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Agricultura e conservação nas Ilhas Galápagos de Laura Brewington

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As ilhas Galápagos do Equador são um lugar ideal para examinar as relações entre a conservação, o desenvolvimento e o uso da terra. No mundo inteiro as ilhas oceânicas são destinos turísticos populares e as Galápagos estavam no topo da lista das “Melhores ilhas do mundo” no número de outubro de 2010 da revista Travel and Leisure. No entanto, a crescente presença humana está vinculada a um aumento das espécies invasoras, que podem ser devastadoras para a flora e fauna nativas (Simberloff 1995:90) e para a agricultura local. Outrora sustentado por propriedades agrícolas prósperas, o arquipélago agora depende da importação para alimentar os seus 20.000 residentes e quase 200.000 visitantes anuais.

Embora a biodiversidade e a soberania alimentar estejam estreitamente relacionadas, nas Galápagos raramente estão vinculadas à política ou à prática da conservação. A soberania alimentar, uma medida da produção local referente às importações, é importante em territórios insulares remotos, pois os produtos que viajam longas distâncias são caros (Hughes e Lorenzo 2005; Bourke e Harwood 2009; Bell e outros. 2009; Mertz e outros. 2010). Entretanto, o uso de terras privadas influencia as espécies invasoras que já estão presentes e é por elas influenciado. Um volume crescente de publicações indica a eficácia dos programas de gestão de terras que unem interesses econômicos rurais a metas de conservação (Vandermeer e Perfecto 1997; McNeely e Scherr 2003; Gangoso e outros 2006; Gøtz e Harvey 2008). Este estudo avalia a utilização e conservação do solo nas Galápagos e conclui que o controle e a prevenção das espécies invasoras, tal como a soberania alimentar, dependem da incorporação dos proprietários rurais na política de gestão.

A pesquisa de campo foi realizada em 2009 e 2010 com a ajuda da Fundação Interamericana. A área de estudo, zonas de uso urbano e rural das ilhas de Isabela e Santa Cruz constam do Quadro 1. Santa Cruz está no centro do arquipélago e tem a maior população (11.262 habitantes), ao passo que os 1.780 habitantes de Isabela estão mais isolados. Viajando de barco entre as ilhas, entrevistei o pessoal do Parque Nacional de Galápagos (PNG) e outras organizações e participei da observação, entrevistas e pesquisas dos membros das comunidades agrícolas. Em Isabela, visitei propriedades agrícolas do altiplano várias vezes por semana para participar da limpeza, cultivo e colheita. Tomei nota dos produtos de temporada, técnicas de plantação, fontes alternativas de renda e impacto das espécies introduzidas. Em Santa Cruz também trabalhei como voluntária na Fundación para el Desarrollo Alternativo e Responsable (FUNDAR-Galápagos), que realiza programas de assistência rural e opera uma propriedade agrícola de demonstração. No total participaram deste estudo 115 indivíduos.

Política de terras e produção


Como os altiplanos de Galápagos estão totalmente rodeados por áreas protegidas, o limite entre o PNG e as terras cultivadas é facilmente invadido por plantas introduzidas pela pecuária, pássaros, vento e outros vetores. O PNG, porém, tem mantido uma política somente para o parque no tocante ao controle e extirpação de espécies. Como me disse um funcionário, “somos uma organização de conservação. O que os agricultores fazem não nos importa”. Isso é importante porque afeta diretamente a produção de alimentos, resultando em tensões com os proprietários de terras. As propriedades agrícolas variam em tamanho de dois a 200 hectares e para a maioria dos proprietários é impossível limpar áreas extensas de plantas e ervas daninhas invasoras. O uso de pesticidas e herbicidas é restrito pelo PNG, mas alguns proprietários ainda borrifam as suas colheitas com herbicidas proibidos.

Em Isabela, a goiaba comum (Psidium guajava), árvore frutífera altamente invasora, abunda nas terras altas e arredores do PNG e reage negativamente à maioria dos herbicidas. Quarenta e quatro por cento dos agricultores entrevistados neste estudo utilizam mão de obra contratada para manter a sua terra, mas as normas de migração, previstas para reduzir a pressão populacional, dificultam a contratação da mão de obra do continente. Sem ajuda financeira ou mão de obra para cortar a goiabeira à mão, muitos agricultores simplesmente abandonam os seus campos e se mudam para a costa. “Eu corto [a goiabeira] e planto árvores para dar sombra às sementes, mas é tudo o que posso fazer. Sou somente um homem”, disse um deles. “De que tipo de conservação estão falando eles [o PNG]?”.

Embora as plantas invasoras, como a goiaba em Isabela e a framboesa de colina (niveus de Rubus) em Santa Cruz, causem graves problemas para a agricultura, o seu impacto varia segundo a intensidade do cultivo. De uma lista de oito obstáculos comuns — incluindo insetos, mão de obra, maquinaria, transporte, água e goiaba — os agricultores de Isabela (cuja terra está em rodízio de colheita pelo menos nove meses do ano) puseram à goiaba em penúltimo lugar. A água, seja em escassez ou em excesso, foi a sua preocupação mais crítica. As soluções criativas para lidar com a goiaba incluem a fabricação de carvão de lenha tirada das árvores maduras para vender aos moradores e restaurantes. Ao manter o terreno limpo e em produção, os agricultores evitam os problemas com a goiaba relatados pelos proprietários de terra que cultivam somente parte do ano.

Soberania alimentar

Devido a variações na precipitação e luz solar, as estufas e os sistemas de irrigação são essenciais para a produção durante todo o ano, mas somente os domicílios abastados têm condições econômicas para isso. Dependendo do item e da estação, o mercado pode oscilar de supersaturação com produtos locais a uma escassez de legumes frescos. Os cereais e a maioria dos laticínios figuram entre os 75% dos alimentos e outros itens orgânicos que devem ser importados por sete navios cargueiros em um calendário rotativo. A viagem de dois dias e meio custa US$1,17 por 100 libras (45 kg.) de legumes, frutas e cereais. As instalações de armazenagem fria cobram US$0,14 por libra — o que aumenta rapidamente a soma. Devido ao tempo adicional de viagem, os consumidores de Isabela pagam mais pelas mercadorias importadas do que os consumidores de Santa Cruz e o mesmo produto pode custar o dobro do preço cobrado no mercado agrícola, quando disponível. Se um navio cargueiro se atrasar, os alimentos básicos desaparecem dos armazéns e os preços aumentam subitamente, causando insegurança alimentar, especialmente entre as pessoas de baixa renda. Finalmente, tais navios são vetor conhecido de novas doenças de plantas e de insetos, completando o que um funcionário do PNG chama um “círculo vicioso da invasão”.

Percepções da paisagem

Um exercício de classificação em Isabela destacou uma divergência de opiniões no tocante à paisagem que pode explicar por que os formuladores de políticas hesitam em interagir com os proprietários privados. Mostrei a 10 agricultores e três funcionários do PNG 25 fotografias representando diversas coberturas do solo e lhes pedi que classificassem cada uma: solo ermo, lava, goiaba, vegetação introduzida que não é goiaba, pastagem, arbustos e colheitas. Cada foto correspondia a um ponto do GPS tomado em 2008 que estava no perfil espacial de uma imagem da área de outubro de 2004 do satélite QuickBird. Foi aplicada uma máscara de nuvens à imagem e usado um método de classificação supervisionado, utilizando o software de análise ENVI para gerar imagens classificadas de dois pontos de vista locais, um dos agricultores e o outro dos funcionários do PNG.

As imagens do Quadro 2 revelam uma relação complexa entre as percepções da produtividade ou degradação. Preparei uma matriz de confusão para avaliar o nível de coincidência entre elas. Embora as classificações dos agricultores e do PNG geralmente estivessem de acordo (65% no total, com uma estatística de Kappa de 0,58), indicaram um nível extremamente alto de coincidência na classificação da goiaba (91%). Inclusive nas fotografias que mostravam uma variedade de espécies de plantas, a presença da goiaba levava ambos os grupos a escolhê-la. O menor acordo (29%) referiu-se ao que o PNG considera vegetação introduzida, com exceção da goiaba, que os agricultores consideraram pasto (55%) ou arbustos (10%). Fotografias associadas continham capim alto, samambaia e outras ervas daninhas que nem todos os agricultores consideram como pragas e, portanto, não as consideraram como plantas introduzidas. As classificações demonstram que dentro e além dos altiplanos de Isabela, o que o PNG considera como paisagem agrícola degradada um proprietário considera como produtivo.

Uma resposta de base crescente

Ao longo do arquipélago, a desconexão marcante entre as regulamentações sobre o uso de terras e a prática tem dado lugar a produtores marginalizados, com poucos recursos e um número crescente de desafios. No entanto, muitos agricultores de Galápagos creem que a agricultura é a melhor forma de conservação e estão encontrando maneiras de alinhar a produção com as prioridades de conservação. Maria Elena Guerra e Scott Henderson, proprietários de terras e ativistas da conservação, reabilitaram uma propriedade agrícola abandonada em Santa Cruz e produzem café orgânico. A sua etiqueta de Lava Java descreve uma visão que fecha hiatos antigos: Na restauração de nossa propriedade agrícola podemos proporcionar sementes de plantas nativas e café raros em perigo de extinção a outros agricultores que decidirem se unir ao esforço de restaurar a terra abandonada a um ecossistema sadio de Galápagos em que prosperam as espécies nativas. Vemos cada novo agricultor dedicado a isso como um aliado da conservação. [A Lava Java] capta a essência de Galápagos que esperamos criar: um lugar único em que as pessoas aprendem a viver em harmonia com a natureza, conservando- a como parte de sua vida diária.

A FUNDAR-Galápagos apoia a conservação, proporcionando aos residentes oportunidades de participar da agricultura sustentável. “Gostaríamos que a comunidade participasse da conservação. Há gente aqui que diz que as ilhas Galápagos estariam melhor sem gente. A FUNDAR não compartilha esta opinião”, expressou Martín Espinosa, coordenador do projeto. Esta ONG utiliza a sua propriedade agrícola de 84 hectares para ensinar a proprietários de terras o ordenamento responsável de terras e publicou recentemente um guia de cultivo orgânico específico para Galápagos.

O café transformou-se na única exportação agrícola do arquipélago e ilustra os benefícios financeiros de um recurso cultivado de maneira responsável. Os pés de café não são invasivos, impedem a erosão e ajudam o solo a reter os nutrientes para posteriores rodízios de colheita, tendo como resultado um produto que atrai os consumidores dos Estados Unidos e europeus ecologicamente conscientes. Uma organização apoiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento ajuda agricultores de Santa Cruz a plantar árvores nativas de café cultivado à sombra, o que permite que algumas obtenham certificação orgânica e preços até 20% mais altos.

Apesar dessa promessa a agricultura orgânica ainda não é comum fora de Santa Cruz. A certificação requer investimento de tempo, trabalho e capital que a maioria dos agricultores de Galápagos, especialmente na Isabela isolada, não está disposta a arriscar. Como alternativa, alguns começaram a trabalhar em turismo especializado na “fauna”. Na fazenda El Chato, em Santa Cruz, os visitantes caminham entre túneis de lava semelhantes a cavernas, veem tartarugas gigantes alimentando-se da vegetação nativa e provam sucos e doces feitos de frutas nativas. Outra fazenda, Hacienda Tranquila, opera um programa de ecoturismo que recruta voluntários para trabalhar em restauração ecológica e autossuficiência alimentar. Em Isabela os visitantes podem aprender técnicas de cultivo tradicionais enquanto promovem a restauração dos altiplanos.

Conclusão

Em termos de política prática, a relação entre a soberania alimentar e as espécies introduzidas deve tornar o ordenamento de terras e subsídios agrícolas prioridades do Governo equatoriano e das instituições associadas à conservação, especialmente o PNG. Com mais de 400 funcionários, com um orçamento comparável ao do Parque Nacional de Yellowstone e uma localização estratégica na ciência e na política, o PNG está em condições de introduzir uma mudança verdadeira na sociedade rural de Galápagos. Uma doação de US$15 milhões, destinada a controlar e erradicar as espécies invasoras a fim de assegurar o êxito no longo prazo e novos programas para desenvolver servidões de conservação e capacitar os agricultores a eliminar espécies invasoras, deve ajudar o PNG a liberar-se da sua imagem nativa de agência dedicada somente à proteção do parque.

O primeiro Local do Patrimônio Mundial da UNESCO, as ilhas Galápagos são território de um ecossistema único e de milhares de pessoas cuja presença muitas vezes é percebida como ameaça para a sua famosa biodiversidade. Em 2010, a Comissão do Patrimônio Mundial avaliou o estado de conservação de Galápagos. O seu relatório ressaltou que as pressões da população crescente e a necessidade de um melhor controle das espécies introduzidas tornam o uso responsável pelas terras elemento essencial para o futuro do arquipélago (WHC 2010:18-22). Em uma louvável revisão de política, os residentes rurais das ilhas estão sendo incorporados no planejamento ambiental. Este estudo demonstra que, além de novos protocolos hierárquicos de conservação, a ação e o ativismo locais são essenciais para enfrentar na fonte os problemas de espécies introduzidas.

Laura Brewington, estudante do Center for Galápagos Studies, University of North Carolina at Chapel Hill, defenderá a sua tese em geografia em 2012.