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Ajudando as cariocas a quebrar o teto de concreto de Amy Kirschenbaum

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Quando em 2007 o então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou uma iniciativa fundamental de sua política econômica, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Deise Gravina ouviu atentamente.

O PAC instava o governo brasileiro, as empresas estatais e o setor privado a coordenarem os seus investimentos em construção, salubridade, energia, transporte e logística. Gravina, engenheira civil aposentada, dirige a Federação de Instituições Beneficentes (FIB), organização matriz fundada em 1957 que hoje administra diversas iniciativas de desenvolvimento comunitário no Rio de Janeiro. Compreendendo que estes projetos de infraestrutura incentivariam uma demanda de mão de obra qualificada — tal como os preparativos, em escala sem precedentes, para que o Rio seja anfitrião dos jogos da Copa Mundial de Futebol em 2014 e das Olimpíadas em 2016 — Gravina concebeu a ideia para a FIB do projeto “Mão na Massa”.

Mediante este projeto, a FIB prepara as cariocas para o lucrativo setor da construção, tradicionalmente dominado pelos homens. Em apenas três anos, a FIB capacitou mais de 300 mulheres como trabalhadoras da construção e sua excelente taxa de colocação tem chamado a atenção. Mais de 60% das mulheres capacitadas conseguiram emprego imediatamente após se graduarem, quase duplicando a sua renda pessoal. Outras iniciaram pequenos negócios oferecendo serviços de construção e reforma. Quase a metade das participantes do Mão na Massa são do conhecido Complexo de Alemão, uma favela que tinha sido controlada por narcotraficantes e outras quadrilhas até a recente ofensiva do governo em dezembro de 2010. O motivo de a mulher optar pela construção é compreensível: esse setor gera cerca de 9% do emprego do Brasil. (Prevê-se que só a próxima reforma do icônico estádio do Maracaná no Rio de Janeiro empregue cerca de 3.000 trabalhadores.) “Sempre quis trabalhar como um homem” afirma a aluna graduada Andrea Sulmira Ribeiro Alves que durante 15 anos se dedicou a limpar as casas de outras pessoas. “Sinto que agora tenho direitos”, acrescentou, referindo-se aos benefícios que os empregados do setor formal recebem de acordo com a lei brasileira.

Gravina considera a si mesma tanto engenheira social como engenheira civil. Há muito tempo voluntária na comunidade, tem contribuído ativamente em fóruns e grupos de discussão sobre os direitos dos brasileiros mais vulneráveis. Ela atribui o seu compromisso à influência da sua mãe, professora aposentada que gerenciou um escritório que ajudava os pobres a encontrar moradia. No fim da década de 1980, quando Gravina participava da reforma da creche Abrigo Maria Imaculada, a diretora da entidade faleceu repentinamente. Sem ninguém que quisesse substituí-la devido às dificuldades econômicas da creche, Gravina e sua mãe assumiram o cargo. Em poucos anos, elas devolveram a solvência à creche, que cuidava de um número de crianças até então inigualável. O interesse de Gravina nos cidadãos brasileiros de menor idade não termina aí. Atualmente é membro dos conselhos municipal e estatal responsáveis pelo monitoramento das políticas que afetam os direitos das crianças e adolescentes e os serviços sociais para eles.

A experiência de Gravina na creche a incentivou a fazer também algo pelas mães das crianças. “As mulheres são atualmente a cabeça real da grande maioria das famílias do Brasil”, explicou. “Para enfrentar as enormes deficiências no acesso aos cuidados da saúde, educação e habitação, o governo lançou programas como o Bolsa Família que valoriza o papel da mulher chefe do lar e a encarrega da canalização dos benefícios para a família. Programas de moradias públicas entregam o título e a chave da propriedade à mãe. Mas não podemos esquecer que somos um país que durante séculos exaltou o homem na família ou no mundo profissional. Creio que só um investimento maciço na educação mudará esta realidade”.

Os longos anos no setor convenceram Gravina de que a construção oferecia às mulheres das favelas do Rio oportunidades e fuga da pobreza. Sabia que elas ajudavam o marido e os pais a construir ou melhorar a moradia — e que precisavam superar inibições e estereótipos que ela nunca acatou. “O gênero não teve papel algum em minha decisão na escolha da minha carreira”, afirmou. “Eu me interessava pela construção. Obviamente estava ciente de ter escolhido um campo dominado por homens, mas eu sabia que o conhecimento, a dedicação e a competência abrem portas”. Carioca nascida na classe média, Gravina começou a trabalhar aos 17 anos, depois de fazer um curso técnico e um estágio. Seu título de engenheira a qualificava para trabalhar em grandes obras públicas, tais como a represa hidrelétrica Tucuri no norte do Brasil, no sistema do metrô do Rio de Janeiro, na torre do Shopping Rio Sul — a estrutura mais alta da cidade naquela época — e no Rio Centro, um dos maiores espaços de exposições da cidade.

Com o correr do tempo, Gravina comprovou que os avanços em tecnologia e equipamentos substituíram a força bruta na construção, destruindo o mito de que o trabalho é “demasiado pesado” para a mulher. A FIB atrai as mulheres a seu curso por meio de cartazes estrategicamente colocados nos bairros e publicidade na mídia popular. A capacitação, explica Gravina, começa referindo-se a preconceitos e estereótipos. “Quando as alunas chegam à fase prática do curso”, comenta, “a diferença não está relacionada com o gênero, mas com o convencimento de que elas podem fazer a tarefa”. E se permanecem rastros do machismo no local de trabalho, é um desafio que as brasileiras parecem estar dispostas a enfrentar. De acordo com relatórios do governo, o emprego feminino na construção aumentou constantemente na última década. De 2008 a 2009 cresceu 3% graças não só ao PAC, que a Presidente Dilma Rousseseff, sucessora de Lula, pretende continuar, mas também a um surto da construção devido ao aumento da renda pessoal e à disponibilidade de crédito imobiliário.

A presença de mulheres na construção foi reforçada em Canoas, no sul, e em Fortaleza, no nordeste, cidades com programas semelhantes ao projeto Mão na Massa. Conforme demonstrado em outros setores anteriormente dominados por homens onde agora as mulheres estão instaladas, tais como as forças armadas e a aviação civil, não é provável uma reversão nessa tendência. No trabalho, destacou o representante de uma empresa que contrata graduadas da FIB, as mulheres tendem a esbanjar menos os materiais, o que reduz despesas, e a serem mais cuidadosas com os detalhes, o que ajuda em áreas especializadas como a segurança no local de trabalho. Um supervisor informou sobre uma melhoria no decoro quando há mulheres no local. “Os homens tornam-se mais amáveis e cuidadosos”, disse. “Os homens começam a usar colônia e prestam atenção em seu vocabulário”, acrescentou outro.

As mulheres que a FIB treina para serem profissionais em alvenaria, carpintaria, eletricidade e hidráulica também recebem instrução em português, matemática, leitura de plantas, participação cívica, organizações cooperativas, nutrição, responsabilidade ambiental, saúde e segurança trabalhista e administração de negócios. A especialização é oferecida mediante matrícula em 120 horas de instrução em cada profissão. Além das aptidões, as mulheres saem com um sentido de confiança. Cláudia Luzia Dionísio da Silva, de 36 anos e mãe de cinco filhos, fala com orgulho visível de ter-se transformado na primeira mulher pedreira da sua comunidade. Rosângela Rocha veio depois de ter trabalhado no negócio de eletricidade de seu pai, onde costumava ajudar. “Vou tirar clientes do meu pai!” disse a uma estudante eletricista, acrescentando que a tecnologia mudou desde que o seu pai originalmente aprendeu a profissão e, como resultado, ela lhe está ensinando.

A última fase do curso de FIB é um curso prático que proporciona uma experiência inestimável e permite que as estagiárias contribuam para a comunidade reformando ou ampliando estruturas pertencentes a instituições da rede da FIB, tais como a creche Santa Cruz de Copacabana, o Projeto Brincando e Estudando e Praça do Rocha, que oferecem programas educacionais depois das aulas. O Mão na Massa já formou parcerias significativas fora da sua rede da sociedade civil: a Petrobrás e a Eletrobrás, empresas estatais de petróleo e eletricidade respectivamente, proporcionam recursos de contrapartida para tornar possível o projeto. O Serviço Nacional de Aprendizado Industrial (SENAI), a Organização de Cooperativas do Estado do Rio de Janeiro (OCB-SESCOOP) e o Ministério da Justiça do Brasil oferecem instrução relativa a elementos específicos do currículo. O Serviço Social da Indústria da Construção Civil (SECONCI) assessora as graduadas na procura de emprego e mantém um banco de dados em parceria com o projeto para facilitar o processo de contratação. O Abrigo Maria Imaculada, parceiro natural, oferece espaço de aluguel a preço razoável e presta serviços de creche.

A revista National Geographic planeja apresentar a FIB em uma próxima edição que foca a mulher no desenvolvimento; o Projeto Mão na Massa participou recentemente do Fórum Social Mundial de 2011 em Dakar, Senegal, onde os seus representantes compartilharam experiências com um público internacional. Enquanto isso, Gravina continua adiante. “Quero expandir a metodologia a outras regiões do Brasil e compartilhar a nossa experiência com outros países em desenvolvimento para mudarmos o paradigma de gênero na engenharia civil”, afirmou. Norma Sá, coordenadora do Mão na Massa, está empenhada em obter aprovação de um projeto no legislativo estadual do Rio de Janeiro para garantir que as mulheres exerçam um número específico de cargos em todo projeto de construção financiado pelo governo. E ambas, Deise Gravina e Norma Sá, querem que as empresas e os sindicatos da construção contribuam para o financiamento dos programas de capacitação do Mão na Massa. Está também no panorama a luta pela igualdade de salários e oportunidade de avançar na carreira. Estatísticas do governo brasileiro indicam que as mulheres que trabalham na construção em cargos de nível inicial ganham 80% do que se paga aos homens principiantes. “Poucas empresas querem contratar mulheres, mas as que o fazem exigem mais de nós”, comentou Norma Sá. Não obstante, as mulheres graduadas pela FIB podem sentir-se orgulhosas de terem rompido o “teto de concreto” e encontrado um nicho no mercado trabalhista, o que não teriam conseguido há apenas alguns anos.

Amy Kirschenbaum é representante da IAF para o Brasil.