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In Memoriam: Rex Nettleford de Steve Vetter

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Rex Nettleford, educador e autoridade cultural da Jamaica que assessorou a Fundação Interamericana durante as décadas de 70 e 80, faleceu em 3 de fevereiro ao sofrer um ataque cardíaco num quarto de hotel em Washington, D. C. Sua morte ocorreu pouco antes de uma viagem que tinha programado a Nova York, com o fim de assistir a um evento destinado a arrecadar fundos para a Universidade das Índias Ocidentais, onde havia sido o inspirador de um programa de extensão universitária que oferecia aos estudantes caribenhos oportunidades educativas sem precedentes.

Rex exerceu uma influência significativa nas doações inicialmente concedidas pela IAF, com sua recomendação simples de investir em três áreas: a participação das mulheres no desenvolvimento, enriquecimento da identidade cultural e ideias que ajudam os pobres a obter segurança econômica. Entre os dirigentes políticos aos quais assessorou, se encontram os primeiros-ministros da Jamaica Norman Manley, Michael Manley, Edward Seaga e aqueles que os sucederam. O primeiro-ministro Bruce Golding qualificou Nettleford como “um gênio intelectual e criativo” devido à sua “contribuição para dar forma e projeção ao cenário cultural de toda a região do Caribe”.

Entre estas contribuições encontra-se a reformulação do movimento rastafariano, que contribuiu para a propagação universal da música reggae durante os anos 70. Rex fundou o Centro de Capacitação Cultural da Jamaica e o Instituto Sindical da Jamaica, mas é mais conhecido por haver fundado a Companhia Nacional de Dança e Teatro da Jamaica em 1962, ano no qual seu país se tornou independente da Grã-Bretanha. Foi o coreógrafo da companhia e seu dançarino principal, e nessa qualidade se inspirou nas influências africanas e europeias que se haviam fundido para dar lugar aos ritmos afro-antilhanos kumina, ska e reggae. Algumas semanas depois de sua morte, The New Yorker anunciou nestes termos o regresso da companhia ao Brooklyn Center for the Performing Arts: “O programa compreende obras inspiradas no povo, ritos e música do Caribe, muitas delas criadas por Nettleford em um estilo que conjuga as modalidades de dança afro-antilhanas com um estilo mais abstrato de dança moderna”.

Rex, nascido na aldeia rural de Falmouth, no distrito de Trelawny, estudou na Universidade das Índias Ocidentais, de Kingston, e realizou estudos de Ciência Política na Universidade de Oxford, como beneficiário de uma Bolsa Rhodes. Pouco depois de seu regresso de Oxford, o primeiro-ministro Norman Manley lhe pediu que empreendesse uma pesquisa sobre o movimento rastafariano, que se havia enraizado nos bairros pobres da zona ocidental de Kingston e que adquiria cada vez mais notoriedade. A sociedade da Jamaica considerava que seus seguidores eram perigosos, mas o relatório de Rex, publicado em 1961, atribuía ao movimento o fato de ter ajudado a Jamaica a recuperar suas raízes africanas e o qualificava como “uma força revigorante, embora cause desassossego e inquietação”. O relatório contribuiu decisivamente para que o movimento religioso rastafariano obtivesse legitimidade e apreço, e ajudou artistas da música reggae tais como Bob Marley e Peter Tosh a desenvolver sua música para um crescente público internacional.

Tomei conhecimento da importância de Rex em 1975, quando me convidaram a ocupar “a cátedra Rex Nettleford”, em um centro comunitário de Mystic Revelations of Rastafari (MRR), um grupo musical muito conhecido, na zona perigosa de Wareika Hills, em Kingston. A cátedra era na realidade uma pedra grande e bruta colocada sobre concreto no ponto exato da pequena biblioteca do centro no qual Rex “dialogava” com os patriarcas do MRR. Passaram-se muitos anos antes que Oxford apreciasse os esforços que Rex havia realizado em seu favor, mas os chefes do MRR perceberam imediatamente que sua categoria e situação social haviam experimentado uma drástica melhora graças à intervenção de Rex. Parecia que o mínimo que podiam fazer era estabelecer o equivalente de uma cátedra universitária em sua honra.

Bill Dyal, o primeiro presidente da IAF, admirava Rex por seu enfoque criativo sobre o desenvolvimento e por sua disposição a nos informar sobre organizações inovadoras. Uma delas foi Mystic Revelations of Rastafari, cuja canção “O Caroline” talvez tenha sido a primeira em ritmo reggae. Vendida por US$15, alcançou rapidamente os primeiros lugares de popularidade; graças a isso, o distribuidor ganhou uma pequena fortuna. O MRR desejava ter seu próprio estúdio de gravação, o que lhe permitiria colher no futuro os frutos de sua criatividade e reinvestilos na comunidade. Nessa época, seu centro comunitário constava de uma biblioteca, uma lanchonete infantil para o programa de nutrição e uma sala para realizar reuniões ou ensaios, mas não tinha teto nem os equipamentos de gravação necessários. O primeiro-ministro Michael Manley e Edward Seaga, que chefiava o partido de oposição, apoiavam com entusiasmo o trabalho do MRR, assim como Bob Marley e Peter Tosh, que nessa época não eram conhecidos na esfera internacional. Os conselhos sábios e úteis de Rex acabaram por convencer o embaixador dos Estados Unidos, que inicialmente havia instado a IAF a retirar a oferta de uma doação. O estúdio não teve os resultados esperados, mas o MRR realizou gestões junto ao Privy Council, o comitê assessor da monarquia em Londres, para fazer valer seus direitos autorais sobre “O Caroline” e outras canções, e 30 anos depois recebeu royalties retroativos.

As pesquisas de Rex sobre os rastafarianos serviram de inspiração para seu trabalho com a companhia de dança, bem como seu importante estudo sobre a identidade caribenha Mirror Mirror, publicado em 1969. Quando Bob Marley alcançou os primeiros lugares na parada de sucessos, Rex gostava de contar que, através de sua música e de sua “identidade cultural”, os rastafarianos davam à Jamaica uma quantia de divisas superior à gerada pelas indústrias do turismo e exploração da bauxita juntas. Por iniciativa de Rex também foram concedidas doações à Companhia de Teatro SISTREN, integrada por ex-prisioneiras; ao Conselho Cooperativo dos Trabalhadores Unidos da Indústria Açucareira; ao Conselho para os Cegos da Jamaica; a uma pequena empresa fundada pelo grupo juvenil de Matthews Lane United Rasta; e ao programa do Centro Cultural da Jamaica, que introduziu a dança nas zonas mais pobres da ilha. A última doação para o Centro financiou a publicação de Caribbean Cultural Identity [Identidade cultural caribenha], um estudo de Rex que constituía a continuação de Mirror Mirror.

A relação de Rex com o pessoal da IAF foi o que levou à formação do Comitê Cultural, que considerou a concessão de doações a organizações culturais do Brasil, Colômbia, Chile e República Dominicana. Juan Luis Guerra, do grupo musical 4-40, havia participado em programas da Casa de Teatro de Santo Domingo, uma organização donatária da IAF, no início dos anos 70, e 25 anos depois, quando Guerra ganhou o primeiro prêmio Grammy Latino, chamei Rex para agradecer sua recomendação inicial. Estava muito satisfeito, mas me recordou que seria muito difícil alguém igualar o impacto de Bob Marley. O livro Cultural Expression and Grassroots Development: Cases from Latin America and the Caribbean [Expressão cultural e desenvolvimento de base: casos procedentes da América Latina e do Caribe] documenta com mais detalhes o legado de Rex. Editado por Chuck Kleymeyer, da IAF, e publicado em 1994 por Lynne Rienner Publishers, o livro é uma ramificação direta do Comitê Cultural e descreve mais de 700 projetos financiados pela IAF nos quais a cultura tradicional desempenhou um papel, às vezes o papel principal.

Embora o grande amor de Rex e o trabalho de toda a sua vida estivessem na Universidade das Índias Ocidentais e na Companhia Nacional de Dança da Jamaica, sua educação na Universidade de Oxford também ocupava um lugar especial em seu coração, e a universidade retribuiu o afeto cultivando seus interesses durante toda a sua vida. Em 2003, Rex foi um dos quatro ex-alunos que receberam graus honoríficos para celebrar o centenário das Bolsas Rhodes. A Fundação Rhodes financia a bolsa Rex Nettleford de Estudos Culturais da Universidade das Índias Ocidentais. Não tenho dúvida de que ele desfrutava dessas honras quase tanto quanto valorizava sua cátedra no centro comunitário de Mystic Revelations of Rastafari em Wareika Hills.

Steve Vetter é presidente de Partners of the Americas. Entre 1975 e 1995, exerceu vários cargos na IAF, entre eles os de Vice-Presidente de Programas e Presidente Interino.