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Uma nova frente para ex-guerrilheiras de Seth Micah Jesse e Rolando Gutiérrez

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Pobreza generalizada, repressão brutal, terror e perda total da confiança no sistema político levaram muitos salvadorenhos a se juntarem à Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN) que manteve uma guerrilha contra o governo militar do país de 1980 a 1992. O conflito ocasionou 75.000 mortes, provocou êxodos em massa, destruiu grande parte da infraestrutura do país e causou um retrocesso de anos na economia. Envolveu milhares de combatentes de ambos os lados. Embora nenhuma mulher tivesse combatido pelo Governo salvadorenho, ao cessarem finalmente as hostilidades cerca de 30% dos combatentes desmobilizados pela FMLN eram mulheres. De acordo com o artigo de Jocelyn Viterna “Pulled, Pushed and Persuaded: Explaining Women’s Mobilization into the Salvadoran Guerrila Army” [Atraídas, empurradas e persuadidas: explicando a mobilização de mulheres no exército guerrilheiro salvadorenho] publicado no American Journal of Sociology de julho de 2006, embora múltiplos caminhos tivessem levado essas guerrilheiras à FMLN, a biografia e a educação definiriam se o seu ativismo seria transferido para a vida civil. Esse ponto é ilustrado por duas mulheres, Evelyn Huezo e Mabel Reyes, que se juntaram ao movimento de resistência em circunstâncias muito diferentes e 40 anos mais tarde ambas estão levando avante seus ideais — no desenvolvimento de base.

Nenhuma das duas poderia ter imaginado uma trajetória que as levasse de uma sociedade conservadora e patriarcal ao campo de combate e daí a um papel de liderança em organizações comunitárias bem-sucedidas. Em meados da década de 1970 Evelyn Huezo, um dos oito filhos de um trabalhador do couro e sua esposa, estava concentrando nos seus estudos em trabalho social na Universidade Nacional de San Salvador. Mabel Reyes, que crescera em La Unión, San Miguel e Usulután, trabalhava em um negócio e colhia café para pagar o seu uniforme escolar e o tratamento médico do seu pai. Poucos anos depois, elas e legiões de outras salvadorenhas abandonariam os estudos, carreiras, domicílios e entes queridos para se unirem à oposição armada.

“Os meus amigos próximos e os de meus irmãos foram mortos, mas a última gota foi o assassinato de Monsenhor [Oscar] Romero em março de 1980”, disse Huezo, que nunca duvidou do papel do regime no assassinato. “Se eles eram capazes disso, o que não fariam conosco? Eu tinha uma casa, um companheiro, estudos; a minha vida tinha uma direção, mas o país não”. Naquele mesmo ano o exército salvadorenho lançou a campanha “terra arrasada” — massacres por atacado, bombardeios aéreos e queima de tudo o que estava no caminho. Juntamente com 500 outras famílias, Mabel Reyes e seus pais fugiram para Honduras, onde a adolescente foi denunciada aos militares locais como guerrilheira e ficou sob vigilância. Consciente de que estava em perigo, Reyes decidiu que preferiria “morrer em El Salvador do que desaparecer em Honduras”. De volta à sua terra, o seu instinto de sobrevivência a levou a juntar-se a um grupo de combatentes da resistência quando os caminhos se cruzaram. Como esperava, ela encontrou segurança. “Tinha uma arma”, explicou, “tinha Deus e tinha o apoio dos meus companheiros combatentes”.

Oportunidade igual

Com mulheres em toda a guerrilha — em comunicações, logística e como enfermeiras na linha de frente — o conceito de equidade de gênero, que não tinha entrado ainda no léxico salvadorenho, era caso omisso. Segundo Huezo, homens e mulheres combatentes eram tratados de forma igual durante a guerra e avançavam de acordo com a sua habilidade. “Atitude, flexibilidade e energia permitiram às mulheres realizar qualquer tipo de trabalho e fazê-lo bem, inclusive o combate em cidades e no campo, trabalho de organização em cárceres ou fora do país, infiltração entre os militares e recrutamento de oficiais do exército para se unirem à luta revolucionária”. Ela começou o seu serviço para a resistência apoiando comandos em San Salvador e, em seguida, monitorando os movimentos do inimigo. Depois da campanha militar inicial coordenada da FMLN em janeiro de 1981, ela esteve entre os guerrilheiros urbanos transferidos ao baluarte rebelde no departamento de Morazán nas montanhas do nordeste salvadorenho. A sua primeira missão na linha de frente, em 1981, com a equipe de comunicações estratégicas do alto comando da FMLN, ofereceulhe a oportunidade de demonstrar as suas aptidões organizacionais e analíticas. A responsabilidade desenvolveu a sua confiança.

Tanto Huezo como Reyes colaboraram com a clandestina Rádio Venceremos, lançada em 1982 por Carlos Consalvi, então jornalista venezuelano que usava a alcunha de Santiago (ver Desenvolvimento de Base 2009.) Reyes, com a alcunha de Estênia, monitorava as transmissões de estações convencionais e preparava programas para Santiago. Em conformidade com um relato em As mil e uma histórias da Rádio Venceremos, de José Ignacio López Vigil (UCA Editores, 1991), ele e Estênia foram feridos no mesmo incidente em 1985. Consalvi concordou com Huezo e Reyes sobre o tratamento igualitário no movimento de resistência. Isso se difundiu nas áreas rurais, afirmou ele, reequilibrando as relações tradicionais. “O meu marido costumava me espancar, mas a guerra o mudou”, ele se lembra de ter ouvido. Ele mantém uma impressão vívida da prática dos guerrilheiros de transmitir instruções por meio de mulheres na cadeia de comando. As mulheres exerceram cargos de liderança em todos os níveis da resistência.

Um futuro anunciado

Se o dever do combate na linha de frente expunha Reyes e Huezo a um tratamento igualitário e lhes dava confiança nas suas habilidades, os seus papéis nos esforços de bem-estar social da resistência definiriam os seus trabalhos durante toda a vida. Reyes frequentou e em seguida dirigiu uma das “escolas” político-ideológicas da FMLN e sofreu profundo impacto da ênfase na justificação moral da luta e na noção de sacrifício. “Aprendi solidariedade e me tornei política e socialmente consciente”, recordou. “Quando considerávamos como as pessoas viviam, dizíamos a nós mesmos: ‘O que estamos fazendo é justo’. Nós não estávamos interessados em nada mais, apenas nas mudanças que queríamos ver”. Em um país densamente povoado como El Salvador, os combatentes tinham contato diário com civis, especialmente em áreas de onde o governo se tinha retirado. A batalha pelo seu coração e mente era parte integrante da estratégia da FMLN para derrotar a contrainsurgência e incluía atender às necessidades urgentes. A FMLN tomou medidas de proteção que permitiram aos agricultores produzir alimentos básicos para os guerrilheiros e a população civil. Proporcionou segurança aos refugiados quando fugiam ou quando regressavam. Grupos organizados de simpatizantes, alguns dos quais se transformaram em pilares da sociedade civil salvadorenha, uniramse ao esforço, distribuindo elementos essenciais tais como baterias, roupas, medicamentos, livros e jornais.

Os serviços que a FMLN oferecia aos próprios soldados incluíam atendimento médico e educação primária. Huezo considera a sua missão na versão guerrilheira da Escola Militar como a tarefa mais gratificante. “Tive o privilégio de ensinar a ler colegas combatentes, muitos deles líderes militares brilhantes mas analfabetos”, explicou. “Alguns são agora advogados e policiais que nunca esquecerão quem lhes ensinou a ler e escrever”. Reyes ensinou essas habilidades básicas também a outros combatentes. Quando ferida, foi enviada a Colomoncagua, Honduras, para se recuperar e ali trabalhou com uma comunidade de refugiados. Depois de destacar-se como líder, uniu-se à equipe que escoltou os salvadorenhos a um local seguro em Colomoncagua. Em 1989 organizou a repatriação de 700 pessoas, acompanhando-as a pé de Colomoncagua à comunidade de Segundo Montes em Morazán.

Depois da Escola Militar, Huezo foi designada aos baluartes rebeldes no nordeste salvadorenho. Aí ajudou a população a se organizar e expressar as suas necessidades. O seu trabalho teve impacto duradouro, especialmente no norte de Morazán, onde em 1984 os residentes fundaram o Patronato para el Desarrollo de las Comunidades de Morazán y San Miguel (PADECOMSM), em parte para ajudar a preencher a lacuna nos serviços públicos provocada pela guerra civil. O PADECOMSM tem um histórico exemplar de assistência às comunidades durante a guerra e a transição que a seguiu. Em 1998, o PADECOMSM recebeu uma doação da IAF para organizar associações de base, estabelecer microempresas e apoiar práticas agrícolas responsáveis. (Para consultar o estudo da IAF sobre os resultados da doação ao PADECOMSM, favor enviar e-mail a mcuevas@iaf.gov.)

Da guerra ao lar

Como recruta da FMLN em 1981, Huezo pensava que o conflito duraria alguns meses. Quando se prolongou por 11 anos, os sacrifícios pessoais esperados de uma guerrilheira tornaram-se difíceis. Huezo tinha ido à linha de frente com o marido, mas o matrimônio não suportou as dificuldades. As mulheres na resistência sentiam que deviam adiar a maternidade pelas duras condições e também porque as deixaria fora de combate. Mas, recordou Huezo, elas sempre pensavam nisso “como se fosse um sonho que estivesse escapando”. Reyes casou-se com outro combatente e admite que as circunstâncias do tempo de guerra eram um desafio. “Realmente não podíamos estar juntos, embora o nosso compromisso com a luta nos sustentasse”.

Quando a guerra finalmente terminou em 1992 com a assinatura dos Acordos de Paz de Chapultepec, o lar e a família eram novamente possíveis, mas a um preço imprevisto, pelo menos para algumas guerrilheiras. Os fundamentos da sociedade patriarcal de El Salvador não se tinham rompido nem modificado. As oportunidades da mulher na linha de combate não existiam na vida civil. Embora os Acordos de Paz tivessem colocado os militares sob controle civil, contivessem disposições para a desmobilização das unidades da FMLN e para transferências de terras e permitissem à FMLN formar um partido político e participar de eleições, não atendiam às expectativas de Reyes. “O exército está de novo nos quartéis”, admitiu. “Os Acordos de Paz determinaram o que se faria a respeito dos feridos de guerra e houve um seguimento. Mas quanto às mulheres, a nossa situação não foi mencionada. Não há nada para seguir”. E, indicou, a pobreza desesperante persiste em todo El Salvador.

Após uma década nas linhas de combate, Huezo regressou a San Salvador mas, perguntou a si mesma, quais eram as suas opções para avançar os ideais que a tinham atraído à resistência? Decidiu concluir os estudos universitários e isso a colocou de novo em contato com colegas que tinham compartilhado o seu interesse. Ainda estudante, fez parte da diretoria da Fundación Promotora de Productores y Empresarios Salvadoreños (PROESA), dirigindo projetos destinados a melhorar a moradia e a subsistência de ex-combatentes da FMLN. A sua experiência como especialista em comercialização com outra ONG a levou a estabelecer em 2001 a Asociación para el Desarrollo Empresarial de Productores y Comercializadores Centroamericanos (ADEPROCA). Entre os seus parceiros que apoiam uma ampla gama de prioridades comunitárias figuram o Ministério da Educação de El Salvador, a diáspora nos Estados Unidos, doadores internacionais e outras ONGs. Em 2002, a ADEPROCA e a sua parceira PROESA colaboraram em um projeto de comercialização financiado pela IAF em benefício de mulheres do centro de El Salvador. Atualmente, algumas das mulheres fazem doces com a própria marca de fábrica.

Reyes fundou a Asociación de Mujeres Rurales de El Salvador (ADEMUR), atual donatária da IAF que oferece capacitação a mulheres na criação e comercialização de ovelhas e lhes “empresta” cordeiros da raça pelibuei cujas crias podem utilizar para pagar a sua dívida. Como organização não governamental legalmente constituída, a ADEMUR adquiriu espaço e agora tem escritório próprio. O trabalho permite a Reyes aplicar as aptidões desenvolvidas durante a guerra e lhe oferece uma oportunidade de crescimento profissional; tal como o serviço na resistência, segundo Reyes, exige sacrifício e perseverança pessoal. “Mas quando a gente se envolve em coisas assim, as nossas baterias se recarregam e a gente continua a avançar”. Recentemente a Assembleia Legislativa salvadorenha aprovou um projeto amplo sobre a violência contra a mulher que os representantes da ADEMUR ajudaram a redigir. “Talvez não seja tudo o que tínhamos esperado, mas sentimos que a porta foi entreaberta”, comentou Reyes e acrescentou: “É preciso participar e expressar as próprias opiniões para construir uma verdadeira democracia”. A sua participação assumiu um novo rumo em 2009 quando começou a trabalhar como assistente da congressista Sonia Margarita Rodríguez, do partido FMLN.

A década de Huezo na guerrilha ajudou a avançar as metas da ADEPROCA que oferece às pessoas de baixa renda capacitação e oportunidades econômicas. “A guerra nos permitiu desenvolver muitas aptidões que continuam a ser úteis para nós, tais como a análise política e o pensamento crítico”, afirmou. Estas habilidades têm ajudado a ela e a outros a encontrar sentido para a trajetória da sua vida e reconciliação da participação no conflito com o trabalho em desenvolvimento comunitário. O interesse de Huezo em temas sociais foi “transferido a outro campo de batalha”, afirmou. “Penso que se hoje se oferecer às mulheres a oportunidade de participar, capacitação e confiança, elas responderão e contribuirão nas suas trincheiras, tal como o fizeram na guerrilha”.

Seth Micah Jesse é representante da IAF para El Salvador. Rolando Gutiérrez presta serviços de ligação e assessoramento para a IAF em El Salvador.