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A IAF e os Indígenas Latino-Americanos

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Cerca de 45 milhões de latino-americanos se consideram indígenas, uma identidade cuja definição varia de um país a outro e em geral depende tanto do contexto e da cultura quanto da genética. Os descendentes dos primeiros habitantes do hemisfério provêm de mais de 400 grupos étnicos; apesar dessa imensa diversidade, em quase toda parte eles lutam para superar uma herança de deslocamento, exploração e exclusão que reduziu essa população a uma situação de pobreza desesperada. Eles estão desproporcionalmente representados na parte inferior de todos os indicadores de bem-estar.

A IAF começou suas operações no início dos anos 70, quando em muitas regiões do mundo os povos indígenas estavam redescobrindo suas raízes e se congregando em torno de sua identidade. Novas organizações na América Latina estavam determinadas a defender seu modo de vida, exigir justiça social e produzir mudanças, e a IAF respondeu com apoio crucial. Com o retorno à democracia, a mobilização se acelerou. O resultado mais imediato foi maior visibilidade e legitimidade. No âmbito internacional, os direitos dos povos indígenas são reconhecidos. Os governos dos países das Américas têm tomado medidas para que as constituições e legislação estejam em conformidade com esses padrões. Onde as sementes do ativismo criaram raízes, os indígenas estão participando dos processos cívicos e políticos como nunca haviam feito antes.

O Congresso atribuiu à Fundação Interamericana o mandato de estimular “uma participação cada vez mais ampla no processo de desenvolvimento”, que nós interpretamos como um apelo específico à inclusão de grupos historicamente marginalizados, inclusive os nativos americanos. Nos últimos 40 anos, a IAF financiou muitas iniciativas desses povos. Um exame da carteira ativa revela que os donatários que servem comunidades indígenas em 14 países representam mais de 40% do investimento atual da IAF em desenvolvimento de base. Os que trabalham com povos indígenas na Bolívia, Guatemala, Belize, Colômbia, Panamá, Equador e Honduras representam 50% ou mais do financiamento total da IAF em cada um desses países. Os projetos que a IAF financia atualmente beneficiam latino-americanos que se identificam com mais de 50 grupos étnicos de uma diversidade extraordinária. As prioridades incluem educação bilíngue, mapeamento comunitário, conservação, saúde, títulos de propriedade, microcrédito, ecoturismo, e desenvolvimento de empresas e agricultura, em geral envolvendo culturas e animais nativos.

Não faz muito tempo, ao comprar uma barra de chocolate numa confeitaria próxima aos escritórios da IAF, me dei conta da riqueza do patrimônio dos povos indígenas em termos de recursos de desenvolvimento. O chocolate tinha a marca El Ceibo, uma federação de 40 cooperativas que representam cerca de 1.200 produtores de cacau aimaras, quíchuas e mosetén no Alto Beni, Bolívia. Nos anos 1970, quando El Ceibo foi fundada, esses agricultores, que haviam migrado do planalto, eram novatos no plantio do cacau. A fim de concretizar a visão que eles tinham para esse produto, adotaram princípios indígenas tradicionais de organização e gestão que incluíam, por exemplo, pagamento igual para todos os trabalhadores, qualificados ou não, e uma liderança rotativa que mudava cada ano. Duvido que essas práticas sejam ensinadas num curso universitário de administração de empresas, mas funcionaram para esses agricultores e lançaram El Ceibo como um bom exemplo de empresa de base que se transformou num famoso exportador de cacau e chocolate. O orgulho que sentem por sua empresa está estampado na embalagem: “Do cultivo à fabricação do chocolate, não colaboramos com os produtores, nós somos os produtores.”

Este número de Desenvolvimento de base comemora a longa e produtiva história da IAF com os povos indígenas das Américas, focalizando a maneira como alguns deles usam os recursos de seu patrimônio para superar a pobreza e impotência. Esses recursos podem ser tangíveis como o território mapeado pelos kunas do Panamá ou intangíveis como a confiança sobre a qual os coyas da Argentina construíram uma eficaz estrutura de microcrédito. As habilidades de uma antiga civilização andina podem catalisar um renascimento cultural junto com uma indústria têxtil. Sistemas que evoluíram durante séculos para fornecer a mão de obra vital ao bem-estar coletivo e sobrevivência econômica, como tequio no México e ayni na Bolívia, podem ajudar a enfrentar os atuais desafios globalizados. Esses exemplos ilustram o lugar no mundo moderno de valores que passaram pelo teste do tempo, e como muitas vezes eles despertam o que há de melhor no desenvolvimento de base.

Robert Kaplan
Presidente
Fundação Interamericana