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Chet Thomas: em Honduras por um bom tempo de Patrick Breslin

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A atividade do desenvolvimento internacional sofre de algum desarranjo de déficit de atenção. Sua capacidade de concentração é curta — projetos de dois ou de três anos estão são a norma, praticamente sacrossanta. Geralmente não ouve muito seus supostos beneficiários. Impulsivamente muda de direção, passando de uma panaceia a outra.

Como antídoto, consideremos a vida e o trabalho de Chester (Chet) Thomas, um expatriado dos Estados Unidos de fala suave, cabelo branco, mas ainda com aspecto angelical, que fundou o Projeto Aldea Global (PAG), em Honduras em 1983 e que o vem dirigindo desde então. O PAG trabalha com milhares de famílias em vastas áreas e seus projetos estão entre os esforços de base mais ambiciosos e bem-sucedidos. Mas sua receita para o êxito desafiaria a maioria dos doadores. Em palavras simples, o cronograma do PAG ultrapassa amplamente o limite dos três anos. “Em dois ou três anos, a gente está apenas se aquecendo, apenas está começando”, explica Thomas. “Se falarmos de mudança, precisamos de muito tempo. Se não se assume um compromisso mínimo de oito anos, não é sério”.

O compromisso do próprio Thomas com Honduras começou ao chegar lá em 1974, depois do furacão Fifi, para coordenar os esforços de ajuda do National Council of Churches, entidade sediada nos Estados Unidos. Como muitos organizadores comunitários, assessores técnicos e peritos em desenvolvimento, ele era um estrangeiro no lugar onde trabalhava. Independentemente das boas intenções e do desejo de fechar hiatos, um pedaço de papel geralmente separa os estrangeiros das pessoas a quem querem ajudar — a passagem de avião que lhes permite ir para bem longe da pobreza a qualquer momento. Chet Thomas decidiu ficar. Seu perfil em Desenvolvimento de Base é um entre uma série que investiga as experiências que deram forma a líderes de base bem-sucedidos na América Latina e as visões provenientes dessas experiências.

A história de Thomas começa no sudoeste do estado da Pennsylvania, nas colinas do condado de Somerset, então uma área agrícola e carbonífera, onde nasceu em 1944. A família de seu pai era de origem alemã e seu avô tinha uma fazenda autossuficiente em um lugar chamado Gobbler’s Hollow. “Na fazenda havia uma serraria que funcionava com um motor a vapor, o primeiro nessa área”, recorda Thomas. “Todas as crianças trabalhavam. Aravam as encostas com cavalos, plantavam cereais, vendiam verduras e criavam porcos e vacas para o seu consumo. Quando chegava a primavera, faziam xarope de bordo, pelo menos 189 litros por ano, que era tudo o que necessitavam para adoçar sua comida. Havia veados, perus e ursos nos bosques. Os vizinhos se ajudavam mutuamente, seja construindo celeiros ou colhendo cultivos. Eram boa gente, com bons valores de trabalho e ética. Um lugar fabuloso”.

Na escola, conta Thomas, “havia crianças de muitas origens étnicas: italianos, poloneses, russos, pessoas de todos os países eslavos, a maior parte delas de famílias mineiras. Havia todo tipo de festivais culturais. Assim cheguei a apreciar a riqueza que continham”. Sua própria família criava perus. “Eu tinha muita experiência com aves de curral. Para o Dia de Ação de Graças e Natal abatíamos 5.000 perus. Sempre me lembro como as suas asas batiam em nosso rosto. Tirávamos as penas e os limpávamos no frio rigoroso e na neve e depois os entregávamos aos clientes de meu pai. Meus irmãos e eu quase tínhamos medo do Dia de Ação de Graças e do Natal”. Mas a fazenda de Thomas, como outras fazendas de propriedade familiar em todos os Estados Unidos, foram suplantadas quando os mercados recorreram a produtores maiores que ofereciam preços mais baixos. O pai de Thomas encontrou trabalho com programas estaduais para ampliar a pavimentação das estradas em áreas de cultivo e, em seguida, foi supervisor do condado em manutenção de estradas. As estradas para os agricultores transformaram-se em um tema recorrente na carreira de Chet Thomas na área do desenvolvimento.

Depois do ensino médio, Thomas transportou carvão para seus vizinhos no caminhão de seu pai e depois trabalhou em supermercados. Ir à universidade lhe pareceu uma melhor ideia e começou a frequentar a Universidade de Pittsburgh. No início da década de 1960, recrutadores do Corpo da Paz do Presidente John Kennedy visitaram as universidades e Thomas sentiu-se atraído. “Eu queria fazer algo um pouco mais substancial”, explicou. “Eu via a situação de muitas pessoas e percebia que não iam a parte alguma e eu não queria isso. Penso que era também uma resposta à minha educação religiosa, porque eu provinha da Igreja dos Irmãos, pessoas muito dedicadas a servir os outros”. Os primeiros voluntários do Corpo da Paz eram tipicamente formados em Artes Liberais que entravam em contato com as ferramentas agrícolas pela primeira vez durante o treinamento. Seus antecedentes em agricultura e sua experiência de trabalho diversificada tornavam Thomas o jovem americano apto que o Corpo da Paz estava procurando e foi assim designado a uma área rural de Antioquia, Colômbia.

“Eu queria fazer algo significativo”, recorda. “Ajudava alguns fazendeiros a melhorar a criação de galinhas com a raça Rhode Island Reds e percebi que havia escassez de ovos na cidade. Comecei então um projeto com um residente local e mil pintinhos. Chegamos a ter 20.000 frangos. Esse município era um bom lugar para eles. As galinhas precisam de noites frescas e bom alimento. Formamos uma associação de criadores para comercializar ovos. De manhã o caminhão leiteiro recolhia os ovos ao lado da estrada e os entregava a um posto de vendas em Medellín; e jovens de bicicleta os distribuíam aos clientes. Pela tarde, um ônibus recolhia alimento para as galinhas e qualquer outra coisa de que os fazendeiros necessitassem e entregava ao lado da estrada, perto das casas. Compramos congeladores para podermos vender a carne para sopa depois que as galinhas paravam de pôr ovos”. O sistema de comercialização funcionou como um relógio; os funcionários do Corpo da Paz consideraram o projeto como um modelo. Mas os fazendeiros não gostaram e Thomas aprendeu sua primeira lição sobre promoção do desenvolvimento: “Eles mesmos queriam vender os ovos. Na realidade queriam ir à cidade, receber seu dinheiro e divertir-se. Depois que eu saí, o projeto continuou, mas deixaram de usar o posto de vendas”.

Thomas prolongou seu serviço por um ano para trabalhar em Manizales ajudando cultivadores a deixar de depender do café mediante a introdução do cacau, outro projeto que deu bons resultados. Também trabalhou em um povoado ao norte de Caldas, conhecido por tecer chapéus do Panamá de qualidade e os invólucros de fibra para o famoso Rum de Caldas. Ali aprendeu outra lição. “Esta comunidade era realmente pobre e as pessoas ganhavam um dólar por dia”, explicou. “Um dólar por dia?” perguntei. “Vamos organizar essas pessoas e exigir cinco dólares por dia”. Tentamos e isso criou sérios problemas. E então um colombiano que trabalhava em desenvolvimento cooperativo disse: “Olhe, esta gente está ganhando um dólar por dia. Sabemos que não é suficiente para viver, mas é um trabalho. Agora estamos tentando criar emprego, não um alto nível de renda. Depois que conseguirmos que todos estejam trabalhando, então podemos organizá-los e exigir um salário melhor; mas não balance o barco neste momento”. Isso ficou comigo durante anos. Quando alguém não tem trabalho, está desesperado e sem encontrar saída, perde o sentido da dignidade. Mesmo se estiver trabalhando e ganhando um dólar por dia, pelo menos está fazendo algo com as mãos, está ocupado e tem algo a que aspirar em termos de uma vida melhor”.

Quando concluiu seu terceiro ano, o Corpo da Paz ofereceu a Thomas um trabalho de instrutor para novos voluntários em Escondido, Califórnia. Enquanto estava lá, encontrou um de seus primos, um famoso malabarista de circo. Em breve Thomas estava dando aulas a crianças de uma troupe viajante e sua casa rolante era um caminhão de sorvete adaptado. Depois frequentou a universidade de Pittsburgh para estudar desenvolvimento social e econômico latino-americano. Sua tese de mestrado em assuntos públicos e internacionais foi sobre “caminhos rurais de penetração” na Colômbia e o benefício social de construí-los com trabalho manual em vez de utilizar maquinaria de alto preço. Depois da pós-graduação ingressou em um programa para jovens profissionais no Banco Mundial. “Trabalhava em um pequeno cubículo rodeado de centenas de outras pessoas em outros pequenos cubículos”, recordou. “Eu me perguntei: o que estou fazendo aqui?” Estava perdendo a minha personalidade. Um amigo colombiano me disse para sair”.

Em breve Thomas estava de volta à Califórnia, promovendo o Grande Circo de John Strong, ao longo da costa central, até o Vale de San Joaquín. Isso o levou a uma carreira de produtor de eventos musicais de alto nível e de circos, em Chicago, desdobrando-se também como publicista e agente imobiliário à frente da própria empresa. “Estava ganhando dinheiro”, disse ele, “mas realmente eu não gostava muito do que fazia. E então, quando menos esperava, recebi um telefonema do National Council of Churches. Alguém tinha sugerido o meu nome e o Conselho queria saber se eu poderia ir a Honduras para assumir a direção do trabalho de ajuda que estavam organizando após o furacão Fifi. Quando viajei de avião a San Pedro Sula, o Vale de Sula ainda estava embaixo d’água. As pessoas estavam vivendo nos diques. Eu tinha 28 anos. Pensei que era chegada a hora de mudar de vida. Voltei a Chicago, vendi minha empresa, coloquei meus móveis em um depósito e me mudei para Honduras”.

Nos anos seguintes, Thomas trabalhou em programas que proporcionavam habitação, sistemas de água e novos poços e que ajudaram a reiniciar a agricultura. Seu compromisso aumentou. “Eu me sentia como em casa. Fiz muitos amigos”, disse. “Também pensei que este era um país com potencial para superar a pobreza. Dispunha de muitos recursos naturais e se todos tivessem acesso a eles haveria uma diferença importante. E pensei: “para eu fazer algo significativo, tenho que permanecer em um lugar durante um longo período”. Com a intenção de criar gado, comprou 323 hectares. A lei hondurenha exigia que limpasse o terreno em quatro meses. Como não pôde fazê-lo, o órgão de reforma agrária lhe tirou 121 hectares. Não obstante, o compromisso de Thomas com Honduras, sobreviveu.

Então ocorreu o terremoto na Guatemala e o Church World Services enviou Thomas para gerenciar ali as atividades de assistência. Nos anos seguintes, sua conexão com Honduras limitou-se a viagens, mais ou menos todo mês, para supervisionar sua propriedade agrícola e em cada ocasião ele se sentia como se estivesse em casa. Enquanto isso, o trabalho na Guatemala tornava-se mais exigente; em 1979 Thomas estava esgotado. Ele se recorda que, quando o Church World Services lhe pediu que trabalhasse na República Dominicana, ele respondeu: “Não, eu estou comprometido com Honduras”. Basicamente, eu creio neste país e tudo o que tem tanto de bom como de ruim”. Decidir permanecer definitivamente significou outra mudança de vida. Thomas tinha dado voltas pelos Estados Unidos e pela América Latina durante duas décadas. Agora ele se propunha fixar-se, criar raízes. “Não posso voltar para casa novamente” é a amarga conclusão americana, destilada da agitação, da movimentação e da mudança constantes em nome do progresso. A fazenda de seu avô, que Thomas recorda com carinho desde a sua infância, se tinha transformado em uma subdivisão de casas.

Seu trabalho para o Serviço Voluntário Internacional, assessorando grupos hondurenhos na realização de projetos comunitários de saúde, criação de cooperativas, introdução da tecnologia apropriada e abertura de poços e sistemas de água por gravidade, levou Thomas a fundar sua própria organização de desenvolvimento. Chamou-a de Projeto Aldeia Global porque, afirmou, “agora todos vivemos em uma aldeia global”. Ao final vendeu sua propriedade agrícola — exigia demasiada atenção para coexistir com seu trabalho de desenvolvimento. Ele e a esposa hondurenha, professora bilíngue, casados há mais de 20 anos, criaram cinco filhos e agora vivem em uma pequena cidade nos arredores de Tegucigalpa. Hoje, o PAG tem cerca de 160 funcionários. Trabalha em dois escritórios em Tegucigalpa, um que atende aos bairros pobres com programas que ajudam os jovens a permanecer fora das quadrilhas e cinco escritórios regionais. O PAG atinge 400 comunidades em 30 dos 270 municípios hondurenhos. Além de seu trabalho na zona rural, administra um programa de bolsas de estudos financiado por um benfeitor em Chicago e o programa Deborah que oferece serviços jurídicos a mulheres de baixa renda. Apesar do alcance do PAG, seu orçamento varia de US$2 milhões a US$ 2,5 milhões — não muito grande, na opinião de Thomas.

Mas o PAG empreende projetos grandes, inclusive um em Cerro Azul Meambar, um grande parque nacional de Honduras e fonte de um quinto do volume de água que flui para o reservatório atrás de El Cajón, a maior represa hidroelétrica de Honduras que gera mais de 80% da eletricidade do país. Há cerca de 20 anos, o Governo hondurenho preocupava-se com a deterioração do meio ambiente no parque. A erosão, causada em parte pelo desmatamento irrestrito das florestas, ameaçava inevitavelmente o reservatório. Em 1992, o Departamento de Silvicultura do governo pediu ao PAG que administrasse o parque e protegesse a bacia. O PAG tinha trabalhado com comunidades na área e tinha a credibilidade necessária para convencer os moradores a respeito de um novo enfoque que ressaltava a responsabilidade ambiental e a engenhosidade para formular um plano para tornar viável esse enfoque em termos de desenvolvimento econômico.

O Cerro Azul é uma reserva da biosfera onde o uso da terra está sujeito a restrições. Não se permite a habitação humana na zona núcleo, a saber, nas elevações mais altas que atingem 2.047 metros, nem na área designada para “uso especial”. A exploração de recursos também é proibida na zona núcleo e muito limitada na zona especial; é permitida, mas está regulamentada, na zona tampão, onde aproximadamente 20.000 pessoas, principalmente famílias agricultoras, vivem em cerca de 40 comunidades. A entrada para o parque está a poucos quilômetros da rodovia principal do país que liga Tegucigalpa e San Pedro Sula. O pessoal do PAG estava ciente de que as atrações e a localização privilegiada da reserva poderiam atrair visitantes, gerando emprego e renda. Compreendiam também que os moradores das comunidades da zona tampão, ao perceberem que seu sustento está vinculado à preservação do ecossistema, seriam os melhores guardiães da reserva.

Com apoio da IAF, o PAG capacitou os residentes da zona tampão como guardas florestais e guias e incentivou a conscientização ambiental. Posteriormente abriu um restaurante de grandes dimensões na rodovia, criando mais empregos e postos de venda para produtos agrícolas e artesanato. Maiores oportunidades de emprego resultaram dos programas de reflorestamento, supridos com as mudas de sementeiras das árvores desenvolvidas na reserva e pela abertura e manutenção de quilômetros de trilhas que permitem aos visitantes apreciar paisagens idílicas das cascatas que caem de paredes cobertas de vegetação tropical a piscinas naturais rodeadas de penhascos irregulares. Los Pinos, um centro ambiental dentro da reserva, oferece alojamento com cama e café da manhã a turistas que em número crescente vêm dos Estados Unidos e da Europa. Foi recentemente instalado um centro onde estudantes universitários pesquisam a vida animal e vegetal do parque.

Outras iniciativas do PAG na reserva focaram métodos de cultivo que aumentaram a produção e eram compatíveis com o uso responsável do meio ambiente. Incentivou-se de modo especial a produção de frutas e foi criada uma planta para seu processamento. Os caminhos agora conectam as comunidades e facilitam o transporte de bens ao mercado. Como o imenso reservatório de El Cajón separava várias comunidades, o PAG, usando materiais doados, construiu duas balsas engenhosamente desenhadas. Os trabalhadores ataram 24 grandes tanques vazios de gás propano a uma estrutura de aço como viga e transformaram uma atadora de feno, uma máquina agrícola comum, em uma unidade de propulsão ligada a um sistema hidráulico que faz girar duas grandes rodas de paletas, montadas de cada lado. Cada balsa assemelha-se a uma versão gigante de uma balsa fabricada por crianças, mas transporta sem problemas veículos e pessoas e permanece estável mesmo nas violentas tempestades que às vezes explodem no reservatório. Em 2008, o órgão nacional de silvicultura qualificou Cerro Azul Meambar como o segundo parque mais bem administrado de Honduras, entre 32 áreas protegidas, e assinou com o PAG seu quarto acordo consecutivo de administração quinquenal.

Outros grandes projetos do PAG são seu trabalho em Belén Gualcho, um município nas montanhas Celaque, que se elevam a 2.700 metros sobre o nível do mar, o qual Thomas viu pela primeira vez em 1974 quando cavalgava durante seu trabalho de socorro. Na grande maioria a população é formada por indígenas lenca, classificados como as pessoas mais pobres e mais isoladas de Honduras. “Quando fui lá pela primeira vez, para todos os demais o povo local era mão de obra migrante”, disse Thomas. “Somente conseguiam uma colheita de milho por ano; tinham que procurar trabalho para se alimentar. Pensei que eu gostaria de ver os mais débeis ganharem de vez em quando”. Anos mais tarde, voltou com o PAG. “Começamos com a conservação e melhoria do solo; mais tarde, cuidados da saúde e alfabetização”, continuou. “Acrescentamos componentes à medida que avançávamos. Um dia, encontramos alguns velhos pés de pêssego, com frutas minúsculas e duras. E pensamos: “Se estes podem crescer, nós poderíamos conseguir outros pêssegos. E se os pêssegos puderem crescer, as maçãs também poderão”. Compramos 1.500 pés de maçã da Flórida para experimentar. Três anos mais tarde, começaram a produzir fruta. “Caramba”, pensei, “isso poderia ser um negócio”. A IAF nos deu a primeira ajuda verdadeira. Os pêssegos foram mais problemáticos. Tentamos diversas espécies, mas nenhuma funcionou até que injetamos um broto em uma raiz local. E bum! Vingou”.

Parte dos fundos da IAF destinava-se a financiar a plantação de 50.000 macieiras, mas o projeto superou este objetivo e em apenas alguns anos 250.000 árvores cobriram as encostas e os vales. Trabalhando com a Asosciación de Productores de Celaque (APROCEL) que ajudou a criar, o PAG construiu centros de embalagem em diversas comunidades; armazenagem fria e plantas de processamento para produzir suco, cidra e geleias; uma rede de estradas para transportar os produtos; e um centro de distribuição na Rodovia Pan-Americana, que une Honduras a El Salvador e à Guatemala. Os cultivadores sofreram um golpe devastador, em 1998, quando o furacão Mitch destroçou hortas e estradas. O PAG ajudou muitos a replantar e a produção voltou a ser de várias centenas de toneladas de ambas as frutas por ano, porém ainda abaixo do que se esperava. Usando seu próprio equipamento pesado, o PAG também reconstruiu em sete meses 120 quilômetros de estradas das propriedades agrícolas ao mercado para os agricultores poderem novamente fazer suas frutas chegarem aos intermediários para serem vendidas em San Pedro Sula e povoados rurais da região oeste de Honduras.

A experiência convenceu o PAG de evitar a dependência de um único cultivo comercial. A infraestrutura de armazenagem e distribuição já instalada e a aquisição de três grandes caminhões refrigeradores permitiram passar à produção de verduras em grande escala. Essa mudança requereu outro importante esforço de infraestrutura: um extenso sistema de irrigação, concluído em 2009, que utiliza a água das montanhas. Com a mão de obra fornecida pelos residentes locais, o PAG construiu três grandes represas e 11 tanques de água comunitários e instalou 89 quilômetros de linhas principais de irrigação, mais de 25% delas com canos de seis polegadas de diâmetro, além de linhas de distribuição e linhas de irrigação por gotejamento que chegam aos cultivos. (O PAG continua estendendo as linhas de distribuição e gotejamento a outros agricultores.) O sistema ajustado do PAG requer que cada agricultor plante por semana uma média de um oitavo de um hectare com novos cultivos de legumes por semana e colha um oitavo de hectare. Um computador faz o acompanhamento de quanto será colhido por semana e onde, dados que capacitam a APROCEL a comercializar o produto sem inconvenientes. No futuro, segundo o PAG prevê, cerca de 600 agricultores terão pelo menos um meio hectare plantado com verduras. “Algumas das primeiras propriedades agrícolas estão recebendo agora até US$1.000 por mês”, disse Thomas este ano. “Somente neste último mês vendemos mais de 66 toneladas de verduras a 10 compradores de todo o país, inclusive à Wal-Mart e à cadeia de supermercados La Colonia. No futuro esta zona será um fornecedor importante de alimentos a El Salvador. Já começamos a exportar alface para lá e também para a Guatemala”.

Apesar do compromisso do PAG de longo prazo com as comunidades onde trabalha, seu pessoal procura ter em mente o dia da partida. “Realmente procuramos concentrar-nos neste aspecto nos últimos 15 anos: planejar como vamos sair antes de entrar”, disse Thomas. “Vamos procurar de alguma forma fazer o projeto se manter por si só em algum momento. Talvez não seja exatamente o tempo que calculamos, porque não podemos conhecer todas as variáveis. Mas a certa altura queremos ver um projeto totalmente sustentável”.

Em Belén Gualcho, o sistema de irrigação deve continuar a apoiar a APROCEL muito depois de que o PAG sair. Antes que o PAG comece a trabalhar nele, cada agricultor que se beneficiaria do sistema aceitou pagar um honorário mensal de US$7 por cada tarefa (unidade que mede 629 metros quadrados) irrigada. Com um mínimo de 500 agricultores com uma média de 0,2 hectare de verduras (alguns já têm 2,3 hectares em produção), isto significa US$17.500 em honorários de usuários pagos mensalmente à APROCEL, que espera assumir o controle completo do projeto em três anos. A arrecadação financia crédito, assistência técnica e serviços de comercialização. Por sua natureza, alguns projetos não podem ser autossuficientes. O programa de serviços jurídicos, ao qual se fez referência anteriormente, foi financiado inicialmente pelo American Jewish World Service. Mas o PAG negociou com os municípios e os convenceu a contribuírem com espaço e serviços de utilidade pública. “Durante algum tempo continuamos a pagar os salários dos assistentes jurídicos”, disse Thomas. “Mas agora convencemos os governos municipais a incluírem esse custo nos respectivos orçamentos”.

Mais além da meta da institucionalização dos projetos está a questão do próprio futuro do PAG quando em algum momento Thomas renunciar. Muitas realizações importantes se têm baseado na sua capacidade de conectar-se com redes da igreja nos Estados Unidos para conseguir financiamento e em seu extraordinário sentido de saber onde pode haver uma carga de madeira para construção ou veículos velhos e maquinaria à espera de serem doados. “Sei que todos estes meus contatos pessoais tornam mais difícil a tarefa de quem vier depois de mim”, admitiu. “Mas estou empenhando em preparar gente que possa trabalhar quando eu sair”. Essa preparação inclui bolsas de estudo universitárias e o trabalho do próprio Thomas como mentor. Ele já se comprometeu a dedicar mais quatro anos no timão para dar tempo para uma transição sem complicações.

Quem quer que assuma a direção, assumirá o controle de uma organização formada pelas experiências de Chet Thomas, desde sua infância rural na zona oeste da Pennsylvania. Em toda a sua vida, Thomas tem pensado grande, sem esquecer os duros detalhes da vida rural. Os projetos do PAG comparam-se em alcance e ambição com os das organizações de desenvolvimento que trabalham em grande escala. Visam a transformar regiões inteiras. Apenas reconhecem que isso leva muito tempo.

O desenvolvimento de base geralmente é considerado como um enfoque limitado em virtude das quantidades reduzidas de dinheiro investido para impacto limitado, com a esperança de que resulte em certa melhoria na vida das pessoas de uma comunidade. Não é levado tão seriamente como os projetos multimilionários empreendidos pelo Banco Mundial ou pela USAID, aos quais se destina a maior parte do financiamento da ajuda para o desenvolvimento. Os projetos do PAG mostram o potencial do enfoque de base se aplicado de forma estratégica e paciente. Também fazem uma pergunta: por que as entidades de financiamento, incluindo a Fundação Interamericana, não se comprometem igualmente no longo prazo? Para seu crédito, a IAF tem financiado o PAG em diversas ocasiões durante os últimos 20 anos. Mas tende a ver cada decisão de financiamento como discreta e limitada ao projeto proposto. Somente em algumas situações a IAF apoiou um processo de desenvolvimento específico de longo prazo, geralmente porque um Representante da Fundação entendeu a visão estratégica de uma organização ou de um movimento. Pode ser que a IAF seja demasiado propensa a fazer um jogo “amador” em contraposição às equipes profissionais. Pode ser que o prazo de três anos para um projeto, tão comum na IAF como em qualquer outro lugar no âmbito do desenvolvimento, vá contra o apoio a uma visão estratégica nascida da participação no nível de base.

O trabalho de Chet Thomas demonstra o princípio-chave do enfoque de base: que o verdadeiro desenvolvimento começa com encontros pessoais entre indivíduos. “Gostaríamos de ver cada agricultor produzir todo o alimento que precisa para si mesmo, mais um cultivo comercial para o mercado”, enfatizou. Para conseguir isso, os agentes do PAG sentam-se com o agricultor e lhe dão um pedaço de papel. Pedem que desenhe sua casa e as terras de sua propriedade agrícola. “Fizemos isso centenas de vezes”, disse Thomas ao explicar o exercício. “Dizemos, ‘Bem, aqui colocamos os cereais básicos, o milho e o feijão. Nesta outra parte, pomos os cultivos comerciais, uma horta permanente — maçãs, pêssego, manga, abacate, cacau — o que ali vingar bem. Falamos com a mulher: ‘Bem, a senhora quer alimento disponível para alimentar a sua família, como mandioca e batata-doce, frutas, árvores cítricas, abacate, árvores de especiarias, especialmente muitas bananas’. Então nós os colocamos no desenho. E em seguida as outras áreas onde podemos colocar tanques de peixes, cabras, galinhas, porcos. Em um instante todo o papel está cheio. Não se faz tudo de uma única vez. Os agricultores não podem assumir um risco grande. Mas lhes dizemos, ‘Vamos assumir um pequeno risco. E se o senhor conseguir bons resultados, então poderemos fazer outras coisas aqui’”.

O PAG chama o resultado deste planejamento de baixo para cima a “propriedade agrícola melhorada” e se parece muito com aquela propriedade de que Thomas se lembra com carinho em Gobbler’s Hollow; só faltam a neve e o xarope de bordo.

Patrick Breslin, ex-Vice-Presidente da IAF de Assuntos Exteriores, aposentou-se da IAF depois de 22 anos de trabalho. Pode ser contatado em patbreslin@yahoo.com.