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Arte e cultura nas lições diárias de Wilbur Wright

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Salpicando a montanha andina há pequenas escolas, na maioria com uma única sala de aula, onde um só professor se encarrega de ensinar as crianças indígenas peruanas as matérias básicas seguindo o currículo oficial obrigatório sem qualquer relevância para elas ou para o seu ambiente.

Embora o ano letivo seja de 180 dias por ano, as crianças desta região com frequência recebem apenas 25% deste tempo. Os professores, geralmente de fora da população designada, muitas vezes utilizam um ou mais dias úteis para viajar das casas distantes até as escolas. Disputas de pessoal, conflitos trabalhistas, desacordos políticos, mau tempo e desastres naturais podem tirar ainda mais tempo de aula das crianças. Os pais têm pouca participação na educação dos filhos, uma interação mínima com o professor e nenhuma presença na sala de aula. Muito provavelmente o professor não fala quéchua nem aimará, as línguas indígenas mais comuns dos Andes, e só falam espanhol alguns dos homens e nenhuma das mulher dos povoados. Quando o governo distribui alimentos, o professor pode contratar uma das mães para cozinhar para os estudantes, mas ela geralmente trabalha em um barracão rústico e nunca entra na escola.

Em 1990 Laura Russell, artista de Los Angeles, visitou Cusco. Fazendo longas caminhadas pelo Caminho do Inca, observou estudantes esforçando-se por entender as instruções em um idioma desconhecido e memorizar e recitar fatos sobre um mundo totalmente alheio a eles, privados de qualquer oportunidade de expressão pessoal. Essa imagem perseguiu Russell durante meses e em 1991 regressou a esses altiplanos com materiais de arte e uma paixão por ajudar as crianças a aprender honrando sua cultura e incentivando sua criatividade. Os adultos da comunidade a consideraram uma mulher excêntrica na melhor das hipóteses ou que não girava bem da cabeça, mas a alegria pura de aprender suscitada pelos workshops de Russell foi algo que não lhes passou despercebido. A notícia se espalhou e povoado após povoado começaram a convidar “a louquinha” a realizar workshops para seus filhos.

Tal foi a procura que Russell consultou professores aposentados e outros cusquenhos interessados sobre a possibilidade de formar uma organização não governamental que apoiasse mais workshops. Em 1994 eles fundaram o Taller Movil de Arte. Receberam seu financiamento inicial do Centro de Estudios Bartolomé de las Casas, então parte de um convênio cooperativo com a Fundação Interamericana. Esta pequena doação e o patrocínio pessoal de Russell e outros permitiram que uma equipe de oito instrutores capacitados levasse os workshops a 30 comunidades indígenas de todo o altiplano de Cusco nos três anos subsequentes. Em 1998 o Taller Movil foi reorganizado como Asociación Cultural Allyu Yupaychay (YUPAY). As palavras quéchuas, que significam “guardiães do respeito”, refletem a meta da YUPAY de desenvolver um currículo que use arte e identidade indígenas como plataforma para ensinar as matérias básicas em escolas de uma única sala de aula e múltiplas séries. Uma lição de ciências sobre a metamorfose da borboleta, por exemplo, incorporaria a experiência prática de aplicar o espectro de cores e noções de simetria e proporção e introduziria as crianças nas três etapas do desenvolvimento do inseto e o significado da borboleta na cultura quéchua.

Vital para o enfoque é o grupo de residentes comunitários, na maioria homens e mulheres jovens escolhidos pelos vizinhos, capacitados para ajudar nas atividades de arte que transmitem importantes conceitos de matemática, ciências, história e geografia, desenvolvendo ao mesmo tempo nos estudantes o sentido da autoestima e do orgulho em seu patrimônio. Estes ajudantes de sala de aula também cumprem a função crucial de explicar aos pais a relevância cultural do trabalho em classe. A YUPAY não somente atribui valor ao fato de acompanharem as atividades realizadas na escola, mas também à sua participação nessas atividades. A participação dos pais faz que os professores se sintam menos isolados e mais comprometidos com as crianças.

A observação de primeira mão é essencial para apreciar plenamente a eficácia da YUPAY. Inicialmente, o visitante tem a impressão de estar entrando em uma comemoração. As crianças estão reunidas em grupos animados, falando, rindo, muito poucos sentados nas carteiras. O professor caminha entre elas, observando e incentivando. Um ajudante de sala de aula traz materiais, incentivando uma atividade ou desenvolvendo um projeto concluído. O trabalho de cada criança é aceito como tendo mérito; não há crítica nem rejeição. À medida que o professor revisa o produto terminado com todas as crianças, a criatividade, peculiaridade e perspectiva de cada uma são reconhecidas como componentes de um único enfoque na tarefa designada. O ajudante interpõe uma perspectiva local e provoca novos comentários. Terminado o dia escolar, as crianças recolhem seu trabalho para deixá-los secando ou o preparam para ulterior elaboração ou o levam para casa para mostrar às suas famílias. Deixam a escola satisfeitos com suas realizações.

Mas no final do ano letivo os estudantes demonstram maior compreensão das matérias consideradas obrigatórias pelo Ministério de Educação peruano? Os resultados de provas realizadas em 2007, 2008 e 2009 na segunda, quarta e sexta séries em 10 escolas participantes do município de Tcheca e duas escolas não afiliadas à YUPAY são esclarecedores e incentivadores. Os alunos das escolas participantes tiveram um desempenho significativamente superior aos das escolas não afiliadas no tocante ao cumprimento das metas estabelecidas pelo Ministério da Educação. Para os interessados em cifras, a diferença foi de 80%. A disparidade foi ainda maior entre os grupos da segunda série: as provas mostraram que os estudantes de escolas não afiliadas na realidade perderam terreno em seu primeiro ano de escolarização. Os resultados são mais surpreendentes considerando que as escolas não afiliadas tinham um quadro de professores mais experimentado e estável e que as crianças se tinham beneficiado de maior exposição a atividades pré-escolares. Mais impressionante ainda, a pontuação dos alunos da quarta série que tinham sido ensinados com a metodologia da YUPAY desde a primeira série e tinham feito provas todos os anos indicou que tinham progredido mais rapidamente do que as crianças que entraram em contato com a metodologia da YUPAY na quarta série. Quanto mais cedo ficavam expostos à relevância da arte e da cultura nas lições diárias, mais rapidamente avançavam no cumprimento das metas do Ministério da Educação.

O reconhecimento do êxito da YUPAY está começando a penetrar no sistema educacional. Os funcionários locais do Ministério da Educação que supervisionam as escolas participantes de Tcheca estão agora convencidos da validez da metodologia e têm expressado isso por escrito nos dois últimos anos. Em 2009, o escritório regional do Ministério da Educação em Cusco aderiu formalmente. Quando as autoridades de Lima o corroborarem, a capacitação da YUPAY para professores e ajudantes de sala de aula será parte do orçamento anual desse Ministério.

Esse avanço pode ocorrer em câmara lenta e enquanto isso a YUPAY precisa continuar a atingir crianças de menor idade e incluir mais escolas com uma única sala de aula e múltiplas séries. Ajuda muito o fato de representantes do governo local, ONGs e doadores internacionais terem sido testemunhas de como as crianças dos Andes liberam a rica energia cognoscitiva reprimida ou ignorada por tempo demasiadamente longo.

Wilbur Wright era diretor regional da IAF de programas para a América do Sul e o Caribe.