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Essas botas foram feitas para gerenciar de Mark Caicedo

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Seguindo os passos de seu pai, Francisca Blandón Ortiz transformou-se em pecuarista e ela não tem nenhum medo de sujar as botas. Sócia fundadora da Cooperativa de Servicios Múltiples Tepeyac, atual donatária da IAF, trabalhou em pastos e corrais. Mas agora, como administradora geral da cooperativa de laticínios, é tão provavel ela estar na frente de um computador quanto montando a cavalo.

Mãe infatigável de dois filhos, Blandón Ortiz, de 45 anos, irradia autoridade e charme. Nasceu em San Rafael del Norte, em Jinotega, Nicarágua, onde a pecuária é uma tradição. Aí viveu toda a sua vida, exceto para frequentar escola secundária em Manágua. Em 1995 foi uma das três mulheres entre 38 pecuaristas locais que uniram forças com a Tepeyac para enfrentar o abigeato ou roubo do gado, a falta de crédito que impossibilitava a expansão e os preços deprimidos. Os pecuaristas começaram a organizar-se para prevenir o roubo do gado, unir recursos para um fundo de crédito e fazer parceria com outros dois grupos. Isso aumentou a afiliação e os incentivou a colaborar, a comercializar e a procurar oportunidades de industrializar a produção.

Hoje em dia a Tepeyac conta com 315 pecuaristas, 72 deles mulheres. “Nunca me senti em desvantagem ao trabalhar com homens”, afirmou Blandón Ortiz. “Pelo contrário, eu e as outras mulheres da Tepeyac sempre nos sentimos protegidas em qualquer situação que poderia ser perigosa. Os rodeios nos expõem a riscos, por exemplo quando ajudamos cavaleiros feridos que caíram de touros e os transportamos para que recebam atendimento médico. Com frequência vamos muito cedo a esses eventos e regressamos no início da noite e para nossa segurança os homens nos escoltam”. No entanto, as relações nem sempre foram tão sistematicamente cordiais. “Ao crescer a cooperativa, alguns homens ficaram ressentidos com o poder crescente da mulher”, recorda. “Eu fui escolhida pelo Conselho de Administração da Tepeyac para o cargo administrativo devido a meus conhecimentos de contabilidade e meu histórico na organização. O machismo continua arraigado e a alguns homens desagradou a ideia de uma mulher no comando; mas no final 98% dos membros da cooperativa me apoiaram”. Isso ocorreu em 2004 e para assumir o cargo ela deixou o Conselho Municipal de San Rafael del Norte, ao qual tinha sido eleita quatro anos antes, uma realização que corrobora sua afirmação de que a mulher nicaraguense vem conquistando muito terreno nos últimos 15 anos.

Como nova administradora da Tepeyac, Blandón Ortiz decidiu concentrar-se na infraestrutura. A doação da IAF de 2005 permitiu financiar escritórios, uma nova planta processadora cintilante — completa com um laboratório que assegura o cumprimento das normas aplicáveis a produtos de laticínio para exportação — e um recinto coberto para feiras atualmente em construção. Completar as instalações é uma das principais prioridades de Blandón Ortiz. “A agulha mais difícil de enfiar como administradora geral”, explicou, “é a concorrência feroz entre produtores locais de leite”. Ela aguarda ansiosamente as feiras anuais que, assim espera, deem aos pecuaristas da Tepeyac alguma vantagem em um mercado repleto de produtores dos quais não se exigem as mesmas condições de qualidade e segurança que os membros da cooperativa devem cumprir.

A Tepeyac produz e pasteuriza anualmente um milhão ou mais de litros de leite, na maior parte destinado à venda para a PARMALAT-Nicarágua, que os distribui no país e internacionalmente. O acordo garante aos membros uma renda estável durante todo o ano e também recebem um dividendo anual da cooperativa. Sempre na busca de novas oportunidades, landón Ortiz diz que a Tepeyac está considerando as vantagens do processamento de queijo com um equipamento recém-recebido de um doador espanhol.

“Temos avançado muito, mas continuamos a precisar de apoio para alcançar a nossa meta final”, indicou Blandón Ortiz. “A minha visão é a seguinte: uma empresa totalmente autossuficiente, respeitada por outras empresas do município e que os produtores locais de leite atinjam os mercados nacionais e internacionais”. De alguma forma ela encontra tempo para trabalhar como vice-coordenadora da Comissão de Desenvolvimento Municipal e participa do conselho departamental e da construção de instalações municipais que prestarão serviços pré-natais essenciais. “As realizações da Tepeyac me incentivam diariamente a continuar a trabalhar pelas famílias de San Rafael”, explicou. Se as botas de Blandón Ortiz não estiverem mais sujas de lama, certamente estão muito gastas.

Mark Caicedo é editor fotográfico da IAF e trabalha com o Programa de Bolsas de Estudo desde 1994.