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Premiada da Rolex por melhoriar da vida com bucha de Jeremy Coon

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“Em um Paraguai rural assolado pela pobreza, uma ativista social inovadora descobriu um novo uso para uma antiga planta. Elsa Zaldívar, cujo compromisso de longos anos de ajudar as pessoas de baixa renda e ao mesmo tempo proteger o meio ambiente lhe conquistou profundo respeito em sua terra natal, encontrou a forma de combinar a bucha — uma planta com aspecto de pepino que é secada para transformar-se em uma esponja áspera usada como abrasivo esfoliante — com outras matérias vegetais como palha do milho e folhas de palmeira carandaí, juntamente com plástico reciclado, para formar painéis ou pranchas fortes e leves. Podem ser utilizadas em móveis e construção de moradias, isolando-as da temperatura e do ruído. Cerca de 300.000 famílias paraguaias carecem de habitação adequada”. www.rolexawards.com

Durante 20 anos, Elsa Zaldívar, Diretora de Base Educación, Comunicación y Tecnología Alternativa (Base Ecta), tem focado formas práticas de melhorar as condições de vida das comunidades rurais paraguaias, especialmente para mulheres, e suas realizações tornaram-se conhecidas. Em 2008, quase simultaneamente com a concessão de uma doação da IAF à Base Ecta, Zaldívar foi um dos cinco laureados com o Prêmio Rolex para Empresários, escolhidos entre 1.500 candidatos. E isto ocorreu poucos anos depois de Zaldívar ter recebido a distinção do Ashoka Fellow. Uma busca no Google de “Zaldívar” traz páginas de referências, como se pode esperar, dada a estima que tal prêmio inspira. Ao procurarmos no site da Wikipedia em inglês a palavra “bucha”, podemos observar Zaldívar mencionada em relação ao novo uso que ela descobriu do resíduo desta planta tropical cujas possibilidades ela continua a explorar.

Zaldívar nasceu em Assunção em 1960 durante o regime do General Alfredo Stroessner, a ditadura mais prolongada da América do Sul. Sua mãe era artista e seu pai advogado que não podia exercer a profissão por se opor ao regime, mas mantiveram a família com trabalhos diversos. De fato, Zaldívar cresceu rodeada de gente disposta a pagar o preço por seus ideais. Embora seus pais tivessem optado por renunciar à eletricidade e criar seus sete filhos em 10 hectares em San Lorenzo, nos arredores da capital, eles não pouparam em educação. “Aprendi a pensar que podia fazer tudo e ser tudo o que queria”, disse Zaldívar sobre sua instrução progressista. Sua participação em programas da Associação Cristã de Jovens local a levou, ainda adolescente, a conferências na América Latina e nos Estados Unidos, onde descobriu sua vocação pelo desenvolvimento e o trabalho de campo.

No fim da década de 1970, quando Zaldívar estava pronta para fazer estudos universitários e as oportunidades para mulheres se estavam abrindo em todo o mundo, as mulheres paraguaias continuavam limitadas a serem secretárias, bibliotecárias e professoras. Esperava-se também que elas vivessem em casa até o casamento, pelo que a decisão de Zaldívar de compartilhar uma casa com outras quatro jovens enquanto estudava na universidade foi tão pouco convencional que chegou a ser assunto na imprensa local. Zaldívar estudou jornalismo mas, segundo comentou, em breve percebeu que o ativismo político de sua família e sua própria reputação em não observar normas tornariam impossível seu ingresso na profissão enquanto Stroessner estivesse no poder. Assim, ao concluir os estudos, dedicou-se à sociedade civil paraguaia para ganhar a vida. Primeiro foi bibliotecária de uma organização sem fins lucrativos; em 1992, depois de uma breve pausa para cuidar de seus dois filhos menores, Zaldívar entrou para a Base Ecta, organização não governamental que desenvolve líderes comunitários e grupos de base e passou por diversos cargos enfocados na mulher. Ela atribuiu importância ao trabalho e ficou impressionada pelo fato de a diretoria incluir tanto mulheres como homens. “Muito poucas organizações têm filiação mista e inclusive a maioria das ONGs progressistas do Paraguai continua dominada por homens”, explicou recentemente.

Zaldívar atribui aos avós paternos o seu amor pela vida rural e sua primeira relação com a bucha que eles cultivavam em sua propriedade agrícola. Foi em meados da década de 1999 em Caaguazú, departamento na região oriental do Paraguai outrora conhecido por suas florestas densas e carpintaria aprimorada, que lhe ocorreu a ideia da bucha como recurso para o desenvolvimento. Naquela época ela se concentrava em trabalhar com mulheres para melhorar suas condições mediante a construção de cozinhas e latrinas, mas sabia que em última análise precisavam de uma renda. Conforme relata, durante um viagem a Repatriación, um pequeno povoado outrora rodeado de florestas e agora de campos de soja, ela observou uma espécie de cabaça em forma de abobrinha, pendurada de uma árvore, que lhe recordava a infância. Como matéria para esponja, há muito tempo a bucha tinha sido suplantada pelos produtos sintéticos. No entanto, recordou Zaldívar, “eu sabia que este era o produto que poderia gerar renda para as mulheres”. Levou a ideia a Teodora Arguello, da Organización Campesina de Repatriación (OCAR), que disse que as mulheres de OCAR estariam interessadas em experimentar a bucha.

Com mulheres da Organización Campesina de San Joaquín (OCSJ) e Coordinadora de Agricultores Asociados (CODAA), elas começaram a cultivar a planta, aprendendo por teste e erro e ainda continuam a experimentar diversos usos. Inicialmente os maridos e outros homens das três organizações se mostraram céticos e zombadores. Mas as mulheres persistiram e começaram a produzir esponjas, chinelos, palmilhas e tapetes para o mercado interno. As três organizações deram mais impulso à empresa ao criar a Asociación de Productores Agropecuarios del Caaguazu (APAC), que até 2009 comercializou grande parte de seu estoque com varejistas que atendem a clientes exigentes da Europa, Canadá e Taiwan. Mas quando a APAC passou a ser controlada pelos mesmos homens que outrora ridicularizavam o empreendimento como algo que “não levava a nada”, as mulheres recorreram à OCAR para a comercialização. Algumas iniciaram empresas familiares. Para atender à demanda, a OCAR e algumas das famílias da CODAA estão empenhadas em persuadir outros a cultivar e processar a bucha.

Com modéstia, Zaldívar atribui à crise financeira do Paraguai de 2000 a criação de um vácuo na liderança da Base Ecta que ninguém queria assumir naqueles tempos difíceis. Em vez de deixar a Base Ecta se dissolver, Zaldívar não somente decidiu tomar o leme, mas também transferir de forma permanente a sede de Assunção para sua casa em San Lorenzo. Um ano mais tarde seu trabalho pioneiro com a bucha foi reconhecido com o prêmio Ashoka Fellowship que lhe permitiu continuar a explorar o potencial da planta no mercado e ao mesmo tempo resolver algo que a estava preocupando. Zaldívar estava tentando encontrar um uso aos dois terços da bucha de qualidade inferior para esponjas ou que se perdiam no processo de fabricação. Um desmatamento galopante, o trabalho da Base Ecta em tecnologias alternativas para construção e as propriedades que tornam a bucha um isolante natural contra o calor, frio e som a levaram a consultar fabricantes de materiais de construção. Em breve, Pedro Porajas Padros, engenheiro civil espanhol residente no Paraguai, decidiu colaborar com ela. O grande passo ocorreu quando ele combinou a bucha com plástico descartado e produziu painéis apropriados para a construção.

Mas justamente quando a Rolex anunciou a escolha de Zaldívar como uma das premiadas, Porajas Padros descobriu que a juta funcionava melhor do que a bucha nos painéis. A decepção de Zaldívar era compreensível. Sua atenção concentrava-se nas sobras de bucha e o Paraguai não produz juta. Ela queria continuar a fazer experiências com a bucha, mas Porajas Padros estava satisfeito com sua invenção e a patenteou. A Rolex manteve o prêmio. Com uma tecnologia que utilizava bucha ou juta, os painéis ou pranchas resultantes eram baratos e de fácil fabricação, reduzia-se a necessidade de madeira na construção, reciclava-se o plástico e geravam-se receitas para famílias da zona rural.

O prêmio teve como resultado uma intensa atenção da mídia internacional sobre a Base Ecta. Zaldívar investiu os US$100.000 do prêmio em equipamento para produzir os painéis e em avançar os testes e a pesquisa de mercado. No entanto, apesar da escassez de moradias e do intenso desmatamento em âmbito local, os fabricantes paraguaios têm sido lentos em produzir os painéis. Zaldívar atribui a indiferença à preferência por inovações e tecnologias importadas. Ser mulher, afirmou, também coopera contra a aceitação de sua ideia. Mas fora do Paraguai, especialmente em países que produzem juta, a tecnologia está gerando interesse.

Zaldívar está justificadamente orgulhosa de ter desenvolvido um material de construção barato que reduz o resíduo sólido e a degradação ambiental e está decidida a encontrar a combinação ideal para o Paraguai. Está também interessada em que seu trabalho com a Base Ecta continue a produzir efeito. “Não há recursos suficientes nem organizações que proporcionem oportunidades para mulheres”, afirmou. “Precisamos trazer gente nova à organização e à sua liderança, conseguir mais fontes de financiamento que não dependam da minha reputação e participar de mais iniciativas empreendedoras que utilizem materiais locais”. Assim a prioridade de Zaldívar continua a ser inventar tecnologia com base nos recursos disponíveis no Paraguai rural. Atualmente está experimentando com uma combinação de bucha e amido de mandioca, já utilizado em madeira compensada, para desenvolver um material com um acabamento semelhante ao gesso que possa ser usado para tapar buracos e fendas nas paredes e proporcionar isolamento. Vários protótipos são promissores e ela já os está testando. Há outra inovação a caminho? Considerando a determinação de Zaldívar, eu não apostaria que não.

Jeremy Coon é representante da IAF para a Argentina, Paraguai, Sul do Brasil e Uruguai.