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Bolsas da IAF: Uma rede de esperança de Luis Fujiwara

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Como bolsista da Fundação Interamericana de julho de 2008 a abril de 2009, vivi em Dias d’Ávila, uma pequena cidade nos arredores da zona metropolitana de Salvador, no Estado da Bahia, onde carroças puxadas por cavalos ainda transportam alimentos, ladrilhos, areia, cimento e passageiros. A maioria de seus 57.000 habitantes luta com a mesma falta de serviços de eletricidade, abastecimento de água e saneamento que aflige os brasileiros do setor rural, assim como com os problemas urbanos contemporâneos relacionados com as drogas, a delinquência, o desemprego sufocante e a violência que atinge os jovens.

Numa tarde quente do fim de novembro de 2008, enquanto redigia minhas entrevistas e observações, ouvi que batiam à porta. Ao responder, vi quatro crianças com baldes improvisados, inclusive uma menina de 5 anos que era a menor e que levava uma lata de um litro sobre a cabeça. O mais velho do grupo explicou que eram irmãos e buscavam água. Falou sem o menor indício de preocupação ou raiva na voz. De fato, as quatro crianças agiam como se o fato de ir de porta em porta pedindo água fosse a coisa mais natural do mundo. Eu me senti incomodado, mas depois pensei em minha própria dificuldade para obter água. Meu bairro em Dias d’Ávila era abastecido por uma tubulação velha e danificada, em sua maior parte por meio de “gatos”; a água chegava só dois ou três dias por semana, habitualmente com um jorro fino. Ajudei as crianças na tarefa e, uma vez cheios os baldes, se despediram e seguiram felizes seu caminho. Mais tarde, conheci a mãe deles, que me disse que simplesmente necessitavam de água suficiente para beber, cozinhar e, de vez em quando, tomar banho. Eu vivia em meio a famílias como estas, mas, até baterem à minha porta, não me havia ocorrido como a vida era difícil para elas. Experiências impactantes como esta mudam nossa vida e nossas crenças de uma forma inesperada.

O tema de minha pesquisa para a tese que defenderia como aspirante ao doutorado na Universidade do Texas em Austin era a eficácia dos serviços de saúde para as mães e as crianças, inclusive a vigilância apropriada da gravidez e do desenvolvimento infantil, oferecido pela Pastoral da Criança, um programa religioso ecumênico. A Pastoral emprega uma estratégia lançada de forma pioneira pela igreja católica e seu método de trabalho incorpora as quatro prioridades “GOBI” estabelecidas pelo UNICEF no começo da década de 1980: vigilância do crescimento, terapia de reidratarão oral para combater a diarreia, promoção da lactância materna e imunização infantil. Os elementos complementares incluem voluntariado, programas orientados para questões de gênero, ativismo coletivo, microcrédito, geração de emprego e um sistema de monitoramento e comunicação que promove a responsabilização e a rápida identificação de epidemias.

A Pastoral, que ajuda os brasileiros extremamente pobres, já salvou a vida de milhares de crianças. Suas atividades começaram em 1983 com um trabalho piloto em Florestópolis na região rural do sul do Brasil. Em um ano, a taxa de mortalidade infantil nas comunidades participantes havia diminuído 77%. A Pastoral se estende agora a mais de 70% dos municípios do Brasil; a cada mês, cerca de dois milhões de crianças e 100.000 mulheres grávidas recebem tratamento por meio dessa rede. Seu método, adotado pelo governo do Brasil, é aplicado em 20 países em desenvolvimento. Eu podia ver a necessidade de atenção primária à saúde das crianças e das mulheres grávidas quase em todos os lugares que visitei no Brasil, mas mais ostensivamente na Bahia, onde a pobreza e a desigualdade são tão generalizadas. Ao observar o programa da Pastoral em funcionamento, tive uma imagem clara do poder do desenvolvimento de baixo para cima. O programa é simples, eficaz em função do custo, de amplo alcance e participativo, dada a importância e o impacto dos voluntários e a ênfase na autonomia, desenvolvimento e organização de suas comunidades.

Minha pesquisa incluiu 30 entrevistas com mães e jovens grávidas nas comunidades com serviços e apoio da Pastoral e sem eles. Os moradores das áreas onde a Pastoral trabalhava pareciam estar mais bem informados e ter mais esperança. As comunidades da Pastoral também pareciam estar mais organizadas na busca de atenção para suas necessidades, inclusive junto ao governo municipal; participavam em mais atividades coletivas; e seus líderes assumiam uma função mais ativa na política local. É interessante assinalar que uma mãe jovem, como a população local, achava que eu era “estrangeiro”. Sou brasileiro, mas logo entendi a distância criada pela condição social e econômica e a falta de oportunidades. A jovem também me disse que eu trazia esperança de melhores dias no futuro porque ninguém de um lugar tão distante para ela e para seus vizinhos, como Texas, havia demonstrado jamais um interesse tão profundo na vida e bem-estar da sua comunidade.

Há pouco tempo, soube que a Dra. Zilda Arns, a pediatra que fundou a Pastoral e que foi sua coordenadora internacional, morreu em 12 de janeiro no terremoto que destruiu a maior parte do Haiti. Estava lá numa missão humanitária para promover os serviços da Pastoral para as crianças e os idosos. Sua morte foi chorada no Brasil e em todo o mundo; o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os candidatos presidenciais Dilma Roussef e José Serra assistiram ao seu funeral. A Dra. Arns me disse uma vez que a Pastoral não consistia em prestar atenção primária à saúde, mas era, sobretudo, uma rede para permitir que as comunidades cuidassem de si mesmas. A perda da Dra. Arns foi um choque para mim, mas logo me lembrei da época que havia passado como testemunha dos resultados de seu trabalho e da esperança que ela abrigava para essas comunidades.

A realidade diária das regiões em desenvolvimento é mais rica que as teorias acadêmicas e oferece enormes oportunidades de aprendizado. No futuro talvez eu não recorde todos os detalhes de minha experiência em Dias d’Ávila, mas o sorriso no rosto dessas crianças que levavam os baldes cheios de água me acompanhará sempre; é uma pegada social que me recorda que o desenvolvimento se refere às pessoas e que para elas o mais importante é ser tratadas como seres humanos.

Luis Fujiwara trabalha para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no Brasil. A defesa de sua tese de doutorado está programada para o verão de 2010.