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Atendimento médico à sombra dos vulcões de José Toasa e Paula Durbin

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Qualquer caminho ao Lago Atitlán é pitoresco, mas nenhuma parte do trajeto prepara o viajante para ver pela vez primeira essa vasta extensão de água espetacularmente encaixada entre montanhas e vulcões. Para os maias, este local se chama rumxux ruch´lie, onde o mundo começou, e os vulcões são os guardiães tanto do lago como da terra e seus habitantes.

A Rxiin Tnamet, organização de base cujo nome significa “do povo”, também lida com o bem-estar das pessoas que moram perto do lago. Com sede em Santiago Atitlán, uma cidadezinha com 50.000 habitantes, na maioria indígenas guatemaltecos tz’utujile, a Rxiin presta serviços de saúde que têm gerado elogios de doadores internacionais, do governo local e, mais importante ainda, das pessoas que os recebem; e as nossas visitas assim o confirmaram. Quando saímos da embarcação que nos levou de Panajachel em março, por exemplo, não sabíamos qual das ruas tumultuadas nos levaria à clínica do donatário da IAF. “Não se preocupem se se perderem”, nos avisou a mulher que nos indicou como chegar. “Todo mundo a quem perguntarem sabe onde está a Rxiin”.

A Rxiin está prosperando sob a liderança de Leticia Toj, a enfermeira profissional que é a sua diretora executiva. A dedicação de Toj para melhorar os serviços de saúde para os indígenas a levou além de Santiago Atitlán a ministérios públicos, universidades, escritórios legislativos e a uma parceria regional com seus colegas. O idioma, a procedência e a forma de vida definem a identidade étnica na Guatemala, onde pelo menos 40% dos 13,8 milhões de habitantes são considerados indígenas. A vestimenta pode ser um componente importante desta identidade. Toj orgulha-se de ser kaqchikel, membro de um dos mais numerosos entre os 22 grupos maias da Guatemala e ela sempre usa o traje tradicional que consiste em uma saia de pano feita à mão e um huipil [blusa] e faixa profusamente bordados que comunicam abundantes informações sobre ela a qualquer outro maia. Onde quer que vivam indígenas guatemaltecos, os tecidos coloridos da sua roupa cotidiana alegram a paisagem como tapetes voadores. O traje e outras características da sua cultura se conservam apesar da história trágica de exploração e empobrecimento sistemáticos. O livro Eu Rigoberta Menchu, cuja autora foi galardoada com o Prêmio Nobel de 1992, atraiu a atenção mundial para essa situação e para a brutal guerra civil que se prolongou de 1960 a 1996 quando a assinatura dos Acordos de Paz Firme e Duradoura pôs fim às hostilidades. As atrocidades contra os indígenas guatemaltecos durante esse período e o total desprezo dos seus direitos humanos caracterizaram essa guerra como genocídio.

Toj nasceu nos primeiros anos do conflito no interior de Chimaltenango, um departamento situado no coração do altiplano guatemalteco, e cresceu quando aumentava a violência. Mesmo se os tempos tivessem sido melhores, o seu gênero a teria destinado a uma vida de opções limitadas. O próprio pai se negou a olhara a bebê depois de ela nascer. “O povo acreditava que os meninos eram mais valiosos do que as meninas e que traziam mais orgulho aos seus pais”, explicou Toj, acrescentando que tais preconceitos ainda persistem. Mas em poucos meses ela o conquistou e ele se transformou em fonte de apoio e incentivo. Naquela época para muitas famílias a educação das meninas era considerada mais uma extravagância do que um investimento. Mas o pai de Toj pensava de outra forma a respeito da sua filha. Contradizendo a esposa, ele permitiu que ela se matriculasse na escola – com a condição de continuar a ter as responsabilidades que se esperava de todas as meninas, inclusive o transporte de água, ser babá e preparar tortilhas.

“‘Aprende a falar bem espanhol’”, recorda Toj seu pai dizer. “‘Quero ver você se relacionar com diversos tipos de pessoas’. A guerra o afetou profundamente e não queria que eu fosse discriminada nem como indígena nem como mulher”. Toj concluiu sua educação primária em um sistema etnicamente segregado. Não obstante, emergiu completamente bilíngue e pronta para a escola secundária na Cidade da Guatemala, onde no auge da guerra civil ela era a única estudante indígena. Embora alguns companheiros a menosprezassem, ela encontrou aliados firmes nas autoridades da escola. Insistente em expressar a sua identidade kaqchikel, negociou a autorização para usar o seu traje indígena — exceto na aula de ginástica quando tinha de usar shorts como todos os outros alunos. Ela recorda vividamente que um dia, numa celebração do aniversário da independência, foi avisada por outros estudantes que, se quisesse participar, teria de usar o uniforme escolar. Mas em vez de obrigá-la a tirar o traje indígena, a diretora lhe entregou a bandeira guatemalteca e a colocou na frente da formação. Toj fez amizade com outros estudantes. No entanto, explicou, “o que eles queriam era ser engenheiros, medicos e advogados da capital. Meu sonho desde criança foi ajudar as comunidades sem acesso aos serviços — como nutricionista, trabalhadora social ou enfermeira”.

Uma bolsa de estudo do governo tornou possível o curso de enfermagem — em Quetzaltenango, porque a capital se tinha tornado demasiadamente perigosa para os indígenas guatemaltecos. Sendo novamente a única maia da classe, Toj vestia o jaleco sobre seu traje indígena quando ia às aulas práticas em hospitais. Quando recebeu o diploma em 1984 — a única graduada em traje autóctone — ela tinha aceito uma oferta para dirigir o serviço de enfermagem no hospital de Santiago Atitlán administrado pelo Project Concern International (PCI), um grupo de base da Califórnia que cresceu e se transformou em ONG. “Eu queria ir aonde mais me necessitassem”, explicou Toj, “onde pudesse ser útil”. Esse emprego lhe deu a oportunidade de confrontar duas das mais sombrias realidades de seu país: uma das taxas de mortalidade infantil mais altas do continente e a alarmante probabilidade de morte de mulheres indígenas no parto.

Mesmo antes da chegada de Toj, voluntários locais tinham procurado organizar-se perante as necessidades urgentes das gestantes, novas mães, recém-nascidos e crianças pequenas. Francisca Chiviliuy, coordenadora de educação da Rxiin e parteira licenciada, recorda a sua árdua luta. Sendo a única menina da sua aldeia em terminar o sexto grau, fora avidamente recrutada pelo PCI. Ela e outras recrutadas que tinham ido de casa em casa procurando organizar mães e parteiras depararam-se diante de uma aberta hostilidade. Considerado uma afronta à autoridade dos maridos, pais e irmãos, o ativismo também fez emergir uma desconfiança profundamente arraigada. “As pessoas nos recebiam com paus, água quente e até mesmo cães”, disse Chiviliuy. “Estavam convencidos de que as vacinas matariam os filhos e esterilizariam todos os outros. Lutamos, continuamos e pouco a pouco as pessoas mudaram”. Ainda assim, muitos hesitavam em participar durante os anos de guerra, conscientes de que qualquer reunião de indígenas poderia provocar as autoridades. A situação tornou-se perigosa quando Chiviliuy e outros começaram a receber ameaças de morte, mas se negaram a ser dissuadidos.

À medida que as mortes de mães e crianças começaram a reduzir-se radicalmente no fim da década de 1980, graças ao cuidado adequado, a persistência delas começou a ser valorizada. A Rxiin cresceu, chegando até mesmo a contar com cerca de 100 voluntárias capacitadas. Como poucas falam espanhol, o idioma utilizado é o tz’utujile. Embora muitas não saibam ler nem escrever, Toj considera isso irrelevante. A Rxiin as ensina a segurar um lápis e pôr a sua marca e adapta seu treinamento. “Elas não tiveram a oportunidade de estudar” indicou Toj, “mas isso não significa que não saibam nada. Elas sabem muito e são muito inteligentes. Como não podem tomar notas, prestam muita atenção e exercitam a memória”.

No início da década de 1990, o PCI anunciou a sua intenção de encerrar as operações em Santiago Atitlán devido a falta de fundos. Toj sabia que a Rxiin nunca poderia substituir o hospital, mas pensou que poderia concentrar-se na prevenção de algumas das condições que exigiam tratamento. O PCI concordou em que as mulheres da Rxiin tinham a capacidade técnica e a ONG permaneceu o tempo suficiente para que Toj e outras aprimorassem as suas aptidões administrativas e financeiras.

A clínica da sede da Rxiin oferece aos residentes da costa do lago acesso diário a um médico, dentista e enfermeira em tempo integral e a uma farmácia atendida profissionalmente. Uma clínica menor em San Juan de la Laguna, com pessoal em tempo parcial, poupa aos residentes um viagem até Santiago Atitlán que pode levar horas por caminhos através de montanhas e ravinas. A coluna vertebral do programa de desenvolvimento comunitário da Rxiin continua a ser as suas redes de voluntárias capacitadas. São responsáveis por uma redução drástica da desnutrição onde quer que a Rxiin tenha presença e pela erradicação do sarampo e caxumba. Embora 80% dos partos ocorram no lar, agora quase ninguém morre. “Trabalhamos com parteiras, mães e maridos”, explicou Chiviliuy. “Nós os capacitamos para detectar sinais de perigo e os preparamos para emergências”.

Toj gostaria que um maior número de entidades adotasse o enfoque multiétnico da Rxiin no atendimento médico, que inclui serviços acessíveis em idiomas locais, aceitação das posições tradicionais de parto maias e receptividade a preocupações tais como a modéstia. “Estar em um hospital poderia ser como estar em outro país”, comentou. Ela e a sua equipe têm trabalhado intensamente para que os programas da Rxiin continuem com recursos de doadores internacionais e guatemaltecos. Uma negociação teve como resultado descontos importantes em medicamentos. Mas também houve reveses. A Rxiin perdeu todas as suas poupanças quando um banco faliu. O dinheiro destinava-se a financiar a expansão da Rxiin, que foi também retardada pela crise econômica mundial que tem limitado a disponibilidade de recursos.

Nada, porém, pôs à prova o engenho e a determinação de Toj e da Rxiin como a devastação provocada pelo pelo furacão Stan em 2005. A chuva encheu a cratera do vulcão Tolimán e exerceu tanta pressão sobre o pico que um lado cedeu, causando uma avalanche catastrófica de lodo, árvores e pedras. Aqui, onde o mundo começou, uma menina descrevia o horrendo som como o fim do mundo. Cerca de 120.000 guatemaltecos perderam o domicílio. Muitos foram colocados em abrigos de emergência sem eletricidade, água suficiente e instalações sanitárias precárias. Os problemas de saúde surgiram imediatamente. Embora Toj e a sua equipe nunca tivessem experimentado uma crise de tal magnitude, atuaram rapidamente com as famílias desabrigadas. Entre os doadores que responderam, a IAF permitiu que o donatário recanalizasse fundos e complementou a sua doação original (ver Desenvolvimento de Base 2006.) Além de redobrar o atendimento médico, isso permitiu à Rxiin ajudar estudantes que tinham ficado órfãos e deslocados a terminar o ano letivo e a proporcionar capital semente para mulheres aplicarem em microempresas que hoje sustentam as suas famílias. “Algumas ganham agora mais do que o marido”, comentou Toj.

A incursão no desenvolvimento econômico e a educação acrescentaram essas prioridades à agenda da Rxiin. “São tantas as necessidades”, expressou Toj. Para a Rxiin continuar a prestar assistência, Toj refletiu sobre a liderança para o futuro. “Eu gostaria de encontrar alguém talvez melhor que eu”, explicou, “idealmente de Santiago Atitlán, de modo que a pessoa pudesse ficar. Estou procurando capacitação acadêmica e experiência. Isso poderá ser difícil de encontrar, mas não impossível”. Somente 5% dos guatemaltecos indígenas terminam o ensino médio, a resistência para a educação das meninas persiste e apenas 0,05% das mulheres indígenas têm título universitário. Mas Toj sente-se encorajada pelo fato de que um maior número de pais tenha começado a pensar de maneira diferente sobre as filhas e as condições são melhores para as jovens maias. “Resta ainda um longo caminho a percorrer, mas as coisas estão mudando”, acrescentou. “Enquanto isso, procuro transmitir a visão”.

José Toasa é representante da IAF para a Guatemala.