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Desastres e firmeza junto ao lago Ilopango de Seth Micah Jesse

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Em janeiro aconteceu algo improvável. Cinquenta representantes de donatários da IAF de El Salvador se reuniram em uma próspera piscicultura no lago Ilopango para captar ideias que pudessem servir-lhes. Cinco anos antes, muitos peritos teriam encerrado o capítulo sobre as comunidades do lago e seus planos de desenvolvimento. No entanto, entre 2005 e o presente, estes pescadores enfrentaram com êxito grandes desafios e hoje se mostram otimistas com respeito ao futuro.

O lago Ilopango, que cobre uma cratera vulcânica situada a 30 minutos a leste de San Salvador, é um rico recurso para os povoados às suas margens. A organização regional Agencia de Desarrollo Microregional de los Municípios de Ilopango, Soyapango y San Martín (ADEMISS) o confirmou quando um grupo que havia ajudado a organizar começou a criar peixes no lago. Inspirada pelo êxito dessa cooperativa, a ADEMISS se propôs a repetir o empreendimento em outras cinco comunidades. Com uma doação de US$275.600 concedida pela IAF em 2001, e com as melhores intenções, trabalhou com os residentes para lançar uma piscicultura, manejar os recursos de maneira responsável e restaurar o ecossistema lacustre. No entanto, na década seguinte, os pescadores foram postos à prova. Sua história de retrocessos, recuperação e espírito empreendedor sublinha os complexos desafios do desenvolvimento de base e a importância de permitir que os grupos de base descubram a forma de superá-los.

Desastres naturais e de outro tipo


Por dois anos, a ADEMISS trabalhou conforme previsto, e os resultados de seus esforços foram promissores. As comunidades estavam se organizando em cooperativas e conseguiram ampliar a produção e reduzir os custos criando alevinos em vez de comprá-los. Em março de 2004, o jornal salvadorenho El Diario de Hoy informou sobre o êxito dos piscicultores na criação comercial de tilápia em gaiolas flutuantes de seis por oito metros. Também destacou a importância da organização de piscicultores, produção e venda coletiva e o entusiasmo desse grupo por este novo fluxo de renda.

No entanto, El Salvador é um país perpetuamente vulnerável às forças da natureza. Como informou Desenvolvimento de Base em 2004, as inundações de 2003 causaram deslizamentos de terra que destruíram os três novos tanques que a ADEMISS havia construído para a criação de alevinos e alteraram drasticamente o terreno subjacente. Igualmente desastroso, a diretoria da ADEMISS sofreu alegações de fraude, o que paralisou todas suas atividades. Depois de reiterados esforços para ajudar a ADEMISS a resolver seus conflitos internos, a IAF retirou todo seu apoio em março de 2005. Segundo Wilfredo Mancía, agrônomo especializado em aquicultura que trabalha no lago Ilopango desde 2001, isso deixou as comunidades totalmente impossibilitadas de manter seu impulso. Segundo afirmou, “as organizações incipientes começaram a desmoronar quando algumas pessoas, desiludidas, saíram”.

Determinação da comunidade

Como espectadores do conflito interno da ONG, os piscicultores participantes se encontraram de repente sem meios administrativos e financeiros de trabalhar por suas metas. Segundo Mancía, “o fracasso da ADEMISS foi particularmente difícil porque os pescadores foram os mais diretamente afetados pelo conflito, mas não podiam fazer nada a respeito”. Sem fundos nem assessoramento para continuar, muitos pescadores se perguntavam se este empreendimento havia sido um erro. José de Jesús Cruz, da cooperativa La Bitinia, resumiu a situação dos grupos ao afirmar que “nos sentimos terrivelmente mal porque ficamos à toa”. Muitos membros abandonaram os grupos, o que levou à perda de peixes, graves problemas de vendas e dificuldades para conseguir os alevinos que eram vitais para uma empresa rentável. No entanto, mesmo sem a ADEMISS, os piscicultores mais dedicados — cerca de 50 moradores de Bitinia, Joya Grande, Palo Blanco e Playa El Pegadero — continuaram criando tilápia nas 20 gaiolas flutuantes construídas com fundos da IAF. Quatro dos cinco grupos formados sobreviveram. Operavam em escala limitada, mas a produção nunca cessou. Para abrir um mercado local, os grupos realizaram atividades de degustação em festivais e feiras e atraíram novos clientes, inclusive restaurantes e cafés. Logo, os produtores se deram conta de que juntos podiam reduzir custos e produzir o volume de peixe fresco necessário para ingressar no mercado de San Salvador. Os quatro grupos se estabeleceram formalmente como cooperativas até o fim de 2005, o que os aproximou daquela meta.

A firmeza, resistência e iniciativa das cooperativas não escaparam à atenção da IAF, como tampouco seu investimento coletivo de parte dos ganhos em mais gaiolas. Em reuniões com Kathryn Smith Pyle, representante da IAF para El Salvador naquela época, e Rolando Gutiérrez, empreiteiro salvadorenho que continua proporcionando serviços de ligação a possíveis solicitantes e donatários ativos, os piscicultores expressaram seu desejo de melhorar suas habilidades técnicas e de reconstruir e manejar os criadouros. Para isso necessitavam de apoio, mas não estavam prontos para solicitar uma doação à IAF, de maneira que Smith Pyle e Gutiérrez abordaram um donatário da IAF com sede nos arredores, a Asociación Cooperativa de Ahorro, Crédito y Agrícola Comunal de Paraíso de Osorio (COPADEO). Como resultado desta dinâmica iniciativa, em 2006 a IAF ampliou a doação à COPADEO em US$100.000 para financiar a capacitação em administração e contabilidade para os piscicultores e a assistência técnica prevista a princípio na proposta da ADEMISS, assim como os tanques de substituição, que foram construídos e equipados num novo local apropriado.

Empreendimento

Além da tilápia, as cooperativas agora produzem alevinos. Antes de instalar os criadouros, os piscicultores compravam alevinos de uma empresa especializada que os trazia em caminhões; muitas destas crias morriam durante o transporte ou quando eram colocadas em águas às quais não estavam aclimatadas. Nos novos tanques usa-se água bombeada do lago, de maneira que os alevinos estão mais bem adaptados a seu meio ambiente quando crescem e são trasladados para as gaiolas colocadas no lago. Isto melhorou e acelerou seu crescimento e reduziu a taxa de mortalidade de quase 50% para 5%. A vida dos piscicultores mudou. “Antes, eu nem sequer sabia lançar a rede e agora me sinto capaz de mostrar a outros o que aprendi”, disse José de Jesús Cruz. “Em casa costumávamos comer somente feijão e arroz, mas a tilápia melhorou nossa alimentação e a renda nos permite enviar os filhos à escola”.

A iniciativa criou empregos e aumentou a receita. Se bem que os sócios fazem turnos para cuidar dos criadouros, contratam trabalhadores para alimentar a tilápia em crescimento nas gaiolas flutuantes das cooperativas. Durante o primeiro ano de produção, os lucros mensais aumentaram de menos de US$500 para US$1.800. Isto permitiu que as cooperativas adquirissem outras 20 gaiolas, construíssem um muro de contenção contra os deslizamentos de terra e, mais tarde, ajudassem as escolas locais, demonstrando que as atividades de base podem promover a responsabilidade social em El Salvador. Em 2008, El Diario de Hoy informou de novo sobre o êxito do empreendimento, destacando que a introdução dos criadouros, os primeiros em Ilopango, beneficiou centenas de famílias. As cooperativas usaram fundos adicionais da IAF naquele ano, canalizados por meio da COPADEO, para eletrificação, um depósito e um tanque séptico.

Expansão


Os membros das cooperativas sabem que, para manter e expandir suas atividades, têm que se aproximar de outras entidades. Com esse fim, formaram um comitê de coordenação que se reúne para organizar atividades entre as quatro cooperativas e buscar parceiros. Um parceiro, o Centro de Desarrollo de la Pesca y la Acuicultura (CENDEPESCA), proporcionou assistência técnica, contatos, materiais e escritórios para as cooperativas. Segundo o Dr. Manuel Ramírez Luna, chefe da Unidade de Aquicultura do Ministério da Agricultura e Pecuária de El Salvador, as cooperativas manejam bem sua produção. “Este é um fato singular no país porque os produtores são donos da terra e dos tanques de alevinos e organizaram bem sua produção, administração e comercialização. Os principais desafios são manter sua organização, abrir mercados e adotar medidas de prevenção e controle de surtos de doenças da tilápia”, afirmou.

As melhores habilidades de organização e administração permitiram que as cooperativas obtivessem fundos de Pesca Artesanal Responsable (PESCAR), organismo do Governo de El Salvador, para melhorar o acesso ao mercado e ampliar a capacidade do comitê coordenador para manejar as operações dos tanques, os salários e as vendas. Em 2007, as cooperativas ampliaram sua rede para incluir famílias de outras partes do Lago Ilopango, ao aliar-se à Asociación Acuícola Lago de Ilopango (ASALI), composta por outras cooperativas e grupos comunitários. “Passamos de grupo comunitário a cooperativa; agora fazemos parte da ASALI e juntos produzimos mais”, afirma José Nelson García da cooperativa Palo Grande. A ASALI empregou a doação que recebeu da IAF em 2008 para pesquisar membros e moradores dos arredores do lago sobre suas prioridades e as dificuldades que representa a criação de peixes de uma forma responsável no lago. Compartilhou sua análise da água e aquicultura do lago com funcionários do governo, grupos da sociedade civil e a comunidade. A ASALI planeja instalar uma fábrica de ração de peixe para que os membros possam comprá-la a preço reduzido, o que aumentará seu lucro.

A implosão da ONG intermediária se converteu em uma oportunidade para as cooperativas de Ilopango. Quando estavam perto do colapso em 2004, se ajustaram ao novo contexto, o que é bom sinal de sua capacidade de adaptação. Empurradas para uma função que de outra maneira não haveriam buscado, as cooperativas assumiram a responsabilidade de desenvolver suas próprias comunidades. Se a ADEMISS não tivesse sido desagregada por conflitos internos, as cooperativas teriam demonstrado essa liderança e independência? O momento era excepcional. Em novembro de 2009, o furacão Ida inundou as comunidades pesqueiras de Ilopango, causando destruição generalizada e semanas de isolamento para alguns. As cooperativas limparam, voltaram a colocar e prender as gaiolas deslocadas pela tormenta e se uniram para retirar os dejetos deixados pelos deslizamentos de terra e as inundações. Dois comitês recentemente criados ajudarão as comunidades do lago a reagir com rapidez a futuras emergências e a mitigar os danos causados à produção de tilápia. Como constataram os visitantes de janeiro, estes engenhosos pescadores novamente confirmaram sua firmeza.

Seth Micah Jesse é representante da IAF para El Salvador.