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Na IAF: In Memoriam

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Ruth Cardoso: Antropóloga, Primeira-Dama, reformadora social

Ruth Cardoso, distinta antropóloga, ex-Primeira-Dama do Brasil e Diretora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), donatário da IAF, faleceu aos 77 anos em São Paulo em 24 de junho de 2008, após sofrer ataque cardíaco. Em sua longa carreira como pesquisadora, professora, feminista e funcionária pública, dona Ruth, como afetuosamente era chamada, desempenhou um papel importante na formulação da política social brasileira.

No início da década de 1950, dona Ruth conheceu Fernando Henrique Cardoso, o sociólogo que mais tarde chegou a ser Presidente do Brasil, na Universidade de São Paulo onde mais tarde obteve seu Doutorado. Casaram-se em 1952. Como muitos outros intelectuais de sua geração, foram exilados durante o regime militar repressivo que começou no fim da década de 1960. Durante sua estada no exterior, dona Ruth estudou e ensinou na Maison de Sciences de L’Homme na França, na Universidade do Chile, na University of Columbia nos Estados Unidos e na Cambridge University do Reino Unido. Suas publicações incluem uma série de artigos influentes e alguns capítulos de livros sobre os movimentos sociais e a complexa vida comunitária nas favelas do Brasil. Contribuiu para incorporar o estudo da pobreza e da violência na agenda acadêmica brasileira.

Mas foi como Primeira-Dama que dona Ruth teve maior influência e no desempenho desse papel foi comparada a Eleanor Roosevelt. Quando seu marido assumiu o cargo em 1994, dona Ruth aboliu a Legião Brasileira de Assistência Social (LBA), uma instituição de beneficência ineficaz e assolada pelo clientelismo cujo chefe titular era a primeira-dama, e a substituiu pela Comunidade Solidária, um organismo pioneiro dedicado à redução da pobreza mediante a colaboração com a sociedade civil. Em um período de oito anos, este organismo focou a alfabetização de adultos, treinamento profissionalizante, voluntariado e financiamento de pequenas empresas. Dona Ruth também lançou o Conselho da Comunidade Solidária, constituído por Ministros do governo, dirigentes de ONGs e empresários e que promoveu o diálogo sobre temas tão candentes como a reforma agrária e o papel do terceiro setor. Os programas que ela criou beneficiaram as comunidades pobres de todo Brasil. Também prepararam o caminho para a Bolsa Família, lançada pelo Governo do Presidente Lula em 2003, um programa maciço de transferências de dinheiro com condições como vacinar os filhos e mandá-los à escola, que atua como rede de segurança para cerca de 11 milhões de famílias e tem reduzido consideravelmente a pobreza absoluta.

Dona Ruth trabalhou como pesquisadora no CEBRAP, destacado laboratório de ideias dedicado às ciências sociais, sediado em São Paulo, com o qual a IAF mantém contato desde sua fundação no início da década de 1970. Mais tarde, na década de 1990, a IAF financiou as pesquisas do CEBRAP sobre a integração econômica dos imigrantes do nordeste em São Paulo. Como representante da IAF para o Brasil e posteriormente funcionário do Banco Mundial, encontrei dona Ruth em diversas oportunidades. Ela sempre se mostrou simples e cordial, demonstrando o intelecto de uma acadêmica experimentada e a tranquilidade e simplicidade inquebrantáveis de uma pessoa profundamente dedicada à mudança social.

Dona Ruth viveu em uma era decisiva e estava muito à frente de sua época. Quando se escrever a história desta transição, ela será uma figura-chave que levou o Brasil a reconhecer e começar a superar os longos anos de discriminação de gênero e desigualdade social. Sua dedicação ininterrupta à justiça social teve uma expressão comovedora durante seu funeral quando uma pequena boneca feita por um dos muitos grupos de mulheres financiados pela Comunidade Solidária foi colocada em seu caixão como um último tributo. –John Garrison, especialista sênior em sociedade civil do Banco Mundial.


Sally Watters Yudelman: Vice-Presidente da IAF e defensora dos direitos da mulher

Sally Watters Yudelman, a primeira mulher Vice- Presidente da IAF, faleceu de câncer cerebral em 24 de outubro de 2008. Tinha 77 anos.

Nascida de uma família abastada e dotada de beleza, Yudelman graduou-se no Vasser College e casou-se jovem. Mas a vida lhe deu um drible inesperado e viu-se divorciada e desempregada, com dois filhos pequenos para criar. Começou a trabalhar para o Corpo de Paz dos Estados Unidos onde suas aptidões administrativas impressionaram Bill Dyal, então Diretor para a Colômbia. Quando se casou com Montegue Yudelman, economista sul-africano, ela o acompanhou à França e ensinou durante na Université de Paris. O casal regressou aos Estados Unidos em 1972, quando Dyal pediu a Sally para fazer parte de sua equipe no recém-criado organismo que estava dirigindo: a Fundação Interamericana. (Robert McNamara tinha oferecido a Montegue um cargo no Banco Mundial.)

O trabalho de Sally na IAF a estabeleceu internacionalmente como incansável defensora das pessoas de baixa renda e desfavorecidos, especialmente mulheres. Em sua meteórica ascensão de Representante da Fundação a Vice-Presidente, apoiou os grupos de base dedicados a focar o abuso, o acesso a serviços e as oportunidades econômicas em todo o Hemisfério. Falou de suas experiências em seu livro Hopeful Openings (Aberturas Esperançosas – Kumerian Press: 1987). Deixou a IAF para ser pesquisadora sênior do International Center for Research on Women (Centro Internacional de Pesquisa sobre a Mulher). Posteriormente, Sally foi membro da Diretoria da CARE Internacional, Washington Office on Latin America (Escritório de Washington sobre a América Latina, Development Group for Alternative Policies (Grupo de Desenvolvimento de Políticas Alternativas), do Center for Support of Native Lands (Centro de Apoio às Terras Nativas) e de delegações que observaram eleições e o trabalho das comissões de direitos humanos na América Latina. Como bolsista Fulbright, fez palestras em universidades em todos os Estados Unidos.

Marion Ritchey Vance compartilhou bons momentos com Sally na IAF e depois do trabalho, além de uma paixão pela equitação. “Íamos de carro ao campo em Virginia, selávamos os cavalos e cavalgávamos ao longo do Rio Potomac ou pelos bosques onde os vagalumes davam um toque de magia ao pôr-do-sol entre as árvores”, recordou Ritchey Vance. “Na viagem ao campo, mantínhamos conversações agitadas sobre a crise mais recente no escritório. Quando guardávamos os cavalos e voltávamos para casa, tudo era tranquilidade e harmonia, suave como o aroma dos equinos comendo feno. Foi nessas viagens que conheci e desfrutei o sentido do humor de Sally. Era uma das mais agradáveis conversadoras que jamais conheci. Inventava apelidos engenhosos para todas as pessoas mais próximas dela, especialmente a família que tanto adorava. Salpicava a conversação com aforismos franceses e frases enérgicas quando queria expor comportamentos que não lhe agradavam”.

“Sempre serei muito agradecida a Sally por sua liderança intelectual e seu assessoramento”, disse Steve Vetter, ex-funcionário da IAF e atual Presidente dos Companheiros das Américas. “Nunca tivemos uma conversação em que não me perguntasse: ‘E o que você está lendo?’ Eu me acostumei com isso, especialmente porque havia tantas outras mentes abertas e curiosas na IAF que liam e refletiam sobre nosso trabalho. Desde então percebi quão valioso e singular era o presente que Sally tinha oferecido a todos nós. Eu costumava ter um exemplar dos poemas de Robert Frost sobre meu escritório. Tínhamos falado em diversas ocasiões sobre um de meus poemas favoritos Two Tramps in Mud Time (Dois Itinerantes em Momentos Difíceis) e, em um de nossos últimos encontros, ela me pediu que o recitasse. Assim dizia: Only when love and need are one…is the deed ever done… for heaven and future’s sake (Somente quando o amor e a necessidade caminham de braços dados... o trabalho está realmente terminado ... em benefício do céu e do futuro). A isso ela sempre acrescentava: ‘Que lindo!’”.

Sally, que lindo!—Wilbur Wright, Representante da IAF