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Madame Louise e o longo caminho desde o isolamento de Jenny Petrow e Dieusibon Pierre-Mérité

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Em outubro de 2007, como representante novinha em folha da IAF para o Haiti, eu me reuni em Port-au-Prince com donatários potenciais. No final do encontro, Louise Lexis Relus apareceu, brilhando de suor, e me entregou uma proposta em créole haitiano da Oganizasyon Kominotè Fam Veyon [Organização Comunitária de Mulheres de Veyon] (OKFV). Eu não tinha ideia do esforço requerido para chegar (quase) a tempo para uma reunião às nove da manhã na capital — uma caminhada de oito horas desde Veyon, sua aldeia, até Petite Rivière de l’Artibonite, o povoado mais próximo e outras cinco horas adicionais dali de tap tap, um táxi coletivo. Quando eu viajei a Veyon e compreendi o que Madame Louise precisou fazer para me encontrar, eu sabia que a IAF tinha de financiar a OKFV.

Veyon está no fundo da cadeia montanhas Chaine de Cahos. Não tem eletricidade nem água corrente; para usar telefone celular é preciso subir ao topo de uma alta colina. As tradições dos residentes são principalmente orais e não sabem muito francês. Devido a seu isolamento, Veyon, ao contrário de grande parte do Haiti, é coberto de densas florestas e o seu solo é fértil. Os agricultores cultivam feijão, arroz, sorgo e amendoim, bem como frutas, ervas e café. Mas os dispositivos de armazenamento da comunidade são vulneráveis às pestes e à inclemência do tempo. A falta de armazenamento apropriado obriga os agricultores a vender as abundantes colheitas a preços mínimos e a comprar sementes a custos exorbitantes na estação de plantio.

A OKFV nunca tinha manejado fundos externos; as poupanças dos sócios sempre tinham financiado sua produção de licor e uma pequena operação de crédito. A IAF trabalha com grupos de base como este no Haiti, mas se requer certa criatividade. Para desenvolver o sistema de armazenamento para o qual solicitava o financiamento da IAF, a OKFV precisaria do apoio de uma rede. Assim, Dieusibon Pièrre-Mérité, que presta serviços de ligação e assessoramento para a IAF no Haiti, e eu pusemos a OKFV em contato com Pascale Toyo, coordenadora da Kombit Fam Kaskad-Dubreuil (KOFAKAD), donatário da IAF, e com a Plateform des Organisations de Désarmes (PIOD), organização de agricultores que tinha recebido apoio do Fonds International de Développement Économique et Social (FIDES), donatário da IAF. Pascale Toyo ajudou a OKFV a redigir a versão preliminar de um plano de trabalho e um orçamento e a PIOD recebeu os membros no Désarmes próximo, onde eles aprenderam sobre armazenamento de grãos e aprimoraram a sua proposta.

Em janeiro, Pièrre-Mérité visitou o mais isolado de seus donatários da IAF e reuniu-se com Madame Louise, sua coordenadora. Essa entrevista oferece uma visão da singular determinação da mulher cujo compromisso com as famílias espalhadas entre as montanhas e desfiladeiros de Veyon convenceu a IAF a investir na OKFV. — J.P.

Como nasceu a OKFV?
Em 2006 três mulheres da comunidade receberam capacitação em processamento agrícola em Deschapelles. Regressamos a Veyon com a intenção de transmitir às outras mulheres o que tínhamos aprendido. Assim nasceu a ideia da OKFV. Teve 20 membros fundadores, 15 mulheres e cinco homens. Quando chegamos a 85 membros em 2010, regulamentamos um pagamento anual de 50 gourdes (cerca a US$1,10) para ajudar a custear as nossas despesas.

Se a OKFV é uma organização de mulheres, por que admite homens?
Todos perguntam isso! O objetivo do grupo não é concentrar-se nos direitos da mulher, mas processar frutas e ervas para fabricar geleias e licores e armazenar sementes e grãos. Os homens podem ser membros da OKFV, porém, de acordo com os estatutos constitutivos, somente as mulheres podem ter acesso a cargos de direção. Em 2008 os seus membros propuseram chamar o grupo de Organização Comunitária de Perodin para refletir seu caráter misto e incentivar a expansão em toda a section communale [comunidade]. Mas o pároco nos instou a manter OKFV, porque a iniciativa de formar o grupo partiu de uma mulher. A comunidade é pequena e a OKFV é a sua primeira e única organização. Sendo a vida dura, a relação entre homens e mulheres deve basear-se na cooperação. Nós também precisamos dos homens!

Como os homens membros aceitam a senhora?
Eu diria como uma força na comunidade, porque eles sabem que eu sempre estou procurando formas de ajudá-los. Nem as autoridades locais nem as organizações de desenvolvimento e humanitárias sabem sequer que vive gente em Veyon. Quando o projeto da IAF estava recém-começando, ocorreu algo que realmente me incentivou. Eu tinha que viajar muito — ao Ministério de Assuntos Sociais, em Port-au-Prince, para apresentar nossos estatutos, por exemplo — e não tive tempo de preparar minha horta para a estação das chuvas. Durante a minha ausência, os membros da OKFV organizaram um kombit [equipe de trabalho voluntário] para limpar e plantar em minha horta. Isso me demonstrou que eles sabiam que, se eu precisava viajar, era por eles.

Como se entendem homens e mulheres?
Em meus quatro anos com a organização não houve conflito algum.

A senhora se considera líder da comunidade ou da organização?
Sou dirigente de uma organização, mas também da comunidade. Quando encontro financiamento, isso beneficia toda a comunidade, não somente a OKFV. Estou no processo de luta para mudar as condições de vida dos habitantes de Veyon. Eles me respeitam e eu os respeito.

Como descreveria seu estilo de liderança?

Sou uma pessoa responsável que cumpre a sua palavra. Por isso as pessoas me respeitam. Quando alguém diz que é líder comunitário, deve comportar-se como modelo para os membros da comunidade, especialmente de uma tão abandonada como Veyon. É preciso dizer “sim” e “não” com transparência. No caso do depósito de armazenamento que estamos construindo, eu digo aos membros quanto a IAF nos deu e exatamente o que estamos fazendo com cada centavo.

O que motiva a senhora?
Eu nasci em Veyon. Aqui a gente não tem acesso a nada. Em 1993 meu esposo e eu vimos que os nossos filhos não tinham futuro e os colocamos em uma escola de Port-au-Prince. Mas o fato de que muitas crianças ficaram em Veyon e não puderam ir à escola é algo que me pesou muito. Então eu disse às mulheres que tínhamos de lutar para ajudar a comunidade e por isso fundamos a OKFV.

Ser mulher afeta o seu papel como líder?
Não! A situação é tão difícil em Veyon que qualquer pessoa com aptidões de líder é vista como líder. Isso vale tanto para homens como para mulheres.

Que tipo de discriminação a senhora sofre?
Ah, essa é uma boa pergunta. Dentro do coração da comunidade pode-se dizer que não há discriminação. Mas em Petite Rivière as pessoas se referem a nós como “gente da montanha” e “gente que saiu de um buraco”. Os nossos filhos, que vão à escola no povoado, sofrem discriminação por parte de seus companheiros e professores que os consideram moun andeyò e moun sòt, atrasados e simplórios. Às vezes, quando as nossas madan sara [vendedoras] vão ao mercado da cidade, cobram mais delas porque as pessoas pensam que não somos muito inteligentes.

Que doadores têm trabalhado com a OKFV?
Em 2008 a Organização para a Agricultura e a Alimentação (FAO) nos deu sete sacos de sementes de feijão e em 2010 outros 10. Nós os utilizamos para estabelecer um pequeno banco de sementes. Iniciamos uma mutuelle solidarité [associação de ajuda mútua] com nossas poupanças, para ajudar as pessoas em épocas de necessidade. A IAF é a nossa única fonte externa de financiamento.

A senhora poderia descrever os maiores desafios da OKFV e as recompensas mais significativas como donatária da IAF?
Os maiores desafios têm sido a despesa do transporte de materiais de construção a Veyon, o primeiro saque de dinheiro do banco em St. Marc e o fato de que a participação no projeto requer que os membros sacrifiquem algumas de suas responsabilidades pessoais. Os aspectos mais gratificantes: o planejamento orientado pela Senhora Pascale; o método de desembolso da IAF que nos dá o controle das despesas; a compra de mulas para facilitar o transporte; e a sua disponibilidade para assessorar-nos, Senhor Dieusibon.

Que é a parte difícil na administração de um projeto?
Primeiro, como demonstrar à IAF que podemos administrar o dinheiro; e, segundo, como mostrar à comunidade que a organização é importante para fazer mudanças, apesar da nossa falta de acesso e recursos.

Como a senhora enfrentou estes desafios?
Todas as mulheres de OKFV são madan sara com experiência em manejar dinheiro, inclusive empréstimos. A gestão dos fundos da IAF é semelhante. Quando o desembolso é depositado em nossa conta, fazemos uma revisão do orçamento preparado com a Senhora Pascale. Os dois membros titulares da conta pagam em seguida os materiais de construção. Isto nos protege de aumentos de preço e ficamos sem excesso de dinheiro líquido nas mãos. Armazenamos e utilizamos os materiais de acordo com nosso cronograma. A compra e o gerenciamento das quatro mulas, graças ao assessoramento da Senhora Pascale, estão funcionando bem. O membro responsável por cada mula recebe US$10 por mês para esse cuidado. As mulas têm produzido debate; ninguém pode utilizá-las sem autorização da diretoria. O uso pessoal está limitado a emergências relacionadas com doença ou morte.

E a sua família?
Sou casada e mãe de cinco filhos. Um ficou cego, o que afetou o nosso moral e a situação econômica. Em 2008, os dois mais jovens juntaram-se aos outros em Port-au-Prince. Meu esposo permaneceu ali enquanto eu ia e vinha porque eu também sou uma madan sara. Como as crianças já estão crescidas, ele pôde regressar a Veyon para trabalhar na horta. O nosso filho mais velho, Marc Eddy, de 26 anos, está estudando administração agrícola e nós estamos realmente contentes.

Como descobriu a IAF?
O irmão do meu esposo, Relus Alainson, mora em Port-au-Prince. A sua organização tinha enviado uma proposta à IAF que não conseguiu financiamento. Em 2007 ele me disse que a IAF tinha anunciado uma reunião em Port-au-Prince. Disse que era importante e então eu conversei sobre o assunto com a diretoria e redigimos um projeto com o apoio de Julien Shwartz, um blan [estrangeiro] da Inter-Aide, uma ONG que trabalha em Chaine de Cahos. Eu fui à reunião e entreguei a nossa proposta à Senhora Jeny [Petrow].

Qual é a parte mais difícil na obtenção de dinheiro para a OKFV?
O mais difícil é não falar francês. A semana passada, quando fui entrevistada para um filme, o cavalheiro me falou em francês e eu lhe disse, “sino muito, mas não falo francês”.

Quais são as maiores virtudes da OKFV?
Primeiro, todas as mulheres são comerciantes e, portanto, estão familiarizadas com orçamento e fluxo de dinheiro. Segundo, o nível de transparência no grupo. E finalmente a solidariedade na comunidade, incluindo os homens que apoiam as atividades das mulheres e respeitam as suas decisões.

Jenny Petrow é Representante da IAF para o Haiti, República Dominicana e o Caribe de língua inglesa. Keziah Jean estuda no Ciné Institute de Jacmel.