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Bolsas da IAF: Mobilização da comunidade de surdos no Uruguai de Elizabeth M. Lockwood

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Na América Latina e no Caribe, mais de 50 milhões de pessoas (15% da população) têm deficiências. Oitenta por cento dessas pessoas são pobres, desempregadas e socialmente excluídas (Astorga, 2009; Banco Interamericano de Desenvolvimento, 2007; Banco Mundial, 2005). Independentemente da necessidade aparente, a população deficiente nesta região é uma das mais negligenciadas do mundo. Contudo, a comunidade de surdos* no Uruguai, cujo total ascende a menos de 1% dos habitantes do país, se organizou para exigir leis, programas e políticas governamentais dirigidas aos surdos. Os benefícios para os uruguaios surdos incluem educação primária bilíngue na linguagem de sinais uruguaia (LSU) e em espanhol; a designação de intérpretes nas escolas secundárias, certas universidades e entrevistas para emprego; a introdução de dispositivos ou serviços para telecomunicações; o reconhecimento da linguagem de sinais uruguaia como língua oficial; um desconto de 75% nas mensagens de texto; legendas de filmes; e capacitação em linguagem de sinais para os funcionários públicos.

Como bolsista da Fundação Interamericana, passei 12 meses no Uruguai pesquisando as razões pelas quais esta comunidade se mobilizou muito mais que os demais grupos uruguaios deficientes, cujos membros são mais numerosos, e que outras comunidades de surdos da América Latina e do Caribe. Meu ponto de partida foi um estudo de caso exploratório na comunidade de surdos de Montevidéu. Entrevistei 14 líderes dessa comunidade, que me ensinaram sobre sua participação na ação coletiva. As entrevistas com uma subamostra, que constou de outros 12 membros da comunidade, produziram perspectivas complementares. Também observei aproximadamente 500 membros de comunidades de toda a cidade de Montevidéu e examinei cerca de 90 documentos públicos que datam de 1902.

No começo de julho de 2009, apenas um mês antes de terminar meu trabalho de campo, recebi um inesperado convite da IAF para apresentar meus resultados no VI Encontro Latino-Americano de Surdos em Bogotá, que incluía três conferências simultâneas organizadas pela comunidade colombiana de surdos: o Sexto Congresso Nacional sobre a Situação Atual dos Surdos na Colômbia: Passado, Presente e Futuro; o Sexto Encontro Latino-Americano de Surdos; e o Primeiro Encontro Latino-Americano de Intérpretes. Acompanharam-me Isabel Pastor, fundadora do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento para a Pessoa (CINDE), uma escola de capacitação de intérpretes do Uruguai, cuja participação também foi financiada pela IAF; e Blanca Macchi, representante da comunidade de surdos, cuja participação foi financiada pela Federação Mundial de Surdos. O comparecimento às três conferências me permitiu voltar a ver rostos conhecidos e formar novas alianças profissionais — assim é o mundo dos surdos. Agora que voltei aos EUA, colaboro com um colombiano que conheci no Encontro.

Comuniquei estes frutíferos esforços da comunidade uruguaia de surdos a um público formado principalmente por líderes comunitários surdos de várias nações da América Latina e do Caribe, assim como alguns aliados ouvintes. Os principais resultados de minha pesquisa indicam que os uruguaios surdos preferem trabalhar juntos por seus objetivos em vez de seguir um líder. De fato, geralmente, a comunidade uruguaia de surdos rejeita a concentração do poder e da autoridade em uma ou várias pessoas e prefere fomentar o diálogo, a colaboração e a coordenação com os aliados ouvintes.

Um maior acesso a intérpretes qualificados da linguagem de sinais, à educação secundária e pós-secundária por meio da linguagem de sinais e aos meios de comunicação e à tecnologia redundaram numa melhor comunicação, maior conscientização acerca do mundo que nos rodeia e uma comunidade mais bem informada e mais coesa. A comunidade uruguaia de surdos não busca ativamente a formação de redes transnacionais com outros grupos de surdos na região nem de redes locais com outros grupos uruguaios deficientes. Pelo contrário, concentra-se em alianças com entidades do governo do Uruguai, enfoque talvez facilitado pela fluidez e a estrutura social do sistema político uruguaio. A defesa de sua causa ante estes parceiros do setor público — para obter igualdade de acesso à informação, aos meios de comunicação e aos serviços públicos — é o ingrediente essencial das notáveis consecuções da comunidade de surdos.

Depois de minha exposição, vários líderes surdos e aliados ouvintes expressaram interesse em aplicar a experiência da comunidade uruguaia de surdos a suas respectivas comunidades. Os representantes da Bolívia e Guatemala se mostraram particularmente receptivos, já que suas comunidades ainda carecem de serviços dirigidos aos surdos. Ambos os países têm uma linguagem de sinais bem desenvolvida amplamente utilizada pelas pessoas surdas, mas carecem dos serviços necessários para permitir que a comunidade de surdos tenha acesso a informação e se conecte com a sociedade ouvinte. [ED: A IAF financiou atividades para codificar a linguagem de sinais empregada na Nicarágua e no Equador.] Outros aliados ouvintes, intérpretes e ativistas comunitários participantes do Encontro também falaram de uma futura colaboração.

A resposta entusiasta a minhas conclusões reconfirmou a premente necessidade de desenvolvimento enfocado nos surdos na América Latina e no Caribe, particularmente dadas as barreiras generalizadas de comunicação e de idioma que se traduzem em menos arranjos especiais para os cidadãos surdos que para os pertencentes a qualquer outro grupo deficiente. Proponho-me a continuar trabalhando com as comunidades de surdos da América Latina e do Caribe e realizar pesquisas sobre elas. Neste sentido, a compreensão que tenho da comunidade uruguaia de surdos será um valioso recurso. Tenho uma profunda dívida de gratidão com esta comunidade por sua aceitação e colaboração e com a IAF por seu apoio.

Elizabeth Lockwood defendeu com êxito sua tese na primavera do presente ano.