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Recursos para as microempresas de mulheres de Miriam E. Brandão

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Conheci Maria Auxiliadora Vanegas Pérez em 2002 quando eu, como representante da Fundação Interamericana, estava na Nicarágua para avaliar uma proposta apresentada pelo Fundo de Desenvolvimento para a Mulher. Vanegas Pérez, sua diretora executiva, impressionou-me tanto com o seu conhecimento do setor de microfinanciamento, a sua mescla de profissionalismo e cordialidade, aptidões técnicas e experiência que decidi fazer uma grande aposta em uma organização nova sem um histórico comprovado.

Os doadores têm um papel vital no microfinanciamento. Podem apoiar a experimentação e promover as microfinanceiras para a autossuficiência essencial direcionada a conseguir que um número significativo de pessoas de baixa renda melhore a vida. Logo depois de abrir as portas em 1969, a IAF começou a financiar organizações que ofereciam crédito ou capital de trabalho a essas pessoas, algo até então considerado muito arriscado. Esses programas manejados por mulheres e para elas eram uma anomalia na década de 1970, mas a IAF contou com diversos donatários muito antes que a sabedoria tradicional aceitasse a noção de crédito como fator transformador no acesso da mulher à oportunidade. Quarenta anos mais tarde, baseada exatamente nessa premissa, desenvolveu-se a indústria do microfinanciamento para atender a milhões de clientes em todo o mundo. Persistem, porém, as barreiras aos serviços financeiros e poucas entidades de crédito na América Latina operam com uma perspectiva de gênero. Na Nicarágua, por exemplo, somente três ou quatro das 21 que atendem a mulheres especificamente as consideram como clientes.

Em 1993, com capital semente da IAF, os educadores, cientistas sociais e especialistas em desenvolvimento que cinco anos antes tinham fundado o Centro para la Participación Democrática y el Desarrollo (Cenzontle), lançaram o Fundo de Desenvolvimento para a Mulher, instituição de microfinanciamento (IMF) para dispensar atenção quase exclusiva a mulheres de baixa renda. Vanegas Pérez foi contratada para dirigi-lo. Os seus antecedentes incluíam 11 anos como profissional de microfinanciamento e cinco anos com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Como jovem universitária diplomada em economia com especialização em administração bancária, ela trabalhou para a Fundacion para el Apoyo a la Microempresa (FAMA), afiliada da ACCION International no Peru, a qual cresceu de dois a 21 escritórios nos oito anos de seu exercício. Em sua estada no ACNUR, ela ajudou na repatriação de 17.000 nicaraguenses deslocados depois de cessarem as hostilidades em seu país e com programas de geração de renda e crédito em 25 municípios no norte da Nicarágua.

O microfinanciamento pode ajudar a pessoa de baixa renda a melhorar a sua renda, sustentar empresas viáveis e reduzir a sua vulnerabilidade a choques que uma família pode levar anos para se recuperar — doença ou morte do ganha-pão da família, fenômenos meteorológicos e roubo. As IMFs podem ser salva-vidas para pessoas sem garantia na obtenção de empréstimo de um banco convencional e permitir que os domicílios adquiram ativos e invistam em nutrição, saúde e educação. No entanto, prestar serviços financeiros às pessoas de baixa renda é um empreendimento oneroso. Para custear as despesas proporcionalmente mais altas da concessão de pequenos empréstimos, os quais requerem o mesmo pessoal e os mesmos recursos que os grandes empréstimos, muitas vezes as IMFs cobram juros mais altos. Enfrentando taxas exorbitantes cobradas por prestamistas do setor informal de até 20% ao dia ou acesso zero ao crédito, os prestatários aceitam de bom grado as condições das IMFs. Liquidez e capital aumentam o retorno do seu trabalho de forma muitas vezes superior aos juros cobrados ou lhes permitem aproveitar oportunidades.

Segundo Vanegas Pérez, a concessão da doação da IAF proporcionou a injeção de recursos monetários necessária para conseguir o equilíbrio operacional e financeiro em uma etapa crucial. “O êxito do Fundo de Desenvolvimento para a Mulher não teria sido possível sem a Fundação Interamericana”, disse, “a qual proporcionou o apoio necessário para a expansão e consolidação do Fundo. Contribuiu também para a criação e preservação de empregos em microempresas operadas por mulheres, bem como para o fortalecimento da administração à medida que a organização procura conseguir novos recursos para continuar a crescer. Foi vital”. Quem desejar colocar cifras nesta declaração, deveria considerar as seguintes: em 2001, um quadro de 18 funcionários que trabalhavam no escritório central do Fundo em Manágua e em dois escritórios sucursais em Estelí e Manágua administraram uma carteira de crédito de US$500.000 e concederam empréstimos a cerca de 1.000 clientes, sendo 94% deles mulheres. A doação da IAF mais que duplicou o capital do Fundo, elevando-o a US$680.000. Em sete anos, com Vanegas Pérez, o Fundo contava com 65 funcionários em sete escritórios, uma carteira de crédito de US$5,5 milhões e uma clientela de 8.500 pessoas, sendo ainda 94% mulheres. Isto significa um crescimento assombroso no valor da carteira e na quantidade de prestatários — enquanto a entidade continuava a atingir os segmentos de renda mais baixa da população, como se evidencia pelo montante médio dos empréstimos inferior a US$500.

O Fundo de Desenvolvimento para a Mulher formulou o seu programa financiado pela IAF tendo em vista a autossuficiência por meio do crescimento, eficiência e produtividade. Entre os elementos de seu êxito figuram os critérios transparentes para a aprovação e recuperação de empréstimos, seu requisito de garantias suficientes e juros à taxa do mercado. O Fundo adequa uma diversidade de produtos dirigidos especificamente a mulheres que operam micro e pequenas empresas: capital de giro e empréstimos para equipamentos e moradia, bem como atividades comerciais, agrícolas, pessoais (para educação, saúde, capacitação e necessidades do lar) e para financiar infraestrutura, equipamento e insumos para hortas. O apoio não termina com o empréstimo. O Fundo trabalha com o Cenzontle para oferecer à mulher capacitação em direitos civis, prevenção da violência doméstica e desenvolvimento pessoal e empresarial. Continua a ser uma organização sólida apesar do impacto da crise financeira mundial sobre o setor do microfinanciamento e dos desafios impostos ao setor nicaraguense pelo Movimento de Não Pagamento lançado em 2008 por um grupo de prestatários que reclamavam uma moratória no pagamento e uma redução das taxas de juros que tinham acordado. Por este motivo o Fundo está estruturado para a eficiência; interage produtivamente com outras entidades nicaraguenses de microfinanciamento; e continua enfocado em atender às necessidades das mulheres de baixa renda e em tratá-las como clientes de valor. Nove anos depois de receber seu primeiro desembolso da IAF, o Fundo de Desenvolvimento para a Mulher continua a dar ênfase ao crédito, organização, educação e assistência técnica como bases da segurança econômica da mulher.

Vanegas Pérez considera que a sua realização profissional mais significativa é o desenvolvimento de equipes de trabalho harmoniosas, produtivas e comprometidas. Ela sempre trabalhou com base na premissa de que os funcionários que estão motivados e se sentem valorizados trazem vantagem para a empresa. Para o Fundo de Desenvolvimento para a Mulher ela contratou um quadro de pessoal talentoso e capaz e confiou a ele a responsabilidade das operações. Ela saiu do Fundo em outubro de 2010 para recarregar baterias e buscar novos desafios. Como esposa e mãe de dois filhos, ainda continua a encontrar tempo para fazer trabalho voluntário com o Rotary Club ou outras causas merecedoras. Não importa o que Vanegas Pérez decida realizar no futuro, certamente ela se dedicará por inteiro e exercerá impacto. Enquanto isso, o Fundo de Desenvolvimento para a Mulher continua em boas mãos.

Miriam E. Brandão é atualmente Representante da IAF para o Peru.