You are viewing archived content
of the Inter-American Foundation website as it appeared on June 1, 2018.

Content in this archive site is NOT UPDATED.
Links and dynamic content may not function, and downloads may not be available.
External links to other Internet sites should not be construed as an endorsement of the views contained therein.
Go to the current iaf.gov website
for up-to-date information about community-led development in Latin America and the Caribbean.

O que os pensadores do “grande desenvolvimento” ignoram: 40 anos de Progresso em Coletividade de David Barton Bray

Print
Press Enter to show all options, press Tab go to next option
A recente desestabilização da economia global torna mais urgente do que nunca encontrar métodos custo-eficientes e custo-eficazes que reduzam a pobreza. O repentino e relativo empobrecimento do Ocidente, e espera-se que seja atenuado nos próximos anos, não deve tirar a atenção da situação bem mais desesperadora do “Restante”, que inclui a percentagem de latino-americanos que sobrevivem com menos de US$2 por dia. Apesar desses números terem diminuído de certa forma, de 26,2% para 22,2%, durante a explosão da década de 1990 e a maior parte dessa década ter reduzido a pobreza em todo o mundo (de modo mais drástico para cerca de 400 milhões de chineses), tal melhora deve provavelmente ser apagada devido à crise atual. Isso segue um padrão de alternância de progresso e reveses desde a década de 1980 na América Latina, mas com o número absoluto de pobres sempre aumentando. O que a Fundação Interamericana tem denominado “desenvolvimento de base” tem certamente tido pouco impacto nessas oscilações. Mas pouco não significa nenhum, e em um cenário de grandes ideias fracassadas, as pequenas ideias bem-sucedidas ainda estão germinando e fixando raízes. O desenvolvimento de base, em linhas mais gerais “empoderamento”, definido como uma ação coletiva por parte das pessoas de baixa renda para lidar com seus problemas por conta própria, frequentemente auxiliado por organizações não-governamentais locais, merece desempenhar uma função maior na etapa de desenvolvimento.

Como tirar as pessoas da pobreza, quando os mercados e a política estadual (a solução chinesa) não estão cumprindo seu papel, ainda não está claro e a tarefa se torna mais desafiadora com a crise financeira global atual. As análises acadêmicas sugerem que os fatores que mais provavelmente tornam uma pessoa pobre incluem a demografia dos domicílios (número e idade das crianças), a educação (quanto mais melhor), o emprego (um é melhor do que nenhum), o lugar geográfico (a pobreza rural é pior do que a urbana), a migração (das áreas rurais) e a etnia (uma pessoa de descendência indígena ou africana tem mais chances de ser pobre). Mais recentemente, os indicadores de conectividade social, ou “capital social,” também têm sido usados, sugerindo que redes sociais deficientes, verticais e horizontais, também contribuem à pobreza. Essa lista de fatores gera um menu ainda maior de opções quanto aos modos para não tornar as pessoas pobres. Uma saúde melhor e o acesso à educação são fundamentos básicos, mas existem muitos outros preceitos mais exóticos. Tais preceitos podem variar desde o foco em “dotações de ativos domiciliares” até a expansão das “potencialidades” dos pobres: o aumento da renda externa à agricultura para os moradores rurais, a diminuição do setor informal facilitando a titularidade de lotes urbanos e a legalização de pequenas empresas e o desembolso de “transferências condicionais em dinheiro” para pais pobres poderem manter seus filhos na escola.

No fluxo de ideias e projetos, o desenvolvimento de base permanece um tema decididamente menor. Não é mencionado em nenhuma das oito Metas de Desenvolvimento do Milênio adotadas pelas Nações Unidas em 2000, desde “Erradicar a extrema pobreza e a fome” até “Assegurar a sustentabilidade ambiental”; apenas uma das metas inclui a palavra “empoderamento” e somente em relação a mulheres. O desenvolvimento de base como um conceito tem sido pouco examinado. Pesquise o termo no Google e a pesquisa mostrará em sua maioria artigos dos membros atuais ou antigos da equipe da IAF, muitos dos colaboradores da revista que você tem nas mãos. Aproveitando a dica de William e Elizabeth Paddock com a crítica We Don’t Know How: An Independent Audit of What They Call Success in Foreign Assistance [Não Sabemos Como: Uma Auditoria Independente do que Chamam de Sucesso em Ajuda Externa] de 1973, a IAF publicou They Know How [Eles Sabem Como] em 1977. Esse título se tornou o slogan duradouro da IAF. William Dyal, o primeiro presidente da IAF, definiu esta abordagem como aquela onde “as pessoas de muitos países têm definido seus próprios problemas, iniciado suas próprias soluções e buscado seus próprios recursos”. Ideias semelhantes haviam sido incorporadas à Lei de Ajuda Externa de 1969, a legislação que convocou a IAF a apoiar “esforços de autoajuda destinados a ampliar oportunidades para o desenvolvimento individual”, a “ajudar na participação efetiva e até mais ampla de pessoas no processo de desenvolvimento” e a “promover o estabelecimento e o crescimento de instituições democráticas”.

Charles David Kleymeyer, um representante de longa data da IAF, agora aposentado, também definiu o desenvolvimento de base no seu livro de 1994, Cultural Expression and Grassroots Development [Expressão Cultural e Desenvolvimento de Base] como “um processo onde as pessoas desfavorecidas se organizam para superar os obstáculos referentes a seu bem-estar econômico e social” (em itálico no original). Esses esforços, ele escreve, “normalmente implicam esforços práticos, em pequena escala, para se obter uma mudança, e são realizados por organizações como associações de aldeias ou da vizinhança, cooperativas de produção ou serviços, grupos culturais, associações de trabalhadores, coalizões étnicas ou federações de tais organizações.” O foco nas organizações das pessoas de baixa renda implica em um conceito acadêmico raramente utilizado pelos economistas de desenvolvimento: ação coletiva, uma questão fundamental nas sociedades humanas e nas ciências sociais. Se, segundo os economistas, a maximização individual de interesses de curto prazo for a regra, por que as pessoas devem cooperar? Os mercados e as empresas individuais podem ser os motores do desenvolvimento econômico, mas confiança e cooperação entre grupos sociais são essenciais para o funcionamento dos mercados. Contudo, a maioria dos esforços na estimulação do desenvolvimento nos países pobres focaliza mercados e empreendedores individuais ou programas do governo e infraestrutura, e deixa de lado a parte sobre confiança e cooperação. Mas, nos países menos desenvolvidos, por meio de parentesco ou agrupamentos territoriais, os pobres às vezes decidem cooperar, participar de ações coletivas para tratar de problemas comuns. É um fato que a ação coletiva tem geralmente permitido uma medida de justiça social e de desenvolvimento econômico onde mercados e governo têm fracassado.

Negligenciadas pelos “dois grandes” do desenvolvimento

O tema mais duradouro em desenvolvimento internacional é se a melhor posição adotada é a de cima para baixo ou de baixo para cima, e de cima para baixo tem sido a posição padrão por várias décadas. Em Llamas, Weavings, and Organic Chocolate [Lhamas, Tecidos e Chocolate Orgânico], seu relato magistral de desenvolvimento de base na Bolívia, Kevin Healy documenta a ignorância registrada dos representantes da ajuda ao ocidente. Um relatório de 1940 de um desses “especialistas” sobre como adotar o desenvolvimento agrícola nos planaltos bolivianos recomendava melhorar o pasto para gado e carneiros, cuidadosamente ignorando os vastos rebanhos de lhamas, alpacas e vicunhas que por lá pastoreavam, como ocorria há milênios. O dano ambiental disseminado atribuído aos carneiros introduzidos nos Andes e às monoculturas incentivadas na Amazônia representa uma simples fração do desastre escondido nos US$2,3 trilhões gastos em ajuda internacional nas cinco últimas décadas para impor tais planos ao ocidente. Na década de 1970, uma vez que os fracassos se tornaram mais evidentes, as abordagens de baixo para cima, enfaticamente discutidas e espasmodicamente adotadas, começaram a surgir, mas quase sempre como tentativas de induzir as pessoas de baixa renda a “participarem” de projetos provenientes de burocracias de governos distantes.

A reprise de grande destaque do antigo filme de cima para baixo versus de baixo para cima estrelou com os economistas de desenvolvimento Jeffrey Sachs, dire-tor do Instituto da Terra da Universidade de Columbia, e o professor da Universidade de Nova York, William Easterly, antes do Banco Mundial. De acordo com o seu livro O Fim da Pobreza, para Sachs, o caminho para o alívio da pobreza e o desenvolvimento sustentável é por meio de “planos, sistemas, responsabilização mútua e mecanismos de financiamento.” Ele certamente insiste em que a pobreza pode ser eliminada até 2025 por meio de investimentos nas Cinco Grandes “intervenções para o desenvolvimento”: 1. insumos agrícolas; 2. medidas básicas de saúde; 3. educação; 4. serviços de energia elétrica, transporte e comunicações; e 5. água potável e saneamento seguros. Em Common Wealth, seu livro mais recente, Sachs acrescenta mais uma intervenção, a introdução de tecnologias. A ação coletiva por parte das pessoas de baixa renda não consta particularmente da sua lista.

Em The White Man’s Burden [O Ônus do Homem Branco], Easterly explicitamente enfrenta pensadores como Sachs, menosprezando-os como “planejadores,” os quais, afirma, decidem sobre a natureza da intervenção da ajuda e elaboram o conserto técnico e o modo de implementação, sem considerar “o conhecimento que as próprias pessoas de baixa renda têm sobre as suas necessidades e problemas”. Easterly defende efetivamente mais abordagens de baixo para cima lideradas por “pesquisadores”, a quem são fornecidas as ferramentas e os recursos para lidar com as próprias soluções empresariais em face dos problemas de pobreza. Embora Easterly não utilize o termo, parece bastante com o desenvolvimento de base, principalmente quando ele propõe, como a alternativa para o planejamento de cima para baixo, “um caos confuso de instituições sociais de baixo para cima e normas essenciais para os mercados”. Contudo, o seu volume editado mais recentemente, Reinventing Foreign Aid [Reinventando a Ajuda Externa], esclarece que a visão de Easterly sobre os pesquisadores no desenvolvimento de baixo para cima é limitada a “empresas em mercados privados e políticos democraticamente responsabilizados.” Portanto, uma ação coletiva por parte dos pobres não se encontra na sua lista também. Nenhum dos pensadores das Duas Grandes posições de desenvolvimento considera a possibilidade de que “eles sabem como.”

A excelente aventura de Hirschman


Pelo menos um acadêmico renomado considerou a ação coletiva logo de início. Albert O. Hirschman, agora aposentado aos 93 anos, é um dos economistas de desenvolvimento mais influentes do século 20. Em 1984, há 25 anos, ele levou quatro meses visitando os projetos da IAF em seis países. Ele registrou suas impressões em um pequeno volume impressionantemente intitulado O Progresso em Coletividade. Hirschman foi um prolífero gerador de teorias e está associado à ideia de que não existe modelo universal de desenvolvimento econômico. Estratégias precisavam ser elaboradas para as circunstâncias de um determinado país, ele afirmou, porque, contrariamente à crença predominante, não havia uma única sequência correta de intervenções. Hirschman ficou bastante satisfeito ao descobrir que estava certo em suas visitas aos projetos da IAF. Uma teoria, depois elaborada por Hernando De Soto, em seu aclamado O Mistério do Capital que surgiu em 2000, defende que a obtenção do título da terra estimula os moradores das cidades a melhorarem suas casas. A visita de Hirschman a um projeto de habitação em Cali, Colômbia, onde as pessoas com título da terra haviam de fato melhorado suas casas, validou essa noção. Contudo, durante uma visita posterior a um assentamento de posseiros em Quilmes, Argentina, ele percebeu que, após a invasão altamente organizada de uma parte desocupada, os moradores estavam construindo casas sólidas, apesar de não terem título, especificamente como uma estratégia para impedir seu deslocamento e para forçar as autoridades a transferirem a terra para eles por meio de escritura. Assim, talvez a obtenção do título não seja necessariamente um pré-requisito para o desenvolvimento.

Hirschman descobriu outras sequências imprevisíveis em suas viagens. Ele também descobriu que uma ação coletiva, comprovadamente realizada por causa de benefícios imediatos para cada indivíduo, poderia se transformar em defesa pública com menos benefícios claramente pessoais. As realizações de organizações de triciclistas (fornecedores em bicicletas com três rodas) na República Dominicana e de mercearias de cooperativa no planalto do Peru eram aparentes a seus membros, (um resultado raramente analisado pelos economistas de desenvolvimento) e levou a uma ação coletiva mais ambiciosa voltada para a democratização da esfera pública, como a intercessão por reformas das políticas de apoio.

Hirschman perguntou como tal ação coletiva surge e prontamente encontrou uma simples resposta na agressão — atribuída à natureza, a indivíduos poderosos, à sociedade ou ao estado — que pessoas pobres sofrem como um grupo. Mas ele também propôs outro fator, um que notavelmente denominou “Princípio de Conservação e Mutação de Energia Social.” Embora Hirschman aparentemente nunca tenha desenvolvido o conceito de energia social mais profundamente, este é um conceito útil que existe em algum lugar entre o conceito de “capital humano”, significando conhecimento, e o conceito de “capital social,” redes pessoais que podem ser usadas para fins de avanço econômico. Ele utilizou o termo “energia social” em sua observação de que o fracasso nem sempre levava ao abandono da ação coletiva. Ao contrário, os participantes frequentemente aprendiam com seus fracassos e tentavam novamente mais tarde, com a energia social “armazenada” nesse meio tempo.

As histórias de Kevin Healy sobre organizações de base na Bolívia estão repletas de exemplos do ciclo de energia social. As organizações que Healy descreve frequentemente demoravam entre oito e dez anos para conseguir um equilíbrio financeiro e geralmente passavam por períodos aos quais Hirschman teria denominado de armazenamento e outros observadores poderiam ter denominado fracasso. Após inúmeras tentativas, a energia social foi retirada do armazenamento, e essas organizações de base, geralmente com o apoio de pequenas ONGs locais, encontraram seus lugares e fizeram grandes avanços. Algumas pegaram produtos tradicionais desprezados, como carne de lhama, e os transformaram em produtos valiosos e modernos. A Bolívia tem o maior rebanho de lhamas do mundo, mas, até recentemente, a carne da lhama era consumida somente pelos bolivianos mais pobres; as leis municipais a consideravam anti-higiênica e proibiam a sua venda. Na verdade, a carne das lhamas de pastoreio tem baixo nível de colesterol, alto nível de proteínas e está disponível a um custo ecológico bem mais barato do que a carne de cordeiro, de vaca ou de cabra. Sem gordura e altamente nutritiva, a carne de lhama reapareceu nos mercados bolivianos, graças à ação coletiva por parte das pessoas de baixa renda, especificamente um “lobby de lhama” de base, e o governo boliviano agora está interessado em expandir o consumo.

O Haiti apresenta um cenário ainda mais desafiador do que a Bolívia. Em seu recente artigo em Desenvolvimento de Base, Robert Maguire, que trabalhou 19 anos como representante da IAF no Haiti, documentou a energia social em armazenamento lá, uma vez que os grupos de base aguardavam a agitação política abrandar. Em uma visita ao Haiti, ele encontrou um líder de um antigo donatário da IAF que relatou as consequências devastadoras da instabilidade política do Haiti em sua comunidade natal. Então, de repente, o haitiano “puxou um documento de sua mochila que descrevia os planos que ele e os líderes (comunitários) haviam começado a formular para revitalizar os programas nas áreas de educação, saúde e desenvolvimento de pequenas empresas.”

Tudo isso pode, logicamente, também dar errado. A corrupção se instala mesmo nas pequenas comunidades firmemente unidas, se controles não forem rígidos o suficiente. O egoísmo individual pode triunfar sobre o bem comum e a “apropriação por parte da elite” ocorre, indicando que as poderosas figuras locais se tornam corruptas. Mesmo na ausência da corrupção, os benefícios da ação coletiva não são sempre claros. Judith Tendler, em seu estudo, apoiado pela IAF, de cooperativas bolivianas na década de 1980, observou tais características como pequenas associações em declínio, participação deficiente e liderança arraigada. Ela contrastou esse cenário com a frequente idealização de cooperativas como abordagens mais democráticas e desejáveis em relação ao desenvolvimento rural do que as cooperativas implementadas por governos ineficazes ou repressivos. Contudo, como Hirschman, ela descobriu que algumas situações aparentemente previsíveis nem sempre se materializavam. De acordo com Tendler, às vezes, os líderes arraigados mais prósperos, por exemplo, não apresentavam um problema às cooperativas que retiravam membros das pequenas comunidades dispersas onde os líderes ainda residiam e estavam sujeitos a alguns controles. Ela concluiu que, baseadas em diversos fatores, como outras estratégias de desenvolvimento, às vezes, as cooperativas trabalhavam bem e, às vezes, não.

Facilitando o ônus do homem branco

A prosperidade coletiva nunca foi mais do que um vale remoto no cenário internacional de desenvolvimento. Coisas interessantes acontecem, mas as notícias não viajam longe o suficiente ou a lugares altos o suficiente. Enquanto isso, a geração atual de economistas proeminentes de desenvolvimento ainda tem antolhos com relação ao poder da sociedade civil e do capital social, mesmo quando os principais doadores permanecem impedidos de decidir como fazer o desenvolvimento acontecer. Como Easterly observa, “o sucesso é raro e o fracasso é comum” e instituições tão nobres quanto o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional podem parecer quase penitenciais sobre seus financiamentos e não são melhores no relato dos resultados do que muitos grupos de base.

E o mais curioso é que o preceito de Easterly está limitado a empresas e indivíduos e ignora o que tem acontecido em muitos dos vales mais remotos. É interessante observar que ele atribui suas esperanças a “líderes democraticamente responsabilizados”, mas todos os seus modelos de sucesso são economias nacionais realmente inteiras, desde o Japão até Botsuana. Os governos e as economias não serão reformados somente por políticos ou pelo mercado; os cidadãos coletivamente organizados são o fundamento indispensável. E nem a empresa é o único modelo lucrativo da América Latina onde as tradições de base permanecem fortes e podem se tornar a base para as empresas que sobrevivem e até florescem no novo mundo “achatado” da globalização. Ao praticarem a própria marca de “capitalismo comunitário”, essas empresas ocupam um nicho peculiar. Algumas têm escritórios e pontos de venda em capitais e mercados no exterior. No México, nenhuma das empresas de silvicultura comunitária que estudei afundou devido à concorrência, embora os problemas organizacionais tenham derrubado algumas.

As instituições de governança comunitária, algumas fundamentadas em antigas tradições milenares e outras na Revolução Mexicana do início do século XX, estão sendo adaptadas a essas empresas.

Para lidar com as demandas particulares de setores diversificados, que podem incluir serrarias sofisticadas, operações de secagem e empreendimentos de expansão em ecoturismo, as comunidades florestais mais bem-sucedidas têm precisado desenvolver novos órgãos especializados. Esses órgãos incluem a Comissão de Análise em Ixtlán de Juárez, Sierra Norte, Oaxaca, para os quais 20 residentes de comunidades foram eleitos, incluindo profissionais, mecânicos, revendedores de jornais e carpinteiros, todos conhecedores das questões enfrentadas pelas empresas florestais. Este órgão de “pesquisadores” pode deliberar por até três dias, continuando até um quarto dia, se necessário, sobre assuntos que afetem a empresa de multimilhões de dólares da comunidade que inclui empreendimentos conjuntos com outras comunidades para fabricar móveis para escolas e uma cadeia de três lojas na cidade de Oaxaca. Uma sólida estrutura comunitária que não é de propriedade privada nem do governo, e que representa um “terceiro setor” para a obtenção de um desenvolvimento econômico e conciliá-lo com práticas democráticas, conservação e distribuição equitativa de renda.

Kevin Healy documenta um sincretismo organizacional semelhante na Bolívia onde uma federação de cooperativas que produzem cacau e chocolate orgânico utiliza um modelo organizacional orientado para empresas, que incorpora tradições indígenas como redes de parentesco, liderança alternada, gestão por consenso e o uso extensivo de assembleias. Ao contrário dos setores em que a compensação executiva fora de controle está finalmente sendo escrutinada, a federação de El Ceibo por vários anos aderiu a uma política de pagar a todos o mesmo salário, desde o porteiro do depósito até o membro cooperativo que se torna Presidente. Agora totalizando cerca de US$2 milhões anualmente, ela reconsiderou essa postura extrema e reconheceu que esses gestores profissionais podem merecer salários mais elevados. O marketing da associação em cima da carne e das fibras da lhama também era proveniente da tradição, incluindo a organização do território em ayllus, ou unidades administrativas, criando o que Healy denomina “híbridos culturais”.

Centenas de exemplos de cooperativas e empresas comunitárias igualmente bem-sucedidas existem por todas as Américas e além. Kurt Hoffman da Fundação Shell observou que menos de 10% da ajuda oficial e privada chega até eles e solicita mais “intervenções de empresas em prol dos pobres”. Algumas dessas empresas em prol dos pobres são impulsionadas por ideias e visão de base e são ajudadas por investimentos externos nas ideias das pessoas de baixa renda, em vez de em uma “intervenção” que considera os pobres sem energia ou sem criatividade. Essas empresas também fornecem um novo significado à chamada constante de “participação” em esforços de desenvolvimento econômico. Como representante da IAF durante 11 anos, sempre fiquei perplexo com a demanda ao redor da “participação” no restante da comunidade de desenvolvimento. A participação tem sido sempre uma condição sine qua non para um prêmio da IAF, mas não a participação em resposta a uma demanda externa. A IAF financia, diretamente ou por meio das ONGs, grupos de base cuja essência seja a participação do trabalho na terra. Certamente, a liderança corrupta parece uma possibilidade, mas o ônus fica a cargo dos membros e apenas via participação eles podem responsabilizar os líderes.

O apoio às organizações de base de “pesquisadores”, em oposição a de indivíduos, requer algumas importantes modificações do planejamento do desenvolvimento tradicional, usando “estruturas lógicas” ou estruturas de registros, que definem, passo a passo, entradas, saídas, propósitos, metas, objetivos e atividades que ocorrem dentro de um cronograma definido, com o sucesso medido por meio da conclusão desses. Algumas formas de planejamento são sempre necessárias em termos de coordenação no início de um projeto, como ocorre com a responsabilização em ações organizacionais. O desenvolvimento de base, contudo, apoia organizações, não projetos, e, como “sistemas adaptáveis complexos”, devem constantemente mudar estratégias e metas em resposta às pressões de seu contexto. A estrutura de registros deve se tornar um documento fluido. Como Pat Breslin argumentou nesta revista em 2005, “A abordagem responsiva do desenvolvimento de base vê nas comunidades humanas a mesma capacidade de auto-organização que os cientistas veem em todos os sistemas adaptáveis complexos. Consequentemente, ela confia mais na capacidade das pessoas pobres em en-tender seus próprios problemas e formular suas próprias soluções, geralmente em diálogo com técnicos locais, do que confia em projetos elaborados do exterior. Essa abordagem enfatiza a singularidade de cada projeto. Ela busca sucesso, tanto quanto, senão mais, em resultados intangíveis como o aumento das capacidades humanas como ocorre nos resultados quantitativos dos projetos. Ela reconhece que os sistemas complexos são adaptáveis e busca fortalecer a adaptabilidade, de modo a poder ser transportada para o próximo desafio do desenvolvimento”.

As organizações de base são um exemplo de “emergência”, de níveis mais altos de integração que se desenvolvem a partir de sistemas sociais de parentesco e baseados em comunidades. As pessoas são pobres por causa da saúde precária, educação deficiente e bens insuficientes, mas também por causa do tecido social conectivo insuficiente que os restringe a estruturas maiores em suas sociedades. As organizações de base fornecem uma parte desse tecido conectivo e, quando presente, tornam a expressão irônica “ônus do homem branco” de Easterly bem mais suave. Como Breslin observa em sua própria crítica dos livros de Sachs e Easterly na revista de 2007, “a infraestrutura de liderança do desenvolvimento de baixo para cima já surgiu. Compõe-se de milhares de grupos e ONGs de base, muitos dos quais com um longo histórico de progresso em relação à pobreza disseminada da região”.

Ainda organizando após todos esses anos

Os projetos de desenvolvimento de larga escala originários de organizações multilaterais e bilaterais e de governos centrais não estão de partida a qualquer momento. Mas considerando os fracassos reconhecidos, os profissionais de desenvolvimento internacional devem permanecer abertos à diversidade nas abordagens. Como Healy observa em seu livro, “não existem ‘fórmulas mágicas’ em desenvolvimento em nenhum lugar, incluindo o financiamento do mercado livre” e de “órgãos doadores e internacionais de organizações incipientes que permitam que novos visionários venham à tona e iniciem projetos inovadores em pequena escala que possam eventualmente crescer em importância e escopo de impacto.” Isso parece Easterly, exceto a parte sobre organizações. O desenvolvimento de base, a ação coletiva das pessoas de baixa renda para solucionar seus problemas com infusões modestas de apoio externo, é claramente uma pequena mas crucial alternativa para o “grande desenvolvimento.” A abordagem de base também confirma a crescente evidência de que uma gestão “direcionada ao lugar”, significando gestão ambiental proveniente dessas organizações de base, é uma importante resposta estratégica a questões, desde aquecimento global à poluição da água.

Ao terminar o livro sobre desenvolvimento de base, Hirschman quebrou a cabeça para resolver o que chamar de portadores de energia social, seja em ONGs ou nas organizações de base. Promotor é um dos termos mais comuns em português e espanhol, mas o cognato correspondente em inglês, promoter, parece com alguém que tenta vender máximo concertos de roque. O equivalente mais próximo em inglês é, na verdade, o organizador comunitário. Nos Estados Unidos, a profissão de organizador comunitário adquiriu grandeza, agora que um Organizador Comunitário-Chefe está na Casa Branca. Para mim, isso fornece a esperança de que os economistas de desenvolvimento possam vir a depender um pouco menos de “intervenções” dispendiosas, de cima para baixo, e mais da energia e da invenção das pessoas de baixa renda e dos organizadores comunitários que podem ajudá-las a concretizar suas ambições coletivamente.

David Bray é professor e chefe interino do Departamento de Terra e Ambiente da Universidade Internacional da Flórida em Miami. Entre 1986 e 1997, ele foi um representante da IAF que trabalhou principalmente no México.