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Cisternas, saneamento e progresso em Pesqueira de Amy Kirschenbaum e Sean Sprague

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O Centro Diocesano de Apoio ao Pequeno Produtor (CEDAPP), organização não governamental com raízes na igreja católica, trabalhou por 19 anos para mitigar a seca, melhorar o saneamento e diversificar a renda numa das áreas mais pobres do Nordeste brasileiro.

Agora, os resultados aparecem. O modo como a equipe do CEDAPP mudou o comportamento em 10 comunidades participantes do projeto financiado pela IAF perto da pequena cidade de Pesqueira, Estado de Pernambuco, poderia comover até o mais cético dos observadores. Depois de várias tentativas de captar a atenção dos moradores, o CEDAPP desenvolveu um currículo interativo, multimídia, para transmitir sua importante mensagem de manejo de recursos e participação cívica. Nos materiais confeccionados sob medida para as oficinas do CEDAPP, os nordestinos aprenderam a distinguir a água limpa da água contaminada como “água de vida” e “água de morte”, e agora podem determinar quando a água é somente adequada para os cultivos e o banho e quando serve para cozinhar e beber. Também sabem quanto tempo leva para que as substâncias se biodegradem: cinco anos para um cigarro, 100 anos para plásticos, 400 anos para metal e indefinidamente para a borracha. Para minimizar a contaminação, diz a coordenadora do projeto Maria Elisabete Pires, “ensinamos a jogar na água somente o que os peixes podem comer”.

A água obtida na breve estação chuvosa costumava durar somente um mês para os moradores de Pesqueira, o que afetava sua agricultura e bem-estar, especialmente a saúde infantil. Para introduzir cisternas, as comunidades estavam dispostas a contribuir com 30% do custo e os moradores a fornecer a mão de obra. As cisternas coletam suficiente água para oito meses ou mais entre as estações chuvosas. O armazenamento de água, segundo a assessora técnica Lourdes Viana Vinokur, ensinou aos moradores sobre economia, medidas de saúde e o valor de trabalhar juntos. Para as mulheres, que sempre tiveram que carregar a água para o lar, a cisterna representou uma drástica mudança de estilo de vida. “Uma delas me disse que a cisterna tinha sido sua liberação”, conta Lourdes.

Os vasos sanitários são ainda mais valorizados. “Quando consegui um, quis abraçá-lo, mas me conformei em acariciá-lo todos os dias,” diz Arlindo Eduardo da Silva, orgulhoso proprietário de um novo vaso sanitário. Antes que o CEDAPP interviesse, a maioria das 33 comunidades às quais atendia não tinha uma só casa com encanamento interno. Agora as crianças não querem convidar seus amigos para uma casa que não tenha pelo menos uma instalação de banheiro comunitário nas proximidades. Além da limpeza e conveniência, o banheiro em casa ou nas proximidades contribui para a segurança pessoal, de acordo com Arlindo, que já não se preocupa por suas filhas como fazia quando a família tinha que recorrer ao campo aberto. O CEDAPP começou instalando “banheiros básicos”, mas em alguns lugares a falta de água corrente era um obstáculo enorme para utilizar sanitários tradicionais. Quando representantes do CEDAPP se reuniram para conversar sobre comércio justo com colegas de outro donatário da IAF, o Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (CEPAGRO), surgiu o tema dos banheiros, especificamente os “banheiros secos” que usam menos água que os “básicos” e, além disso, geram adubo.

Desde então o CEDAPP instalou 85 “banheiros secos” em várias comunidades, embora no início os moradores tivessem suas reservas. “As pessoas temiam o mau cheiro e não compreendiam como funcionavam sem água ”, explica Suely Rodrigues, vice-presidente de uma associação de produtores locais, no Jornal do Commercio, de Recife. “Eu mesma gostaria de ter o meu”. Os banheiros secos vêm equipados com um cano fino e alto como os usados nas fossas domésticas, que elimina o odor inconveniente. Cinzas, serragem ou cal são utilizados para secar as fezes, que depois podem ser transformadas em adubo. O CEDAPP prevê um efeito multiplicador, pois grupos em todo o Nordeste, incluindo o órgão do governo federal ProRural, que proporciona apoio aos agricultores, querem saber mais sobre a inovação.

Junto com o acesso a água limpa e serviços sanitários o ano todo, o CEDAPP faz os moradores participarem de várias atividades para aumentar a renda. Aproveitando as inclinações, vocações e tradições próprias e a localização de cada comunidade, bem como a geografia, o CEDAPP ajuda os moradores a trabalharem juntos em cooperativas que produzem o que lhes é mais apropriado em termos de suas habilidades e recursos. Os membros se capacitaram em administração e organização e aprendem a otimizar os atrativos para o consumidor mediante apresentação, embalagem e preços apropriados das mercadorias, que abrangem desde renda e couro até mel, lacticínios e polpa de fruta para sucos. Graças à assistência agrícola do CEDAPP, mais alimentos das fazendas locais estão disponíveis, e a menor preço que os que costumavam ser trazidos de longe. O consequente aumento da renda disponível reduziu a migração para as cidades. Os jovens preferem ficar próximos de suas famílias e vizinhos; estão dispostos a trabalhar a terra se assim podem ganhar a vida.

Os moradores se orgulham destas comunidades e participam agora ativamente em seus conselhos municipais. Inclusive as crianças demonstram um sentido de compromisso e responsabilidade — sua frequência escolar está melhor que nunca. Ainda que continuem enfrentando numerosos desafios, estes nordestinos, trabalhando com o CEDAPP, resolveram alguns de seus problemas mais prementes. O padre Bartholomeo Bergese, sacerdote italiano que ajudou a fundar o CEDAPP e atua como diretor, não poderia ter dito melhor: “O que eles fazem são verdadeiros milagres”. Para obter mais informações, visite cedapp.org.

Amy Kirschenbaum é representante da IAF para o Brasil. Sean Sprague é um fotógrafo profissional galês.