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A desmistificação da complexidade: guia para aqueles que trabalham no torreno de Patrick Breslin

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Complexity Demystified: A Guide for Practitioners
[A desmistificação da complexidade: guia para aqueles que trabalham no torreno]

Patrick Beautement e Christine Broenner
Triarchy Press: Devon, Reino Unido, 2011

No início dos anos 1990, uma onda de livros populares anunciava novos enfoques numa área que confundia a ciência: a falta de previsibilidade em sistemas complexos. A ciência tradicional, cujas raízes reducionistas remontam a Newton, estuda o mundo separando os componentes de um sistema e estudando-os exaustivamente, procurando relações lineares de causa e efeito. Considera os sistemas naturais como máquinas a serem analisadas e compreendidas, levando à previsibilidade. Mas, quando a atenção científica se volta para questões sobre sistemas que não podem ser nitidamente separados — o sistema imunológico humano, por exemplo, o tempo, o mercado de ações ou os pássaros que voam em bando sem colidir uns com os outros — o velho paradigma começa a falhar.

A emergente ciência da complexidade se debruçou sobre um enorme campo de atividade natural e humana e produziu uma série de metáforas atraentes. Em 2004, esta revista publicou meu artigo, “À margem de Newton: metáforas para o desenvolvimento de base”, que indicava as semelhanças entre as novas metáforas sobre o funcionamento do mundo e o que a Fundação Interamericana havia aprendido sobre desenvolvimento de base ao apoiar estratégias comunitárias para redução da pobreza.

Na esteira dos livros que descreviam a nova ciência surgiram tentativas de aplicar suas conclusões a empresas, formulação de políticas e assistência externa, entre outras áreas. Surgiu uma pequena indústria de seminários, workshops e sessões de PowerPoint. Complexity Demystified segue essa tradição. O livro começa com a observação de que o mundo nos apresenta tipos muito diferentes de problemas. Alguns são simples, como projetar uma cadeia de abastecimento de produtos para os supermercados. São necessários grandes investimentos, exércitos de trabalhadores e gestão eficiente. Mas, fundamentalmente, o transporte de coisas é um problema facil de se resolver, passível de soluções lineares alinhadas. Constrói-se uma máquina; suas partes são conhecidas e seus resultados previsíveis. Outros problemas são complexos, como acabar com a pobreza, por exemplo, ou melhorar a educação. Neste caso, juntar todas as peças já é um desafio, quanto mais entender sua interação. Mesmo se encontrarmos a solução para um lugar, isso não quer dizer que poderá ser aplicada em outro.

Apesar das abundantes evidências de que as situações simples são muito diferentes das complexas, as pessoas e instituições geralmente insistem em aplicar ferramentas analíticas similares (mecanicistas) aos dois tipos. Frequentemente, surgem consequências acidentais, quando não acontecem desastres. Para melhorar a situação, Beautement e Broenner oferecem “um guia para praticantes”, inclusive os que trabalham com assistência ao desenvolvimento. Eles começam bem, com boas percepções sobre muitas das realidades que frustram os esforços mais bem intencionados. Eles constatam que os planos de desenvolvimento em geral têm pouca relevância para as pessoas a quem se direcionam porque “com demasiada frequência a maneira em que os problemas são descritos e os objetivos colocados não pode acomodar os fatos reais que promovem ou impedem a mudança num contexto específico”. Eles também questionam os planos cuidadosamente elaborados que fixam metas para medir o progresso. “A mudança que as pessoas provocam em situações complexas nem sempre pode ser isolada ou medida, particularmente porque a mudança muitas vezes surge muito depois do final do projeto que visava esse resultado”, observam eles.

O enfoque alternativo baseia-se em 25 “conclusões” que eles extraem da ciência da complexidade. (Eles asseguram ao leitor que não é preciso se tornar um especialista em complexidade. Como se dissessem: “lemos todos os livros por você”.) A lista está disposta num conjunto de seis elementos que interagem em quatro “laços” e uma “explicação pragmática do seu emprego na prática”. Os elementos e laços são bem simples: tente alguma coisa, veja o que acontece, preste atenção ao contexto, avalie como tudo está indo para corrigir qualquer falha. Mas o livro se transforma num amontoado de gráficos e listas, lembrando aqueles manuais de instruções de câmeras digitais que pesam mais que a câmera.

Os dois problemas fundamentais do livro estão bem no título.

Um é o fato de os autores afirmarem que “desmistificaram a complexidade”. Muitos dos livros pioneiros sobre a complexidade que surgiram nos anos 1990 foram populares porque transmitiam o estímulo intelectual da nova ciência e especulavam sobre o rumo que essas descobertas poderiam tomar. Abriam a mente dos leitores, fazendo-os ver as coisas de modo diferente. Parece que os autores não entenderam isso, pois transformaram esse entusiasmo numa lista densa.

O segundo problema está no subtítulo. Será que os “praticantes” precisam mesmo de um guia da complexidade? Ou o problema é que, como os próprios autores dizem, “para os que trabalham diretamente com os beneficiários dos programas de ajuda ao desenvolvimento é extremamente difícil transmitir às organizações doadoras o que acontece na vida real e o que eles observaram e aprenderam no campo. Trata-se de uma questão importante porque, afinal, são as organizações doadoras que elaboram os projetos e programas. Com demasiada frequência, elas permanecem fixadas em suas ideias.”

Se levarmos isso em conta, um guia da complexidade deveria ser dirigido não aos que trabalham no campo, mas aos analistas, administradores, executivos e formuladores de políticas. São eles que precisam considerar as implicações da complexidade para a assistência ao desenvolvimento e fazer os ajustes correspondentes: transformar as avaliações em cadeias de informações que ajudem a corrigir os projetos no meio da execução; e identificar e financiar um número maior de projetos comunitários. — Patrick Breslin