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Nosso Homem na Bolívia de Patrick Breslin

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Bill Dyal, Presidente fundador da Fundação Interamericana, sabia exatamente o que queria dos homens e mulheres que representariam sua nova agência na América Latina e no Caribe: “Pessoas que pela manhã pudessem sentar-se no escritório do embaixador e, em seguida, entrar em um jipe ou montar em uma mula e em poucas horas estar na habitação de um camponês e sentir-se ali também como se estivesse em casa”.

Dyal sabia que seu enfoque visionário da assistência para o desenvolvimento teria de ser explicado e defendido perante diplomatas dos Estados Unidos que viam a ajuda externa como uma ferramenta para favorecer os interesses dos Estados Unidos no curto prazo e perante latino-americanos céticos, conscientes das promessas não cumpridas da Aliança para o Progresso e das intervenções de Estados Unidos em seus assuntos. Ele tinha decidido que o pessoal da IAF não viveria no exterior, destacando que eram os latino-americanos e não os estrangeiros que conceberiam e realizariam seus projetos de desenvolvimento. A fisionomia da IAF seria os representantes da Fundação (RF) que permaneceriam na região durante algumas semanas de cada vez, mantendo contato com a Embaixada de Estados Unidos e com os povoados rurais. Sua tarefa seria visitar os grupos cujas propostas tinham potencial, analisar sua viabilidade, procurar entender o interesse da comunidade e, em seguida, orientar as propostas merecedoras por meio do processo de revisão interna da IAF e monitorar o avanço. Desde a presidência de Dyal, os RF têm correspondido à expectativa de trazer à tona perspectivas sobre o esenvolvimento com base na própria experiência e comunicar este conhecimento por meios impressos e canais públicos.

Quando Kevin Healy entrou para a IAF em 1978, ele já sabia como se virar entre diplomatas e camponeses. Tinha sido voluntário do Corpo de Paz na costa peruana do Lago Titicaca e nas ilhas de Taquile e Amantani antes que as guias internacionais de turismo descobrissem a área. Tinha também conhecido um pouco as embaixadas durante uma temporada em um projeto da Georgetown University-USAID no Paraguai. Além disso, Healy, que recebeu seu doutorado em sociologia do desenvolvimento da Cornell Uniersity, era analista altamente qualificado dos processos histórico, político e social que afetam os esforços de desenvolvimento. E isto também se enquadrava na sua visão de uma relação mutuamente enriquecedora entre o trabalho da IAF no terreno e no mundo acadêmico. Esta visão levou Dyal, ao formar a IAF, a consultar professores de programas de estudos latino-americanos de universidades dos Estados Unidos e Healy foi uma das várias pessoas com doutorado que ele contratou.

No ano passado cumpriram-se 30 anos de Healy como RF, permanência sem precedentes nesse cargo, mas ele ainda não terminou. Ele é um desses funcionários que veem seu trabalho na IAF como oportunidade para avançar seus interesses intelectuais e uma visão estratégica na qual as doações individuais se transformam em pedras fundamentais de um processo de longo prazo. O conhecimento e a experiência especializados que desenvolveram na IAF motivaram o reconhecimento internacional, permitindo que vários deles assumissem cargos-chave — e em alguns casos a chefia — de prestigiosos departamentos universitários, fundações, centros de estudo, outros organismos de desenvolvimento e instituições internacionais. Healy optou por permanecer na IAF. Como RF dirigiu várias carteiras—Panamá, Peru, Colômbia, Costa Rica, Equador e Honduras—mas a Bolívia foi o país com o qual mais se identifica. E ele continua a regressar, contatando os grupos de base que fundou há três décadas, buscando outros mais como eles e acrescentando a este conhecimento fenômenos tão di-versos como o impacto do comércio de drogas e a gestão de recursos naturais. Em 1989, em cerimônia pública, o Ministério de Educação e Cultura da Bolívia reconheceu suas contribuições para o desenvolvimento do país e sua importante bibliografia, premiando-o com a “Grande Ordem da Educação Boliviana”.

Foi por meio de Healy que eu, então escritor autônomo trabalhando na Bolívia, conheci pela primeira vez a Fundação Interamericana há mais de 25 anos. Quase desculpando-se, sugeriu-me que eu me registrasse no Oruro, um hotel de La Paz. Aterrissei quase meianoite e, enquanto respirava ofegante o ar rarefeito uns 3.800 metros de altura, o táxi navegava através de uma parte muito escura da cidade. No hotel, tive que parar várias vezes para tomar fôlego ao arrastar minha maleta até o terceiro andar onde estava meu quarto, de tamanho decente, mas mobiliado como a cela de um monge: uma mesa de madeira, uma cadeira e duas camas estreitas. Fazia frio—o ar da noite a essa altura não retém o calor— e meus dentes estavam tiritando enquanto eu me enfiava embaixo das cobertas. Eu sabia que os RF em viagem recebiam a diária normal do governo, de modo que
obviamente Healy podia pagar um lugar melhor. Esse hotel seria uma espécie de expiação ascética?

Na manhã seguinte encontrei a explicação na sala de recepção, embora levasse alguns dias para compreender. Healy chegaria no final daquela semana e todas as manhãs grupos de pessoas vestidos com roupa indígena estavam no saguão, fazendo negócios sérios com o recepcionista. Várias vezes um grupo se aproximou para perguntar quando chegaria “Benito” (Healy me tinha alertado que as pessoas na Bolívia o conheciam como Benito). No final, o recepcionista também me perguntou, mostrando a lista de compromissos programados para Healy. Foi então que percebi que o Oruro, situado perto de um mercado popular por onde circulavam mil-hares de indígenas bolivianos comprando e vendendo de quase tudo, era o lugar certo. Se os índios tivessem procurado se aproximar da recepção de um dos hotéis internacionais do centro, o porteiro lhes teria dito para esperar do lado de fora. O hotel escolhido por Healy não era uma questão de sua comodidade, mas das pessoas que tinham viajado longas distâncias para vê-lo. Além disso, a sala de recepção era um espaço de escritório gratuito e o recepcionista nada cobrava para marcar entrevistas. Eu começava a perceber que a Fundação Interamericana não era a burocracia típica de ajuda externa.

Em uma viagem mais recente, notei que Healy estava hospedado em um hotel executivo com conexão à Internet, mais próximo ao centro de La Paz. A Bolívia também tinha mudado nos anos transcorridos. Um líder indígena é o Presidente e alguns daqueles que tinham esperado na recepção do Oruro são agora ministros do governo—como é o caso de David Choqueuanca que, como jovem aimará oriundo das proximidades do Lago Titicaca, tinha apresentado a Healy, com êxito, seu projeto comunitário de criação de coelhos e agora é Ministro das Relações Exteriores. Nos dias de hoje, dizer-se a um indígena na Bolívia para “esperar do lado de fora” é algo que deve ser primeiro pensado duas vezes.

Vários meses atrás, como parte da pesquisa para um livro sobre desenvolvimento de base, comecei a entrevistar Healy sobre seu trabalho. Eu já tinha conversado com alguns visionários latino-americanos que tinham sido pioneiros de novos caminhos, mas estava tentando descobrir como um doador seria capaz de reconhecer e entender aqueles visionários. No caso de Healy, logo se tornou óbvio que parte da resposta estava no interesse pela cultura indígena que ele remonta há muito anos, a uma viagem à reserva dos índios norte-americanos Blackfoot durante um verão em Montana, planejado por seu pai, jornalista de Washington e entusiasta da história dos nativos dos Estados Unidos. O interesse floresceu no verão de 1966 quando Healy, estudante universitário, foi ao Peru como parte de um programa de serviço da Universidade de Notre Dame que o colocou em uma paróquia da missão Maryknoll perto do Lago Titicaca. “Eu me apaixonei pela beleza do lago e pelas pessoas” confessou ele. Isso e o trabalho que ele viu o Corpo de Paz realizar o motivaram a transformar-se em voluntário depois de formatura e acabou sendo designado às mar-gens e às ilhas do Lago Titicaca.

Esses dois anos foram como um início, introduzindo temas que voltariam em todo o trabalho de Healy na América Latina até o presente. Sua primeira tarefa, como agente de extensão para apresentar uma nova variedade de batata aos agricultores andinos —e seu pacote de fertilizantes químicos e pesticidas tóxicos—terminou em fracasso quando as plantas não puderam sobreviver às geadas da grande altitude. E pior ainda, os cultivadores se endividaram para adquirir a nova tecnologia. Horrorizado, Healy começou a questionar a tão elogiada superioridade dos métodos modernos. O quê, perguntou ele a si mesmo, poderia um recém-formado em ciências políticas, com um curso intensivo em agricultura ensinar a agricultores cujos ancestrais tinham desenvolvido, durante cinco milênios, mais de 3.000 espécies de batata adaptadas à multiplicidade de zonas climáticas no alto da montanha e na planície? A ironia foi ainda mais dolorosa ao refletir que seus próprios antepassados tinham deixado a Irlanda três gerações antes quando sua safra de batata fracassou.

O ceticismo sobre a conveniência de pressionar as pessoas pobres a adotarem esquemas técnicos ocidentais inapropriados permaneceria uma das constantes preocupações de Healy. Muitos anos depois, em seu livro Llamas, Weavings, and Organic Chocolat [Lhamas, tecidos e chocolate orgânico] ( Notre Dame Press: 2001), Healy analisou os preconceitos da assistência ocidental, especificamente a crença de que os indígenas andinos eram ignorantes e uma carga para o progresso, e que as soluções ocidentais importadas eram a melhor esperança para melhorar sua situação. Sua experiência no Corpo de Paz e seus estudos graduados plantaram em sua mente a semente de um enfoque alternativo. Considerando o que o atraiu tão fortemente para os Andes, ele compreendeu que fora precisamente a riqueza de uma das grandes civilizações da humanidade. Começou a ver a música melancólica, têxteis finos, cultivos, pecuária e plantas medicinais nativas, bem como as formas tradicionais de organização social como recursos valiosos que, entrelaçados com os melhores elementos da tecnologia ocidental, poderiam ser os pilares de uma estratégia de desenvolvimento diferente.

Healy dedicou grande parte de seu serviço no Corpo de Paz a Taquile, uma ilha escarpada de declives acentuados e lotes em terraço atravessados por caminhos e arcos de pedra, alguns da época pré-colombiana. Um de seus projetos foi transformar as aptidões tradicionais em uma fonte de renda. Primeiro foi atraído pelo chullo, um gorro tecido; em seguida, passou a apreciar a herança têxtil da ilha, que se remonta às antigas civilizações inca, pukara e colla. “Achei que os tecidos esplêndidos ofereciam uma alternativa para ganharem algum dinheiro”, recordava Healy. Sua ideia foi testar os tecidos de Taquile no mercado mais afluente de Cusco e ajudou a levá-los até lá. Anos depois, a ilha se transformou em um destino turístico e a organização comunitária que enviava tecidos a Cusco passou a ser um posto de vendas locais. “Hoje em dia, cerca de 380 famílias participam, temos quatro lojas e os taquilenhos recordam que essa visão partiu de Benito”, lembra-se Juan Quispe, um taquilenho cujo pai tinha trabalhado com o jovem voluntário do Corpo de Paz. Julio, pai de Juan, recorda um fato mais pitoresco: “Quando ele vivia aqui, às vezes vestia roupa local. Quando ia a Puno conosco, assim vestido, as pessoas perguntavam: ‘Que mulher de Taquile deu à luz uma criança branca?’” Anos depois, em 2005, a UNESCO ratificaria a admiração de Healy ao designar Taquile e suas artes têxteis como “obras mestras do patrimônio oral e intangível da humanidade”.

Entre seu serviço com o Corpo de Paz e seus estudos graduados na Cornell University, Healy, sob contrato com a Georgetown University (onde acabava de receber um mestrado), trabalhou no Paraguai com a Universidade Católica, um dos poucos centros de pensamento independente em um país que vivia sob uma prolongada ditadura militar. Os jesuítas da faculdade de ciências sociais o apresentaram a um movimento social rural baseado na teologia da liberação; causou nele impressão tão profunda que quis regressar ao Paraguai para trabalhar em uma tese que contribuiria para as metas do movimento. Em 1974, sua proposta neste sentido o tornou um dos primeiros bolsistas da IAF a fazer pesquisa de doutorado sobre temas de comunidades de base. A bolsa de estudos, porém, vinha com uma condição: o pesquisador precisava de um donatário da IAF como anfitrião. “Mas o único donatário paraguaio da IAF naquela época me rejeitou”, explicou Healy.

Quando a IAF encontrou um lugar alternativo no departamento de Chuquisaca, no sul da Bolívia, Healy o aceitou prontamente e nos 18 meses seguintes passou a morar no povoado de Monteagudo. “Eu desejava observar as elites”, recordava Healy. “Naquela época havia muitas pesquisas sobre pobreza. Mas eu queria estudar o modo como as elites conformavam o processo de desenvolvimento para captar o grosso dos benefícios”. Sua estada em Monteagudo permitiu também a Healy dedicar-se a outro interesse. “Economizei tudo o que pude de minha bolsa de estudo e comprei tecidos”, recordou. O conhecimento adquirido mais tarde levaria Healy a financiar decisões que ajudariam a revitalizar uma tradição têxtil em extinção e levá-la à cena internacional.

A dissertação resultante foi um estudo pioneiro que mostrava como as 15 famílias locais mais ricas tinham conseguido resistir às reformas agrárias da década de 1950 e tinham mantido um sistema de trabalho base-ado no endividamento dos peões. Um pequeno grupo de “chefes” locais formava o outro lado da estrutura, controlando o governo local, as cooperativas e a maior agroindústria da região. As duas elites de poder trabalhavam em conjunto para assegurar que os empréstimos do Banco Interamericano de Desenvolvimento e os fundos de outras fontes fossem utilizados para beneficiar a si mesmos, excluindo a maioria rural e ampliando a desigualdade. Em 1982, a dissertação transformou-se no best-seller: Caciques y Patrones, una experiencia de desarrollo rural em el sud de Bolívia, o primeiro trabalho de Healy de uma lista de 22 páginas de publicações e apresentações públicas que causariam inveja a professores que vivem sob o regime de publicar pesquisas ou perecer nas universidades. É um texto padrão na Bolívia, utilizado por estudantes das relações de poder rural, reforma agrária, populações guaranis e desenvolvimento. O livro voltou recentemente às manchetes quando Healy foi entrevistado na televisão boliviana em conexão com a lei da reforma agrária aprovada no ano passado. A perdurabilidade do livro é uma das bases do reconhecimento de que Healy, como acadêmico, é um dos principais peritos dos Estados Unidos em desenvolvimento e movimentos indígenas da Bolívia. Utilizou esse conhecimento nos cursos de pós-graduação que ensinou na Georgetown University e American University. Atualmente ensina na Eliott School of International Affairs, da George Washington University, como parte do currículo central dos estudos latino-americanos.

A trajetória de Healy na IAF abrange as décadas em que povos indígenas de diversas partes do mundo se movimentaram de forma decisiva para libertar-se de versões locais do apartheid. Seu trabalho na IAF, na Bolívia e em outros países, concedeu-lhe um assento na primeira fila na época em que os movimentos indígenas tomavam forma em toda a América Latina lutando contra a pobreza, discriminação, exclusão política e ameaças à sua cultura. Na Bolívia, Healy percebeu as possibilidades logo no início. “Dado o alto grau de mobilização política, era claro para mim o potencial da maioria indígena para eleger um presidente oriundo de suas próprias organizações e longas batalhas”, afirmou. “Eu queria fazer parte desse processo para promover o empoderamento político na base, um processo que deve muito ao crescimento da sociedade civil na Bolívia, do qual a IAF fez parte”. Os indígenas bolivianos no final ajudaram a pôr um deles no cargo, evento pelo menos tão significativo e surgido de uma luta sustentada pelos direitos civis e justiça social como a eleição de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos. Quando Evo Morales fez sua visita inicial a Washington em 2008, Healy foi a opção óbvia para apresentá-lo em sua primeira visita programa em Washington, D.C.: a American University.

Os dois se conheceram em Cochabamba no início da década de 1990, quando Healy estava visitando um grupo de camponeses da região do Chapare, onde a organização de cocaleros, plantadores de coca, de Morales era uma força política poderosa. Naquela época Healy já tinha publicado o primeiro de dois artigos acadêmicos que apareceriam nos Estados Unidos sobre esse movimento. “Quando saíamos de Cochabamba, o líder deste grupo disse que tínhamos que parar na Federación del Trópico, porque não podíamos levar um gringo a Chapare sem a aprovação de Evo Morales. Encontramos Evo sozinho no escritório, em um sábado de manhã. Quando entrei, ele aparentou estar muito suspeito e perguntou quem era eu e o que ia fazer no Chapare. Eu tentei diversas coisas para dissipar seu desconforto e disse que eu tinha visitado sua comunidade natal de Orinoco, em Oruro, onde apoiamos programas de capacitação para mulheres. Mencionei o nome de uma mulher líder de Orinoco que eu conhecia através de nossa doação e imediatamente ele disse que era uma boa amiga dele. Com isso, as suspeitas começaram a desaparecer. Quando mencionei algumas ONGs com quem trabalhamos em Cochabamba, sua atitude agressiva desapareceu, acionou o charme de verdadeiro político, foi extremamente amistoso e nos disse para seguir nosso caminho”.

As quase 400 doações que Healy financiou em mais de 30 anos não foram concedidas exclusivamente a grupos indígenas, mas incluíram contribuições importantes para os kunas do Panamá, os garifunas de Honduras, projetos de turismo em Taquile, projetos de microcrédito para mulheres do Peru e para comunidades dos Andes equatorianos e Amazonas colombiano. Donatários bemsucedidos de toda a Bolívia dão a razão à convicção de Healy de que a cultura indígena pode mostrar o caminho para o desenvolvimento real. Muitas de suas propostas foram esforços pioneiros para reverter a ênfase das tecnologias ocidentais para alternativas aprimoradas durante séculos por uma notável civilização agrária. Aclamado pela crítica, Llamas, Weavings, and Organic Chocolat descreve como nove destes esforços pioneiros financiados pela IAF superaram os obstáculos e conseguiram dar ênfase a recursos tradicionais há muito subvalorizados como meios para o desenvolvimento.

A Central de Cooperativas Agropecuarias Operación Tierra (CECAOT), por exemplo, é uma organização de camponeses que trabalha nos arredores das ásperas mas lindas planícies salinas do sul da Bolívia para reviver a quinoa, um grão rico em proteínas, outrora alimento básico do império inca, e levá-la a consumidores exigentes de todo o mundo. Um grupo de colonos de Alto Beni desenvolveu sua produção de cacau orgânico até transformar-se em El Ceibo, uma empresa cooperativa que incorporou normas andinas de serviço e responsabilidade transformando-se no mais importante produtor boliviano de chocolate. Uma organização de pastores, depois de uma longa luta, obteve reconhecimento oficial dos benefícios econômicos, ambientais e de saúde das lhamas e alpacas. Não é de surpreender que estas atividades tenham sido adotadas pela administração do primeiro presidente indígena da Bolívia.

Uma descrição no livro de Healy foca o renascimento das tradições têxteis andinas. Um ex-convento de Sucre abriga um museu e loja de têxteis dirigidos pela Antropólogos Del Sur Andino (ASUR), organização criada em meados da década de 1980 pelo falecido Gabriel Martínez, espanhol, e sua esposa chilena, Verónica Cereceda, juntamente com outros antropólogos. Martínez e Cereceda eram representantes da geração latino-americana da década de 1960—intelectuais jovens, sofisticados, em busca da justiça social e respostas aos problemas de seus países nas raízes indígenas. Uma onda de golpes de estado militares de fanáticos da direita de meados da década de 1960 a meados da de 1970 levou essas pessoas a passarem de um país a outro. Aqueles que sobreviveram—e muitos não conseguiram—frequentemente constataram que o exílio ampliou seus horizontes, enriqueceu suas ideias e propagou seus ideais.

O casal foi passando da Bolívia ao Chile e daí ao Peru, mas sua paixão foi a Bolívia, especificamente o significado cultural que envolve a tecelagem do planalto, uma tradição posta em perigo pelas pressões da modernização e de comerciantes oportunistas que oferecem preços ridiculamente baixos. Várias comunidades logo descobriram que tinham vendido seu patrimônio cultural por uma miséria. Cereceda era perita em têxteis e compreendia o papel central destes na vida andina; Martínez falava o quéchua. Eles apresentaram uma proposta à IAF para uma pequena doação para ajudá-los a identificar e pesquisar um grupo de comunidades cujo patrimônio cultural apresentava desenhos especialmente atraentes. Os antecedentes acadêmicos de Healy tornaram-no receptivo à ideia de que a pesquisa podia ser uma ferramenta do desenvolvimento de base —as informações e o pensamento muitas vezes precedem utilmente a ação— e ele apresentou a proposta para seguir o processo normal. A recompensa veio rapidamente.

Martínez e Cereceda estabeleceram-se na comunidade Jalq’a de Irupampa, ao norte de Sucre, para o primeiro de seus numerosos workshops sobre tecidos. Chegaram justamente a tempo para encontrar tecelãs que ainda se lembravam das técnicas tradicionais e mulheres jovens interessadas em aprendê-las. Mas não tinham modelos para seguir —todos os tecidos clássicos tinham sido vendidos. Então Cereceda contatou colecionadores do mundo inteiro, pedindo fotografias. Ampliadas e penduradas nas paredes de workshops e domicílios, as misteriosas figuras de demônios ambivalentes e animais extravagantes flutuando e revolteando em um vazio escuro falavam de um subconsciente coletivo a uma nova geração de tecelãs de Jalq’a que começou a copiá-los fielmente. À medida que a cosmovisão representada pelos desenhos se enraizava em sua mente, surgia um renascimento nos telares simples sob os dedos ágeis. Cereceda organizou exposições para instaurar os tecidos como obras de arte e com o reconhecimento veio a recompensa monetária. Hoje em dia os tecidos impõem preços realistas e sobretudo respeito. Algo singular de um povo anteriormente ignorado e desprezado, os tecidos de Jalq’a transformaram-se em emblemas da Bolívia, exibidos com orgulho. Os salões de exposição e venda da ASUR continuam sendo os locais turísticos mais visitados de Sucre. A ASUR partiu para outras tradições e atrai profissionais de todo o continente, ansiosos por aprender de seu trabalho.

O exemplo de ASUR fala muito sobre o modo como a participação de Healy com seu trabalho vai além do financiamento e a seriedade com que tomou o mandato de Bill Dyal de aprender e comunicar as lições. Healy escreveu pela primeira vez sobre a ASUR em Desenvolvimento de Base em l992. Posteriormente atualizou e reviu o artigo que passou a ser um capítulo de Llamas, Weavings and Organic Chocolate, levando a experiência a um público amplo em universidades, à comunidade do desenvolvimento e além. Nesse entrementes, utilizou outros canais para divulgar a história da ASUR: exposições no Festival da Vida Folclórica da Smithsonian Institution no National Mall [esplanada nacional] de Washington, D.C. em 1992 e l994; uma exposição paralela no Museu Sackler da Smithsonian; e palestras na Biblioteca do Congresso, no Museu Têxtil de Washington, D.C., e em diversas universidades. Mas a ASUR é apenas um entre diversos donatários que conseguiram reconhecimento internacional com tais oportunidades. “Kevin tem a visão de combinar a vida acadêmica com o ativismo”, afirmou Waskar Ari, exbolsista da IAF e primeiro aimará a obter doutorado em história. Atualmente dedicado ao ensino na University of Nebraska, ele recorda Healy quando se alojava no hotel Oruro no início da década de 1980. “Anos mais tarde podemos ver os resultados do que ele financiou, o grande impacto que transcende os próprios projetos. Mais pessoas deveriam saber sobre este homem trabalhando na base”.

O romance de Healy com os Andes revela muitas aptidões e valores necessários para um desenvolvimento de base bem-sucedido. Mas talvez, depois de levar em conta a experiência no terreno, a capacitação acadêmica e a busca intelectual de toda uma vida, tudo se reduz a algo tão idiossincrático como a sensibilidade à beleza, algo que Healy diz ter herdado de sua mãe, designer profissional. Até quando fala dos valores nutricionais da quinoa, não pode deixar de mencionar os impressionantes talos vermelho-dourados que ondulam nos campos. Uma vez, em uma comunidade isolada chamada Rayqaypampa, Healy percebeu que suas dúvidas aumentavam à medida que se acumulavam as provas de que a tentativa de uma ONG de jovens profissionais de revitalizar a produção de espécies nativas de batata continuava a não ser compreendida pelos agricultores indígenas a quem estavam procurando ajudar. Para a maioria dos RF, isso teria sido suficiente para rejeitar a proposta. Mas a atenção de Healy concentrou-se nas belas vestimentas étnicas desses indígenas. Para ele, isso indicava um sólido sentido de identidade cultural—e a necessidade de pesquisar mais profundamente—o que levou Healy a apostar corretamente que o orgulho comunitário na própria sabedoria em agricultura finalmente surgiria em apoio do projeto.

Responder a ideias provenientes da América Latina é o núcleo essencial do enfoque da IAF para o financiamento. Trata-se de um enfoque que concede aos RF no terreno uma grande discricionariedade para usar suas aptidões e buscar seus interesses pessoais. Mesmo assim, o projeto precisa passar por um rigoroso processo de aprovação, mas talvez somente na IAF o entusiasmo pela beleza de uma paisagem ou de peça de roupa possa ajudar a levar a uma decisão sobre apoio financeiro.

Patrick Breslin, ex-Vice-Presidente de Relações Externas, aposentou-se depois de 22 anos na IAF para trabalhar em seu livro sobre líderes do desenvolvimento de base na América Latina. Pode ser contatado pelo e-mail patbreslin@yahoo.com.