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O desafio zapatista e a comunidade de base de Kathryn Smith Pyle e Marcy Kelley

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As calçadas de ladrilho de San Cristóbal de las Casas, Chiapas, gastas e lisas pelos séculos de uso, são parte do encanto desta cidade colonial do sul do México, mas contam uma história especial. São tão apertadas em algumas partes que se duas pessoas se encontrarem, uma delas precisa descer para a rua, 30 centímetros mais abaixo, para permitir que a outra continue seu caminho. Durante séculos, as regras eram claras: os índios chiapanecos deviam dar passagem na calçada a qualquer pessoa de óbvia ascendência europeia. Esta prática foi proibida na década de 1970, mas a lembrança dessa humilhação diária perdura entre os choles, tzeltales, tzotziles, mames e tojolabales, descendentes dos habitantes maias originais de Chiapas, os quais constituem quase 30% da população do estado.

O deslocamento dos indígenas mexicanos de suas terras e a destruição de sua cultura começaram durante o governo colonial e continuaram até fins do século XX, acentuados pela exploração econômica e política. Comunidades inteiras viram-se forçadas a penetrar cada vez mais a fundo nos planaltos menos aráveis, longe de estradas e mercados. A degradação ambiental seguiu-se ao desmatamento das florestas. Os programas de reforma agrária produziram resultados desiguais; a escritura de títulos assegurava as terras comunais, mas não abordava o problema da menor produção que forçava a migração sazonal dos camponeses em busca de trabalho ou seu abandono permanente de Chiapas, acrescentando a desintegração da família a uma longa lista de pressões que sofriam seus cidadãos indígenas.

O Congresso Indígena de 1974, um evento sem precedentes organizado pela Igreja Católica com o apoio da IAF, reuniu os representantes dos povos indígenas de todo o estado de Chiapas com o objetivo de refletir sobre seu patrimônio cultural e falar do problema da terra. Isso deu lugar à criação de organizações de base e não governamentais dedicadas a promover a justiça social e aliviar a pobreza. Posteriormente, reprimidas pelo governo, muitas continuavam a existir em forma clandestina. Mas no início da década de 1990 a ideia da inclusão como elemento essencial da democracia se estava difundindo por todo o México, incentivando o desenvolvimento da sociedade civil e dando validez às aspirações indígenas expressas no congresso.

Em 1º de janeiro de 1994, o Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN) lançou uma ofensiva armada contra o governo mexicano em Chiapas. O EZLN, conhecido como “zapatistas” ou, mais coloquialmente, El Zeta, invocava Emiliano Zapata, herói da Revolução Mexicana, e sua insistência no direito dos sem-terra a uma propriedade adequada. Os zapatistas, com cerca de 3.000 combatentes e líderes mascarados que receberam extensa cobertura na mídia internacional, exigiam direitos para os indígenas e o fim da discriminação no trabalho, na educação e na vida diária. Naquele Dia de Ano Novo os zapatistas enfrentaram a polícia em San Cristóbal e capturaram várias outras cidades. O exército mexicano contra-atacou, obrigando a retirada dos zapatistas e, em 12 de janeiro, a Igreja Católica intermediou um cessar-fogo. A violência esporádica continuou nos anos seguintes, mas o conflito passou a ser principalmente uma disputa de natureza social, política e econômica, sendo um ponto-chave o acesso às terras.

Com o tempo, os zapatistas retiraram-se para bases situadas nos arredores de Chiapas, algumas delas enclaves com escolas e outras instituições, onde seus seguidores ainda vivem e trabalham. O governo continua a manter uma presença militar muito visível na zona. As negociações entre os dois grupos culminaram em 1996 nos Acordos de San Andrés, que tomaram o nome da cidade de Chiapas onde foram celebrados. Os Acordos concediam autonomia, reconhecimento e certos direitos aos indígenas mexicanos. Embora suas disposições nunca tenham sido postas plenamente em vigor, com base em seu teor e no investimento na infraestrutura em Chiapas por parte do governo, pode-se inferir o atendimento das exigências do EZLN, o que inicialmente conseguiu para os zapatistas o apoio popular. Os Acordos também foram uma inspiração para as ONGs e organizações de base. Como conseguiram as próprias negociações com os zapatistas e como a IAF respondeu às oportunidades e obstáculos que a situação apresentava constitui uma história ainda em evolução.

Nos anos anteriores ao levantamento, Chiapas era uma prioridade para a IAF, em parte por sua extrema pobreza, mas também devido ao potencial econômico do excelente café orgânico da zona e a uma sólida base de cooperativas. A doação de 1989 da IAF à Asociación Rural de Interés Colectivo, Unión de Uniones Histórica (ARIC UUH) ilustra o interesse no café e as complexidades do contexto. Com sede em Ocosingo, uma cidade posteriormente tomada pelos zapatistas, a ARIC UUH surgiu do Congresso Indígena. Trabalhou com mais de 5.000 camponeses para melhorar as plantas, fazer a transição para a produção orgânica, processar grãos e abrir mercados. Dado seu êxito, David Bray, naquela época Representante da IAF para o México, previa a solicitação de uma segunda rodada de financiamento. Mas ao serem sentidos os primeiros ecos de um levantamento, a ARIC UUH decidiu não apresentar outra proposta. No entanto, os camponeses membros da Unión de Ejidos de la Selva, que se tinham beneficiado da doação recebida pela ARIC UUH, queriam que a assistência técnica continuasse e, em 1993, solicitaram e receberam a própria doação. As realizações notáveis de La Selva são descritas no artigo de Ellen Murphy que figura na página 20.

Segundo John Burstein, fluente no idioma tzotzil e contratado pela IAF para concentrar-se em Chiapas de 1992 a 1996, a IAF e seus donatários mantiveram comunicações estreitas durante todo o período zapatista. Mas ao se intensificar o debate ideológico, as organizações de base de Chiapas percebiam que seus membros estavam cada vez mais em lados opostos. De 1997 a 2007, a IAF concentrou-se em outras zonas do México e financiou apenas um projeto em Chiapas. Nesse ínterim, dezenas de grupos diversificados surgiram como resultado direto do levantamento. Alguns eram a favor dos zapatistas e outros não, mas todos foram influenciados pelos ideais e métodos dos zapatistas, por sua mensagem de mudança e os recursos que atraíam. “Em certo sentido, 1994 estimulou os dirigentes locais”, disse um membro do pessoal de uma ONG. “As novas organizações nos deram a oportunidade de desenvolver aptidões. Agora, alguns de nós utilizamos essas aptidões em projetos governamentais formulados em resposta às exigências dos zapatistas”.

Em 2007, a IAF examinou novamente Chiapas. A situação política estava estabilizada; os índices de pobreza eram significativos; e boas propostas de todo o estado eram uma mostra da existência de uma extensa infraestrutura de organizações sólidas. Nos dois anos subsequentes, a IAF financiou seis projetos novos, nenhum com enfoque no café. Os novos donatários são todos sobreviventes das lealdades ambíguas e percepções em evolução da era em que os grupos surgiram, se consolidaram ou se desintegraram penosamente. Se, por um lado, são cautelosos quanto a revelar as antigas afiliações, mostram orgulho evidente em sua independência e valores culturais. Os donatários descritos neste artigo são representativos de outros que se adaptaram com êxito a um contexto dinâmico.

As tecelãs tomam a iniciativa

A rica tradição da tecelagem de Chiapas foi notavelmente influenciada por autoridades externas, começando com a Igreja Católica que há séculos designou um desenho a cada grupo étnico. Mais recentemente, o Instituto Nacional Indigenista (INI) do Governo mexicano encarregou-se da comercialização para os grupos de artesãos. Em 2003 o INI foi reorganizado, passando a ser a Comissão para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas (CDI); seu trabalho com artesãos foca a capacitação e a assistência técnica.

Antes do levantamento zapatista, a cidade de Pantelhó contava com uma associação informal de tecelãs que tinham trabalhado juntas durante cinco anos na produção de têxteis vermelhos e brancos para atender aos pedidos do INI e vender no mercado local. Algumas apoiaram os zapatistas desde o início, inspiradas por sua visão de direitos da mulher e autonomia indígena, o que, para algumas tecelãs, sugeria ficar independente do INI. O debate político sobre o zapatismo dividiu a associação e 52 tecelãs retiraram-se para formar a organização Mujeres Indígenas Artesanas de Pantelhó (MUINARPA) e continuar a trabalhar com o INI. Agora constituída como CDI, passou as atividades às mãos das tecelãs juntamente com a comercialização de almofadas, colchas e blusas que produzem com seus tecidos característicos para postos de venda de primeira categoria na Cidade do México. As mulheres tinham interesse em ampliar seu negócio e, após inteirar-se da existência da IAF por um trabalhador da CDI cujas sobrinhas eram membros da MUINARPA, começaram a articular suas necessidades em uma proposta bem formulada. O seu primeiro desembolso destinou-se à apresentação da solicitação para constituir legalmente a MUINARPA como entidade sem fins lucrativos. Além disso, a doação forneceu o capital necessário para aumentar a produção e comprar uma oficina para as tecelãs trabalharem sob um teto em caso de mau tempo. Embora só uma tecelã da MUINARPA falasse espanhol e soubesse ler e escrever, a MUINARPA cumpriu plenamente os requisitos da IAF relativos à apresentação de relatórios. As tecelãs aumentaram a sua produção e abriram novos mercados.

Com o tempo, as outras tecelãs da associação original de Pantelhó abandonaram sua postura pró-zapatista. Afiliaram-se à Jolom Mayaetik, uma cooperativa cujas tecelãs também estavam desiludidas como os membros de Japas Soloviletik, uma cooperativa fundada em 1984. A Japas Soloviletik, constituída por 1.000 tecelãs, inicialmente tinha acolhido a mensagem zapatista de autonomia, autossuficiência e direitos civis e econômicos. A convite dos zapatistas, a Japas Soloviletik construiu um local de trabalho no território controlado pelos zapatistas. Esta ação deu lugar a assédio, inclusive ameaças de morte, e o novo local de trabalho foi saqueado, documentos foram roubados e tecidos destruídos. Os autores do crime nunca foram identificados. Em uma curiosa volta de acontecimentos, alguns dirigentes zapatistas puseram em dúvida se a estrutura tinha sido oficialmente autorizada e como a cooperativa funcionaria com relação à sua hierarquia. Posteriormente ordenaram que a cooperativa desmantelasse o local de trabalho, o que as tecelãs fizeram, tábua por tábua.

Este conflito foi um elemento-chave da rejeição da retórica zapatista por parte de muitas tecelãs da Japas Soloviletik. “É muito difícil para uma cooperativa ser patrocinada por uma estrutura militar”, explicou uma tecelã. “Os objetivos e as atividades são completamente diferentes, embora a visão seja a mesma: desenvolvimento econômico, renovação cultural, reforma agrária e o fim da discriminação”. Em 1995, um punhado de tecelãs retiraram a parte que lhes correspondia dos bens da cooperativa e criaram a Jolom Mayaetik, cujo número de membros se elevou a 240 artesãs. Reconstruíram também seu local de trabalho em um prédio de propriedade da K’inal Antsetik, donatária da IAF cujo nome significa “terra de mulheres” em tzeltal. A K’inal Antsetik está ajudando diversas cooperativas a desenvolver aptidões administrativas, formular estratégias de comercialização e criar desenhos. Trabalha em áreas com antecedentes de violência, discriminação, migração e conflito político e religioso e uma forte presença militar devido ao tráfico de drogas, armas e pessoas. Apesar destas dificuldades e da necessidade de navegar por comunidades com uma presença zapatista contínua, a K’inal Antsetik está determinada a apoiar as cooperativas em seu empenho em serem empresas bem-sucedidas.

Opção pela agricultura orgânica

O interesse zapatista na terra e nos direitos indígenas ressoou em Chiapas. “Os camponeses tinham sido duramente explorados pelos proprietários das plantações”, explicou Manuel Cruz Guzmán, que trabalha para o Centro de Formación Integral para Promotores Indígenas (CEFIPI) e cujo pai tinha participado do Congresso Indígena de 1974. “Eles tinham sido expulsos de suas terras tradicionais, mas em seguida recrutados para trabalhar nessas mesmas terras com um salário escravo”. Nos meses seguintes à rebelião, grupos de camponeses e ativistas, sob a direção dos zapatistas, apoderaram-se de centenas de propriedades agrícolas para serem redistribuídas, em uma tentativa, às vezes violenta, de reparação. O CEFIPI tinha resolvido manter-se neutro e, em colaboração com a Igreja Católica, facilitou a negociação entre as partes. A neutralidade era difícil, mas, como recordou Cruz Guzmán, “trabalhamos com o governo para facilitar a compra de terras”. Em 1994 e 1995, 1.200 famílias pobres adquiriram assim 15.800 hectares — embora insuficiente para ganhar a vida decentemente, acrescentou Cruz Guzmán.

Com sede no município de Chilón, a três horas de carro ao norte de San Cristóbal e com raízes na Igreja Católica, o CEFIPI dedica-se a promover a agricultura orgânica em 13 comunidades tzeltale e chole dispersas pelas montanhas, uma região que os zapatistas dominaram e afetaram profundamente. Após o levantamento, os zapatistas visitaram a zona com frequência, ajudando os residentes a reconstruir sua história, em particular sua relação com a terra. “Nosso povo sempre tinha vivido aqui”, disse um residente de uma comunidade envolvida no movimento zapatista. “Considerávamos a terra como nossa, mas fomos expulsos, especialmente das melhores terras. Por isso, quando El Zeta nos falou sobre a terra, nós escutamos. A maioria deles eram indígenas como nós, por isso nos identificamos com eles. Pensamos que podiam ajudar-nos”.

Com o tempo, os residentes chegaram à conclusão de que a estratégia zapatista era demasiado difícil e o benefício previsto duvidoso. Um deles explicou: “A Igreja já estava aqui e preferíamos continuar com ela”. Distanciar-se dos zapatistas foi simples e os residentes insistem em que não sentem rancor algum contra os zapatistas que permanecem na zona. “El Zeta introduziu a questão da terra e nos recordou seu valor”, disse uma mulher. “Não participamos das invasões agrárias e, por conseguinte, não conseguimos melhores terras. Mas somos tzeltal, vivemos aqui desde sempre. Estamos mais preocupados em utilizar a terra que temos. Devemos aprender mais sobre as técnicas orgânicas, necessitamos capacitação”.

Durante anos, o CEFIPI se tem concentrado no desenvolvimento que incorpora a cultura, a experiência e os conhecimentos indígenas e já capacitou mais de 300 indígenas chiapanecos para serem “protetores da terra”. Uma doação da IAF em 2008 ampliou o programa do CEFIPI a 3.600 pessoas em sete municípios. Os residentes de uma comunidade observam com orgulho que seu território inclui as ruínas de Palenque, cidade-estado maia, e está no Corredor Biológico Mesoamericano, a maior extensão de floresta virgem do Hemisfério depois do Amazonas. O CEFIPI espera que os camponeses melhorem a produção e, com o tempo, tenham acesso a um novo mercado regional regido por princípios de comércio justo. Está também ensinando as mulheres a preparar cereais orgânicos atualmente cultivados pelos camponeses, para elaborar um suplemento nutricional destinado às crianças.

Cruz Guzmán considera como positivo o impacto do período que começou com o levantamento zapatista. “As ONGs são mais fortes, mas também precisam estar mais bem preparadas para abordar problemas complexos bem mais numerosos, tais como a migração, que requerem que trabalhemos em conjunto”, observou. “E o povo conhece seus direitos. Já não há discriminação nas calçadas de San Cristóbal. Essas coisas já estavam mudando quando chegaram os zapatistas. Mas, sem dúvida, em 1994 reforçaram o que estava acontecendo”.

Kathryn Smith Pyle, ex-funcionária da IAF, está preparando um documentário sobre as crianças salvadorenhas que desapareceram durante a guerra. Marcy Kelley, ex-Representante da IAF para o México, é atualmente Representante para a Costa Rica e o Panamá.