pobreza quando eles perderam seus empregos. Em 1993, quando o último trem passou pelos trilhos que haviam provocado tanta mudança e desapareceu na história, a puna estava mais vazia e pobre do que na época da chegada da ferrovia. O que restava eram as mulheres coyas que haviam ficado tomando conta das casas, animais e pastos, quando os homens saíram de casa para trabalhar. Com a crise, o mundo em que os homens haviam aprendido a navegar se desmoronou. Quando regressaram à puna, sem emprego e subitamente dependentes do trabalho das mulheres, a tradicional dominância masculina se enfraqueceu. Apesar de sua habitual reticência, as mulheres assumiram cada vez mais iniciativas em suas comunidades.

A OCLADE também estava mudando, mas não na direção que Quispe desejava. Graças em parte à capacitação, surgiram novos líderes, mas os funcionários mais influentes relutavam em ceder autoridade. Divisões fundamentais surgiram e se ampliaram. Em 1990, Quispe e outras pessoas saíram da OCLADE, inclusive o economista Raul Llobet e Agustina Roca, antropóloga que foi uma das fundadoras da organização. “Rosario ficou na rua,” lembra Roca. “mas ela já tinha uma ideia do que queria: um processo liderado pelos coyas.”

O rompimento com a OCLADE cristalizou o pensamento de Quispe. “Tínhamos que fazer algo diferente,” ela escreveu em sua curta autobiografia. “Se continuássemos do mesmo jeito, morreríamos de fome.” Ela e o marido se mudaram para Abra Pampa, uma cidade de 12.000 habitantes, onde, em 1995, convidou um grupo de 10 mulheres para se reunir em sua casa. “Decidimos trabalhar juntas, encontrar nossas próprias soluções, não esperar que alguém viesse nos salvar,” lembra Quispe. O nome quíchua escolhido para sua organização — que significa mulheres perseverantes — captava tanto o passado quanto o futuro visado. Em poucos meses, tinha 320 membros. Dois problemas definiam suas primeiras atividades: a necessidade de renda e uma situação de saúde alarmante. Elas começaram com uma atividade tradicional, a tecelagem de lã, e construíram uma pequena sede na periferia de Abra Pampa, com espaço para uma loja onde poderiam vender os fios de lã e roupas que produziam. Ao mesmo tempo, lutavam para entender o que parecia ser um índice incomumente elevado de câncer do colo do útero que estava matando muitas mulheres.

Em 1997, a Fundação Cúpula Mundial das Mulheres, baseada em Genebra, concedeu a Quispe o “Prêmio à criatividade das mulheres no meio rural”, um reconhecimento que ajudou a chamar a atenção da Fundação Avina e outros para os problemas de pobreza e saúde na puna. Organizações médicas internacionais se apresentaram, mas Quispe desconfiou que poderiam estar mais interessadas em divulgar sua presença do que em conseguir serviços para as comunidades. Uma organização lhe deu uma pilha de cartazes. “Eu distribuo os cartazes depois que vocês fizerem alguma coisa,” respondeu ela. Ela contatou Jorge Gronda, um médico argentino que ficou interessado em seus relatos sobre câncer entre mulheres da região. Ele acabou abrindo um centro médico em Jujuy e atribui seu sucesso à orientação de Quispe.

Quispe descobriu que o financiamento para os planos econômicos de WARMI também podia estar disponível, mas que a organização precisava de ajuda para solicitá-lo. “Eu estava cansada dos técnicos que vinham à puna”, diz ela. “Não concordávamos com suas soluções. Queríamos decidir nós mesmas como melhorar nossa vida. Então procurei pessoas que nos respeitassem e escutassem.” Ela se lembrou de Roca e Llobet. “Eu tinha visto eles trabalhando, Tinha confiança neles. Eles nos ajudaram a transformar nossos sonhos em propostas de financiamento”, explica.

Quispe sabia que tudo dependia da força das conexões de WARMI com as comunidades coyas. Ela tinha que visitá-las, explicar as esperanças e metas de WARMI, ouvir os problemas, necessidades e aspirações, e juntar tudo em propostas ambiciosas. Esses esforços iniciais para estender o alcance de WARMI às aldeias remotas pareciam um redemoinho, lembra Roca. “Quando ela disse que tínhamos de visitar 50 comunidades, pensei que seria num ano. Nunca tinha viajado com ela. Mas ela disse: ‘Tem que ser num mês. Eu vou na frente com minha pickup e reúno as pessoas; vocês chegam no dia seguinte e começam a trabalhar”.

O carisma de Quispe ficou evidente nessas visitas. “As mulheres traziam fitas cassete das palestras de Rosario que elas tinham guardado da época em que ela trabalhava na OCLADE”. Tive a oportunidade de ver esse carisma em ação quando me dispus a levá-la a Moroco, uma pequenina cidade na Bolivia. Umas semanas antes, Angel Gutiérrez, um líder local, tinha visitado Abra Pampa e convidado Quispe a ir a Moroco encontrar tecelãs que poderiam vender seus fios de lã na loja de WARMI. A fronteira entre Argentina e Bolivia é marcada apenas por uma placa: nada de guardas, nem controle de passaporte. Quando passamos pela placa, Quispe nem olhou. Originalmente, apenas uma linha entre as provincias de Alto Peru e Argentina num mapa colonial espanhol, a fronteira depois foi ajustada em capitais distantes por tratados e acordos de arbitragem. Nenhum deles envolveu os coyas.

Subimos pela serra numa estrada de terra estreita; os pneus carecas do meu carro alugado derrapavam no cascalho enquanto eu fixava os olhos na parede da montanha porque a vertigem era a única resposta ao abismo do outro lado. Após quatro ou cinco horas, paramos em frente a um prédio de adobe caiado em Moroco. Angel Gutiérrez estava esperando, junto com alguns homens e cerca de 30 mulheres coyas com saias volumosas, blusas claras, suéteres e xales de lã e chapéus de variados estilos. Lá dentro começou um debate sobre a pobreza e isolamento de Moroco e a necessidade de um mercado para a lã e os tecidos feitos pelas bolivianas. Houve um breve intervalo para comer um guisado servido em tijelas esmaltadas. Quispe descreveu as metas e resultados de WARMI, depois se sentou ao lado das mulheres, que a estudavam com olhares de esguelha.

Após o debate, ela foi até uma balança num canto da grande sala e uma a uma as mulheres esvaziaram seus sacos plásticos cheios de lã que Quispe passou a pesar. O nome da vendedora e o peso e valor da lã eram registrados. Ninguém discutia o preço que Quispe oferecia. Na verdade, as mulheres pareciam satisfeitas. Depois que toda a lã havia sido empacotada em sacos maiores e as contas feitas, Quispe tirou da sua bolsa um maço de notas. Então, em vez de sair, ela pegou os sacos de lã e se dirigiu a uma mesa no centro do salão. “Não quero enganar vocês,” ela começou a falar, enquanto as bolivianas se juntavam ao seu redor. “Cheguei aqui com pressa, pesamos a lã, paguei por ela, não porque seja boba ou porque não tenha juízo. Paguei porque quero que vocês tenham entusiasmo e continuem trabalhando. Mas da próxima vez lã desse tipo não será aceita em Abra Pampa.”

As bolivianas escutaram em total silêncio. Quispe enfiou a mão num saco, tirou duas meadas de lã e espalhou uma entre suas mãos. “Senhoras, esta lã não é boa. Se deixarmos assim, o tecido ficará horrível. Mas esta aqui”, disse ela pegando outra meada, “é de ótima qualidade. Se vocês levarem isso a Abra Pampa, pagaremos 50 pesos sem pestanejar. E se pedirem 60, e nós precisarmos, pagaremos 60. Por quê? Porque não temos que pegar essa lã para separar as cores, lavar novamente, secar, descartar alguns fios. Então, se quiserem vender, têm que produzir dessa qualidade. Olhem aqui. Toquem. Depois toquem a outra para aprender”.

As bolivianas ficaram olhando para ela, chocadas com a sua franqueza.

“Vou levar essa lã comigo”, Quispe continuou, “porque não quero que vocês esmoreçam e parem de fiar. Mas só levarei hoje. Do contrário, estaria enganando vocês, deixando vocês pensarem que é de boa qualidade, quando não é. Isso seria prejudicial para vocês e para nós”.

Ela mudou de tom e deu um risinho. “É como um marido”, ela disse. “Se ele te enganar no início e você não fizer nada, nunca terão uma vida boa juntos”. Os sorrisos correram pelo salão e as mulheres assentiram e se juntaram ao redor de Quispe para falar enquanto ela se dirigia ao carro; depois ficaram acenando na rua poeirenta ao partirmos.

Encontros como esse em Moroco, repetidos centenas de vezes em Jujuy nos últimos 17 anos, ajudam a explicar o crescimento geométrico do número de membros de WARMI dos 10 iniciais para cerca de 3.600 em mais de 80 comunidades. Quispe é um símbolo inspirador de sucesso, internacionalmente reconhecida, mas tão enraizada na puna quanto as mulheres que a escutam. “Sou igual a vocês”, afirma nas reuniões. “Nunca passei da sétima série. Crio lhamas como vocês”.

Segundo a visão de Quispe, os coyas devem viver de pequenos negócios, não de subsídios ou um salário. “Significa entrar no mercado como empreendedor”, explica Llobet, o economista que trabalhou com WARMI até recentemente, “como alguém que possui seus próprios meios de produção. Tínhamos que apresentar o mercado, mas também acautelar os coyas contra suas armadilhas e tentações: ganância, egoísmo, danos ao ambiente, perda de solidariedade. O desafio era proprocionar-lhes as ferramentas para entrar no mercado sem perder os valores que sustentam sua cultura”.

A principal ferramenta é o microcrédito baseado em considerações culturais e econômicas. Llobet explica: “Os programas de microcrédito geralmente têm um foco econômico. Mas há também um lado humano. Afinal, a palavra crédito tem a mesma raiz que acreditar e confiar. Os sistemas rurais de microcrédito frequentemente não são sustentáveis porque os custos fixos são elevados, principalmente devido à falta de confiança. Os credores querem seu dinheiro de volta, então desenvolvem sistemas de avaliação, análise de riscos, todos baseados no pressuposto de que os mutuários não são confiáveis. Fomos a comunidades onde já existiam sistemas de confiança e aproveitamos esses sistemas. Porque, se houver confiança, qualquer programa de crédito pode funcionar sem maiores custos.

“Nas nossas reuniões, passamos algumas notas de mão e mão e perguntamos: ‘se uma pessoa lhe der dinheiro, como saberá se depois você não vai negar que recebeu?’ Eles respondiam: ‘confiamos na palavra das pessoas’.

“OK, vocês confiam. Mas nosso mundo não. Tem que haver um documento. Em cada passo deve haver um recibo. A pessoa que recebe o dinheiro assina. Até que chega à comunidade, onde talvez o documento não seja necessário, porque basta a palavra da pessoa. Eles aprenderam o sistema contábil e elaboraram seus próprios livros, com base no movimento físico do dinheiro”. Nas comunidades, os fundos de crédito são controlados por dois kipus, ou tesoureiros, sendo que um deles deve ser uma mulher. Markas, unidades regionais equipadas com computadores, recolhem dados financeiros de cinco ou seis fundos para a sede em Abra Pampa.

Uma doação de três anos no valor de US$369.000 concedida pela IAF em 2001, seguida de outra de US$100.000 em 2006, permitiu a expansão do programa. WARMI assegurou financiamento adicional da Fundação Avina, do Ministério de Desenvolvimento Social da Argentina e do Instituto Nacional de Assuntos Indígenas; e, para os programas de saúde, de Médicos del Mundo, subsidiária dos Médecins du Monde. A companhia regional de gás deu a Quispe plástico e outros materiais para construir estufas para cultivar frutas e hortaliças nas escolas da puna. Rádios de outra empresa local aceleraram a comunicação entre as filiadas de WARMI. Várias fundações argentinas têm apoiado as atividades de WARMI, assim como OCLADE, a organização que havia afastado Quispe, e o Bispo Olmedo, seu antigo mentor.

O programa de financiamento começou com linhas de crédito para criação de animais, agricultura e artesanato. Empréstimos a partir de US$11 estavam disponíveis para despesas médicas e outras emergências pessoais. Os empréstimos para produção podiam ser de até US$1.900. Depois, WARMI adicionou crédito para habitação e educação. Com esses empréstimos surgiram tanques cheios de trutas para venda a hotéis, associações de tecelãs, cercas de arame para guardar ovelhas, lhamas e galinhas, melhorias nas casas, lojas. A meta, segundo Quispe, é que os mutuários coyas pensem como donos de empresas. “Quando alguém compra uma máquina de costura, deve pensar: sou o dono, não um empregado”.

Empréstimos maiores ajudaram a lançar empresas mais ambiciosas. Em Cerro Negro, onde o único recurso era a salina, os homens da aldeia costumavam ganhar US$3 por dia extraindo uma tonelada de sal bruto com uma pá a 3.650 metros de altitude. Com um empréstimo de US$9.000 e capacitação empresarial, 12 deles estabeleceram uma pequena fábrica com máquinas simples de processamento e passaram a empacotar o sal em sacos de um quilo com sua própria marca — Sal Puna — e a vendê-lo por US$40 a tonelada. WARMI agora vende fios de lã e roupas tricotadas a uma loja de comércio justo no centro de Buenos Aires. Seu posto de gasolina e restaurante servem abrapampeños a o tráfico internacional na Rota 9. Mas nem tudo saiu como se esperava. Uma criação de chinchilla, que já foi a maior da Argentina, teve que reduzir sua produção porque não havia demanda; as peles são exportadas para a Croácia. WARMI abandonou um depósito de lã, quando os preços baixaram muito, e um curtume por causa dos produtos tóxicos. Seu cybercafé trouxe a Internet para Abra Pampa, mas foi suplantado pela concorrência multinacional. Uma ágil WARMI transformou o espaço num centro que oferece treinamento em computação através de um acordo com a universidade da província de Santiago del Estero.

Segundo Quispe, o turismo é uma indústria que os coyas devem desenvolver e controlar, oferecendo aos viajantes aventureiros a extraordinária beleza da paisagem e a tranquilidade do seu estilo de vida. O Valle de Humahuaca, declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO, pelo qual passa a Rota 9 rumo a Abra Pampa, atrai visitantes de todo o mundo. Depois de Abra Pampa, as vistas são ainda mais espetaculares, especialmente no Valle de la Luna, um pouco antes da fronteira com a Bolivia. Algumas comunidades, como San Francisco de Alfarcito, já construíram atraentes chalés de adobe caiado para abrigar os turistas que fazem o circuito das aldeias andinas indigenas que WARMI está promovendo.

Com as múltiplas atividades econômicas, e a promessa de expansão, os jovens coyas cada vez mais estão decidindo ficar nas comunidades da puna, em vez de migrar em busca de trabalho. Em menos de duas décadas, WARMI se aproximou mais da visão de auto-suficiência que Quispe tinha, e também ganhou infuência. O mundo não vai a Abra Pampa por causa da personalidade de um líder, mas porque ela fala por milhares de habitantes da puna. “A importância de WARMI é a organização que construímos para discutir e negociar com as grandes companhias, com o governo, com as comissões municipais”, diz Quispe. Um jornalista argentino que estava em Abra Pampa para escrever sobre WARMI descreveu uma conversa acalorada por telefone com um funcionário de Buenos Aires na qual Quispe se opunha a um plano do governo para transportar resíduos de cobre da cidade para outra comunidade que também participa de WARMI. Dois dias depois, o jornalista informou que um grupo de funcionários do Ministério do Meio Ambiente estava nos escritórios de WARMI para encontrar uma solução.

Essa visita foi um dos sinais de que WARMI estava mudando relações de poder seculares. “Durante 500 anos alguém sempre agiu em nome deles”, disse Raul Llobet refereindo-se aos coyas, “o curaca, ou representante comunitário, que negociava com os incas e depois com os espanhóis; o capataz, nas minas e plantações; o intermediário politico que negocia com o governo.” Com o crescimento de WARMI, uma organização coya agora fala pelos coyas, e começou a obter resultados. Várias comunidades recuperaram a posse de suas terras e outros casos estão pendentes nos tribunais. Os resíduos de chumbo que ficaram em Abra Pampa por 20 anos após o fechamento da fundição foram finalmente transportados, não sem antes causar danos irreparáveis. Um estudo realizado recentemente pela Clínica de Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade do Texas documentou sinais de envenenamento por chumbo em 80% das crianças da cidade. Um dos filhos de Quispe tem uma deficiência mental, pela qual ela culpa o chumbo.

Graças à constante pressão de WARMI em nome da saúde das mulheres, uma ala de maternidade foi acrescentada ao hospital de Abra Pampa. WARMI tem obtido crescente cooperação do governo para programas de prevenção. O centro médico que o Dr. Gronda abriu para tratar do câncer do colo do útero se transformou num sistema de saúde com uma rede de provedores que atendem 70.000 pacientes em Jujuy e em toda a Argentina. O grande volume compensa o valor mais baixo dos pagamentos; uma anuidade custa a partir de 10 dólares. Quispe recentemente anunciou que 72 jovens coyas estavam estudando medicina, um passo a mais na direção da auto-suficiência. Outro sonho de Quispe se tornou realidade em março, quando um centro universitário chamado WARMI Huasi Yachana abriu suas portas em Abra Pampa. “Perdemos muitos jovens inteligentes que saíram daqui para estudar”, enfatiza Quispe. “Queremos que eles estudem aqui para cuidar de nossos recursos”. Durante a inauguração, transmitida por televisão para todo o país, muitos estudantes indicaram sua intenção de ficar na puna.

Uma após a outra, as peças da visão de Quispe estão se materializando; muitas delas passaram a existir pela mera força de sua enorme energia. Ela estimula todos os funcionários de WARMI a trabalhar com afinco e dá o exemplo. “Mami, não conheço outra pessoa que trabalhe 36 horas por dia”, disse um de seus filhos. Mas até mesmo Quispe precisa de um descanso. “Uma vez por mês”, ela diz, “dou uma escapada e vou ver minhas lhamas”. E lá essa mulher, cujo nome e imagem aparecem instantaneamente no Google e Facebook, TED e YouTube em todo o mundo, pode ser vista falando docemente com os lhamas que pastam perto dela, os tons terrosos de sua roupa e do rebanho se misturando à medida que a mulher e os animais desaparecem gradualmente no anoitecer dessa vasta paisagem.

Patrick Breslin, ex-vice-presidente de relações externas da IAF, se aposentou após 22 anos de serviço. Seu endereço eletrônico é patbreslin1@gmail.com. Gabriela Sbarra, do serviço de apoio da IAF na Argentina, e Paula Durbin contribuiram ao artigo.