You are viewing archived content
of the Inter-American Foundation website as it appeared on June 1, 2018.

Content in this archive site is NOT UPDATED.
Links and dynamic content may not function, and downloads may not be available.
External links to other Internet sites should not be construed as an endorsement of the views contained therein.
Go to the current iaf.gov website
for up-to-date information about community-led development in Latin America and the Caribbean.

A mulher mais tenaz do mundo de Patrick Breslin

Print
Press Enter to show all options, press Tab go to next option
Muitos anos depois, ao enfrentar as ameaças das sombras violentas da Colômbia, Nohra Padilla se lembraria daquele dia distante em que sua mãe a levou a um aterro de lixo da cidade para descobrir os pequenos tesouros ali lançados — garrafas, latas, papel e papelão que podiam ser classificados, limpos e vendidos para pagar alimento, roupa e educação dela e de seus 11 irmãos e irmãs.

Não é exatamente a cena mágica de perigo e descoberta com que Gabriel García Márquez inicia seu livro Cien años de soledad, mas é onde começou a história de Padilla. Com o tempo, ela encontraria naqueles montes de lixo e nas pessoas que os catavam um compromisso total e em si mesma a liderança que mudaria a política, a economia e a cultura da reciclagem, muitas vezes com a oposição de grupos bem estabelecidos que se beneficiavam do status quo. Filha e neta de recicladores, Padilla dirige agora a Associação de Recicladores de Bogotá (ARB), com um contingente de 20.000 membros, e a Associação Nacional de Recicladores da Colômbia. Ela se reúne regularmente com prefeitos, ministros, filantropos e jornalistas e é convidada ao exterior para compartilhar suas experiências. Aos 41 anos está prestes a conseguir seu diploma universitário em administração pública, tomando cursos quando suas obrigações o permitem. Na mesa de conferências, quando advogados, economistas e engenheiros civis se apresentam pela profissão, Padilla diz simplesmente “recicladora”.

A história de Nohra Padilla é parte de uma série do Desenvolvimento de Base que apresenta perfis de indivíduos de toda a América Latina que estão mudando sua sociedade de baixo para cima. Vale a pena destacar nesta edição especial de mulheres líderes que Padilla surgiu de uma organização onde a maioria dos trabalhadores são homens e que entre os recicladores o gênero não é comumente um obstáculo para o avanço.

A história do lixo

Nessa pequena percentagem de matéria hereditária que separa os seres humanos dos animais, deve haver um gene para produzir lixo. Desde que o homem apareceu na terra nós o produzimos. A maior parte do que sabemos de nossos ancestrais vem de seus dejetos — ossos e dentes fossilizados do que caçavam e comiam, armas e ferramentas rústicas que fabricavam, fragmentos de cerâmica onde outrora guardavam seus cereais e água, contas soltas e pedaços brilhantes de metal com os quais se adornavam e, em suas urnas funerárias, a evidência da idade, sexo, altura, peso, condição social e ferimentos ou doenças que os matavam.

O lixo moderno é quantitativa e qualitativamente diferente. Os montes que deixamos para pesquisa futura são vastas montanhas e lamaçais que ameaçam saturar as cidades dos consumidores que as produzem. Na América Latina, o crescimento urbano disparou desde meados do século XX e o volume de lixo nos depósitos municipais supera o seu ritmo. Periodicamente prefeitos reformistas assumem o cargo com planos ambiciosos, apenas para se depararem com o fato de que sua primeira prioridade deve ser encontrar novos aterros ao transbordarem os antigos. Esses aterros ou depósitos ameaçam a saúde, a segurança e o ambiente ao emitirem gases de efeito estufa na atmosfera, acelerando a mudança climática. Em 2000, uma avalanche de lixo enterrou centenas de filipinos que viviam em um aterro. Mas desde que houve aterros, as pessoas o catam. O lixo de uma pessoa é o tesouro de outra. Na América Latina, a quantidade de recicladores se tem multiplicado com as ondas de migrantes nas cidades. Um censo recente contou 150.000 recicladores na Colômbia. Como centenas de milhares de colombianos rurais, os pais e avós de Nohra Padilla fugiram dos campos de Boyacá e Cundinamarca devido à horrível violência que arrasou o campo na década de 1940. Tão maciça foi a fuga que em princípios da década de 1960 a Colômbia se tinha transformado em uma nação com maioria urbana. A família Padilla estabeleceu-se em Las Cruces, um bairro próximo ao centro de Bogotá que ainda tinha terreno disponível.

Se os migrantes encontraram segurança em seu novo ambiente, foi mais difícil conseguir trabalho e teto. Moradias construídas em terrenos baldios com restos de madeira, latas amassadas e placas de papelão originaram as favelas caóticas que surgiram da noite para o dia e se transformaram no rosto da pobreza urbana na região. Na ausência de emprego, alguns migrantes sobreviviam catando no lixo qualquer coisa que pudessem vender. Padilla nasceu na reciclagem e tornou-se experiente nela antes de completar 10 anos de idade. Mas embora a necessitassem no aterro, seus pais puseram em primeiro lugar sua instrução escolar. Com apenas um ano de escola, a mãe de Padilla aprendeu sozinha a ler e escrever e em seguida ensinou seu marido. Seus filhos combinaram o trabalho com o estudo, até o ensino médio no caso de Nohra. Mas o pai de Nohra ficou deficiente permanente em um acidente industrial e morreu quando ela tinha 13 anos. O reciclado manteve a família solvente, embora atada a um dos redemoinhos da pobreza: “Reciclo porque sou pobre e não saio da pobreza porque somente sei reciclar”. Para que o reciclador escapar do redemoinho, alguém precisava proporcionar a força centrífuga.

As políticas do lixo

Em 1999 Marcela Chaves, uma trabalhadora de campo da Fundação Corona da Colômbia, levou-me para visitar uma organização incipiente de recicladores que ela estava assessorando por meio do programa FOCUS, o qual estava recebendo assistência da Fundação Interamericana. Fomos de carro até uma das áreas mais pobres na orla sul de Bogotá para reunir-nos com residentes de Las Marías, uma comunidade literalmente construída sobre o lixo. A área tinha sido uma lagoa rasa que os migrantes encheram de terra e lixo, pisando tudo e em seguida construindo moradias precárias no novo terreno. Um grupo das pessoas que viviam da reciclagem tinha decidido organizar-se em uma cooperativa dentro da Associação de Recicladores de Bogotá. Suas condições de trabalho eram tão precárias como sua moradia. Suas carroças frágeis puxadas por cavalos mancos andavam no acostamento das estradas e das ruas principais, esquivando-se de veículos em velocidade enquanto carregavam fardos de papelão e montes de jornais. Empilhavam seus materiais ao lado das casas e em seguida os vendiam por uma miséria a intermediários. Tinham sorte quando ganhavam US$4 por dia, mas ninguém com quem conversei parecia amargurado. Vários, de fato, disseram que preferiam a liberdade de ser o próprio chefe e trabalhar nos dias e nas horas que quisessem. Ao decidirem incorporarse à Associação, entraram em contato com Nohra Padilla, que ia mudar a vida deles.

Padilla, naquela época com 29 anos, era uma mulher atarracada e baixa, vestia uma suéter grossa e jeans com bainha dobrada e usava seu abundante cabelo castanho em forma de tranças ou coque. Ela coordenava a organização para a Associação e estava ajudando o grupo de Las Marías a estar em condições de vender seu produto diretamente à indústria para conseguir melhores preços do que os pagos por intermediários. Padilla dava a aparência de ter vindo correndo de uma reunião e, quando saiu, estava correndo para a próxima. Mas entre uma e outra estava concentrada, ouvindo atenciosamente e respondendo rápida e decisivamente, dando ênfase às suas palavras com gestos. Marcela Cháves a viu como líder promissora.

Na realidade, Padilla tinha sido líder desde adolescente. Aos 14 anos começou a frequentar a escola noturna para ter os dias livres para ajudar a manter a sua família. Ela e alguns vizinhos e amigos da escola formaram um grupo de coleta de material em conjunto. Em breve estavam trabalhando para melhorar seu bairro de Tisquesusa, em Las Cruces, onde o despejo ilegal diário de lixo tinha atraído grandes quantidades de roedores e moscas, causando doenças dérmicas e respiratórias. O grupo de Padilla pressionou as autoridades e empenhou-se em remover a lixo, cavou drenagens para evitar inundações, canalizou a água para coletores públicos e desenhou um parque com quadras esportivas.

Quando no fim da década de 1980 o governo municipal de Bogotá decidiu fechar o aterro principal que mantinha 200 recicladores, Padilla e seus amigos formaram cooperativas para defender seus interesses. Inicialmente ignorados pela cidade, pressionaram com êxito por negociações fechando estradas e incendiando o aterro. As autoridades municipais persistiram em fechar o aterro, mas reconheceram as cooperativas, apoiaram seus esforços para organizar a coleta de lixo e proporcionaram a seus membros cartões de identidade e uniformes que lhes conferiram um status semioficial. As quatro cooperativas criadas naquela época transformaram-se no núcleo da Associação de Recicladores de Bogotá, fundada em 1990.

Em toda a Colômbia o apoio aos recicladores provinha da Fundación Social (FS), destacado exdonatário da IAF, que canalizou os lucros de diversos negócios que controlava, principalmente no setor financeiro, para o combate à pobreza. Um programa de FS ajudou grupos de recicladores a encontrar depósitos, melhorar o transporte e ter acesso à seguridade social, educação, serviços de saúde e cuidado infantil. Em 1991, a FS começou a informar os colombianos sobre os benefícios da reciclagem. Com fundos da FS, a Associação comprou uma estrutura precária, reciclando-a na sede ampla e espaçosa da organização, que inclui um escritório, local de reuniões, cozinha, refeitório, um pátio fechado e uma creche. Quando uma crise bancária posterior restringiu temporariamente o apoio da FS, Padilla foi nomeada diretora da associação de recicladores.

“Desde então”, diz Padilla, “temos procurado chegar à autossuficiência. Mas isso é muito difícil para uma organização cujos membros estão entre os mais pobres da sociedade. Eu passo longos períodos sem salário, apenas recebo dinheiro para passagem de ônibus ou emergências. Quando recebo salário? Quando consigo financiamento para um de nossos projetos e posso cobrar custos administrativos. E não sou a única. Muitos de nós temos doado tempo e esforço à Associação”. Com certo apoio da IAF, a Fundação Corona, uma fundação empresarial, interveio para apoiar as iniciativas dos recicladores para organizar e profissionalizar seu trabalho. Mas maiores obstáculos estavam à frente. Em 1999, o governo de Bogotá começou a formular um plano mestre para a cidade tendo como principal preocupação a coleta e a remoção do lixo. Em 2003, a possibilidade de apresentar propostas de licitações foi restrita a empresas registradas que prestavam serviços de saneamento. Os recicladores não somente foram marginalizados, mas foram afastados de suas rotas habituais. A ajuda veio de uma fonte insólita.

Alfonso Fidalgo era um consultor bem-sucedido e com conexões políticas que vivia em um espaçoso departamento em Bogotá próximo à Zona Rosa, uma área de prestígio. Homem elegante com sobrancelhas expressivas, traços fortes e cabeleira espessa negra e ondulada, Fidalgo é uma dessas pessoas de muita energia capazes de manter uma reunião e simultaneamente atender a três chamadas celulares. Uns anos antes ele tinha participado de uma reunião, apenas a convite, na cidade turística de Melgar onde líderes empresariais se reuniram com representantes de guerrilheiros em conflito com o Estado — parte de um processo de paz lançado pelo governo da Colômbia que no final não teve êxito. No encontro, Fidalgo ouviu uma palestra de Nohra Padilla e de um colega dela sobre os problemas dos catadores de lixo.

“Foi amor à primeira vista”, me disse Fidalgo. “Eu senti que eles tiveram o maior impacto entre todos os oradores”. Impressionado pelas implicações do que eles disseram, tanto no combate à pobreza como na melhoria do meio ambiente, ele se ofereceu como voluntário para ajudá-los a obter fundos de uma fundação espanhola. Quando isso não foi adiante, ele convenceu alguns amigos e colegas, entre eles o advogado Luis Jaime Salgar, a fazerem parte de um grupo de apoio informal aos recicladores. Salgar ajudou a Associação a contestar o decreto do governo que tinha marginalizado os recicladores. A apelação baseou-se no direito fundamental das pessoas ao trabalho, como está garantido na Constituição Colombiana de 1991 e teve êxito. Não somente foi anulado o decreto, mas foi dado aos recicladores um lugar no sistema de gestão do lixo da cidade. “Este foi um dos trabalhos mais bem remunerados de minha vida”, me disse Fidalgo. “Não em termos de dinheiro, mas de satisfação. Aprendemos muitíssimo. Ajudar os recicladores não tem um lado negativo. Tem sido bom para eles e para todos. É um círculo virtuoso”.

O aspecto econômico do lixo

Quando visitei Las Marías pela segunda vez, o grupo, graças à Fundação Corona e à Associação, tinha começado a sair do círculo da pobreza ao adquirir um pátio parcialmente coberto onde se podia pesar a contribuição de cada reciclador e armazenar materiais até encher caminhões para vender diretamente às indústrias. As condições de trabalho continuavam a ser terríveis. Vi a carroça com carga total e uma mulher forte no lugar do cavalo entre os varais, esforçando-se por levantá-la em uma rampa até o local de armazenagem. Em um canto do andar térreo de um edifício de uma área industrial, um jovem, como se fosse arremessador de beisebol fazendo esquentamento, atirava ritmicamente contra uma parede de cimento garrafas que explodiam como granadas. O monte de vidro quebrado resultante era um perigo para quem tivesse de manipulá-lo, mas o vidro poderia ser limpo mais eficientemente que as garrafas intactas — um passo inicial nos degraus da escada do reprocessamento.

Por muito tempo Padilla teve duas ideias orientadoras sobre como os recicladores poderiam escapar da armadilha da pobreza: entrar gradualmente no reprocessamento e passar a empregos fixos de limpeza de edifícios e cuidado de parques públicos. Quando ela fala de lixo, a gente se esquece dos aterros lamacentos e fétidos e imagina a sala de reuniões da diretoria de uma empresa onde o diretor executivo apresenta o plano empresarial. “Queremos controlar todo o processo de reciclagem de plásticos, desde a coleta, classificação e esterilização até o reprocessamento da matéria-prima para a indústria”, afirmou. “Por que o plástico? Porque o papel é controlado por umas poucas multinacionais industrializadas. O mesmo ocorre com metais e vidro, mas não com o plástico. E é possível processar completamente o plástico com maquinarias relativamente simples. Nosso outro enfoque são os metais não ferrosos, alumínio e cobre, não encontrados tão comumente, mas cujo valor aumenta muito rapidamente com o que fizermos com eles. Em plásticos e metais não ferrosos nós podemos competir”.

A Associação pôs em marcha uma estratégia no Alquería Parque de Reciclaje, um centro bem organizado que ocupa a maior parte de um quarteirão da cidade, que obteve mediante um contrato com o governo municipal de Bogotá. O aspecto ameaçador dos cães do tipo Rottweiler que cuidam da entrada faz lembrar que o cão do aterro é uma metáfora da ferocidade e que o lixo tem valor e deve ser protegido. Passados os cães, caminhões descarregam toneladas de recicláveis não classificados em algumas das sete plataformas de carga. Sob um teto elevado, recicladores uniformizados e com luvas, provenientes de 21 cooperativas, alguns com máscaras cirúrgicas, fazem rodízio na separação dos materiais. No dia de minha visita, uma senhora de meia idade, de aspecto digno, estava desmembrando metodicamente uma revista repleta de fotos acetinadas de modelos de lingerie, sendo as folhas lançadas em grande tambor azul. Do outro lado do pátio havia construções menores que abrigavam escritórios e salas de aula onde os recicladores tomam cursos oferecidos pelo Servicio Nacional de Aprendizaje (SENA), da Colômbia, organismo de capacitação profissional em operação há meio século. O equipamento de processamento incluía uma longa máquina amarela um tanto parecida na forma e tamanho ao escâner de bagagem de mão dos aeroportos.

A mudança nas condições trabalhistas que essa máquina representava ficou claro em um bairro do sul de Bogotá, o qual, de acordo com Padilla, era uma das zonas mais tóxicas da cidade. Os homens arrastavam os pés pelas ruas lamacentas com pesados fardos de peles curtidas sobre o pescoço e ombros dobrados. Passamos por uma porta metálica verde, atravessamos um espaço lúgubre e entramos em uma estrutura desmantelada de dois andares onde sacos de plástico eram preparados para reciclagem. Dezenas de enormes sacos de lona cheios de sacos plásticos estavam esparramados por todas as partes. Subindo por uma escada vacilante forrada com mais destes fardos, dois jovens estavam frente a facas ameaçadoras presas a um suporte, gume afiado apontando para cima. Eles pegavam os sacos, um de cada vez e os cortavam. Embaixo, outros trabalhadores usavam pás para enfiá-los em uma solução borbulhante e fervente em grandes tanques abertos. Um inspetor do OSHA, organismo de segurança trabalhista dos Estados Unidos, teria saído à rua, correndo e gritando.

Na instalação do Parque Alqueria, todo esse trabalho perigoso está contido com segurança dentro da enorme caixa amarela. Pega o plástico por um extremo, aquece-o até derretê-lo, esfria-o na água e, em seguida, o retira do outro lado em forma de cordas parecidas a espaguete de cor cinza escuro. Uma pequena guilhotina corta as cordas em grânulos purificados que são ensacados e vendidos a fábricas que os transformam em cadeiras, mangueiras de jardim, mais sacos plásticos — uma quantidade quase infinita de produtos. Com as instalações de Alqueria, os recicladores da Associação passaram a ser parte integrante do sistema de gestão de resíduos de Bogotá, um grande avanço em comparação com o espaço poeirento aonde os recicladores de Las Marías levavam seus materiais há mais de uma década. Além desta integração vertical, Padilla também está empenhada em expandir horizontalmente para as atividades de limpeza e jardinagem já mencionadas. “Não há o lucro como o da reciclagem, mas há muitos empregos que utilizam um reciclador que não está ganhando muito na rua e o colocam em um trabalho diferente mas relacionado”, explicou.

A cultura do lixo

Se os uniformes e crachás deram identidade aos recicladores, a disposição de rotas e horários regulares representou outro marco, eliminando a concorrência pelos mesmos montes de lixo e facilitando a conexão com as pessoas que põem o lixo para ser recolhido. Saber que podiam contar com as mesmas pessoas que apareciam ajudou os residentes de Bogotá a aceitar a sugestão de separar os materiais recicláveis dos resíduos orgânicos. Isto tornou o trabalho mais fácil e mais limpo, evitando maior manuseio de sacos e latas de lixo. Uma melhor comunicação reforçou a ideia de que os recicladores não eram marginais, mas trabalhadores que prestavam um serviço importante. “Gradualmente veio o reconhecimento de que, por exemplo, nós ajudamos a preservar as árvores”, disse um reciclador. “Se este monte de papelão triturado não fosse reciclado, imagine todas os árvores que teriam de ser cortadas”. Ao se tornarem mais organizados os seus esforços, as contribuições dos recicladores passaram a ser mais evidentes. Padilla calcula que grupos da Associação recolhem para reciclar pelo menos em 15% do lixo produzido cada dia em Bogotá, cerca de 100 toneladas de materiais. Isto significa que este trabalho prolonga a vida dos aterros de lixo da cidade em percentagem igual.

Com rotas e horário fixados, a liberdade do catador desapareceu. Alguns recicladores deixaram a Associação, mas outros apreciam os benefícios que proporciona. Por exemplo, o centro, na sede, onde os membros podem deixar os filhos das 8h00 às 16h00 e receber serviços médicos e odontológicos. Desde 2006, o centro participa do programa Bogotá Sem Fome, financiado pelo governo, que serve 300 refeições quentes por dia, na grande maioria a pessoas de baixa renda do bairro, bem como a recicladores e seus filhos. Pouco depois de iniciado este programa, Padilla me convidou a almoçar para mostrar-me como o centro estava manejando bem a responsabilidade adicional. Atrás de nós, uma longa fila de pessoas esperava pacientemente, conversando em voz baixa, abrindo espaço para que o ocupado pessoal passasse por todos lados. “Dizem que somos desorganizados”, afirma Padilla, “mas veja como todos se comportam bem. Há respeito. Há atenção na apresentação da comida. Isso é importante”.

Seu comentário sobre o alimento me fez recordar outros líderes de base que também notam todos os detalhes, especialmente aqueles que incentivam o orgulho. A pobreza está nas realidades concretas da vida, mas também atinge a mente e superá-la é em parte uma questão de atitude. Quando Padilla explica o que a Associação tem alcançado, ela sempre destaca o fato de cada vitória ter aumentado o respeito público pelos recicladores e a própria autoestima deles.

Defendendo-se dos Sopranos

A gestão do lixo é um negócio duro, onde não há lugar para os débeis. Cumpre lembrar que a base do império criminoso de Tony Soprano, da série da HBO, residia em rotas do lixo e nos contratos municipais que as adjudicavam. Na década de 1990, quando Padilla iniciou sua campanha para ter acesso ao processo de licitação, ela e seus colegas receberam ameaças de grupos misteriosos que consideravam os pobres organizados como subversivos. Por detrás disso Padilla percebeu a presença de proprietários de negócios que se estavam beneficiando do controle da coleta de lixo e que não queriam concorrência. As tentativas de intimidação, bem como as ofertas de suborno, aumentavam sempre que havia revisão de contratos. Houve episódios violentos; recicladores perderam a vida em enfrentamentos pelo acesso aos aterros sanitários. Ante o perigo Padilla diz que sua organização procurou sem êxito a ajuda das autoridades. De fato, afirma, seus membros são às vezes acossados pelas autoridades e sempre precisam estar vigilantes contra propostas para revogar os seus direitos.

Indômita, Padilla continuou sua campanha, mas também está trabalhando para melhorar a comunicação e a segurança interna em sua organização. Apresentou à imprensa queixas sobre ameaças; e se tem apoiado em seus parceiros, incluindo colombianos proeminentes como Fidalgo e Salgar. Não retrocede em sua exigência de que os recicladores tenham um lugar à mesa quando se negociam os contratos e se tomam decisões sobre salubridade e serviços de reciclagem em Bogotá.

Os esforços para alcançar esta meta lhe conquistaram a relutante admiração dos burocratas municipais. Eu estive em uma difícil reunião em um escritório de governo sobre resíduos perigosos no lixo e as leis que supostamente os regulam. A conversação se desviava pela tangente, mas Padilla voltava ao tema central. Ela se queixava de que sua organização não tinha recebido as informações prometidas sobre a legislação proposta. “Não estou perguntando se há alternativas”, disse em um momento, “estou afirmando que não há controle das autoridades”.

Minutos depois, já fora na calçada, uma mulher que tinha estado na reunião assim se expressava enquanto Padilla continuava a insistir em seus critérios: “Nohra Padilla,” pronunciou a meia voz, é “a mulher mais tenaz na face da terra”.

Patrick Breslin, ex-vice-presidente de relações externas da IAF, aposentou-se depois de 22 anos de serviço. Pode ser contatado pelo e-mail patbreslin@yahoo.com.