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Cecilia Duque Duque: Criação de uma indústria colombiana de Marion Ritchey Vance e Paula Durbin

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Fui apresentada a Cecília Duque, ou melhor à visão de Cecília, em 1972; mais quatro anos se passaram até eu conhecê-la pessoalmente. Na condição de nova diretora de uma ONG na América Latina, eu havia viajado para a Colômbia para receber orientação. O pessoal levou-me diretamente do aeroporto de Bogotá para uma imersão na cultura colombiana no Museo de Artes y Tradiciones Populares. O museu ficava no antigo Claustro de San Agustín, um prédio colonial centenário no coração histórico de Bogotá. Na década de 1960, a estrutura em ruínas estava prestes a ser demolida. Como ela escapou daquele destino para tornar-se uma admirável obra arquitetônica e abrigar uma impressionante coleção de arte popular tem tudo a ver com Cecilia Duque Duque.

No início da década de 1970, a jovem Cecília havia aceitado o cargo de secretária da Asociación Colombiana de Promoción Artesanal (ACPA), uma organização que representava as mulheres de todo o país que se dedicavam à preservação e promoção das tradições artísticas características de cada estado. Enquanto ainda se familiarizava com as tarefas iniciais de seu novo trabalho, Cecília anteviu que o antigo e grandioso Claustro poderia transformar-se no que a Asociación buscava— um espaço na capital para exibir a cultura popular da Colômbia. “Como sempre parece acontecer na minha vida”, explicou mais tarde, “pude vislumbrar um projeto, um museu. Pensava em 20 anos mais à frente. Não pensava em como iria desempenhar-me naquele dia, como aprenderia a escrever uma carta ou a preparar atas.” A visão de Cecília amadureceu e transformou-se na campanha de toda uma vida para aumentar o prestígio das artes tradicionais da Colômbia que, em sua opinião, haviam sido subestimadas durante muito tempo nos círculos sofisticados da capital. Por meio de uma combinação de encanto, energia, habilidade política nata e pura força de vontade ela organizou o processo que culminou na joia que abriu meus olhos para a rica diversidade que é a Colômbia.

Posso imaginar o esforço necessário para restaurar o Claustro, cujos quatro lados circundam um pátio com calçamento de pedra e um pórtico que repousa sobre pesadas colunas de pedra. Ao cruzar os arcos da entrada me deparei com a luz do sol e cores. Gerânios vermelhos em enormes vasos de barro ornavam cada coluna e um chafariz brilhava no centro. Carroças, carruagens e canoas artisticamente dispostas ocupavam o espaço sob o pórtico. Amplos salões no andar térreo abrigavam um convidativo restaurante e uma loja de presentes que ofereciam o melhor em termos de comida tradicional e arte popular da Colômbia. No segundo andar, os artesanatos estavam agrupados por região. Como era a intenção, levei comigo um mapa mental da Colômbia impregnado das paisagens, sons e texturas de uma dúzia de culturas distintas.*

Avancemos para 1976 quando, na condição de representante da Fundação Interamericana na Colômbia, recebi uma colega colombiana da Organização dos Estados Americanos na sede da IAF em Arlington. Ainda me lembro que sua agenda foi ofuscada pela mulher que a acompanhava, Cecília Duque. Aqui estava a pessoa que havia realizado milagres para viabilizar o Museu, havia se tornado sua diretora e que eu queria conhecer melhor. Ela não me decepcionou. Cecília irradia confiança e visão; é uma promotora nata. Antes que eu percebesse, a visita havia-se transformado em uma proposta de financiamento.

Naquela época a Colômbia ainda se caracterizava por pequenas cidades com um único modelo de artesanato. De modo geral, a mão-de-obra era excelente, a organização e a comercialização, nem tanto. Cecília havia empreendido uma viagem com duração de um ano, de ônibus, canoa e a pé para conhecer os artistas populares da Colômbia, suas famílias, suas comunidades e suas necessidades vistas por eles próprios. Em 1977, a IAF concedeu uma doação de US$154.870 à ACPA por um programa de extensão baseado naquelas necessidades. A doação financiou, no próprio local de trabalho, assistência aos artesãos tradicionais em quatro áreas tão distintas etnicamente quanto distantes geograficamente: Pasto, conhecida por seu artesanato singular em barníz, ou laca; Morroa, famosa por suas redes produzidas em tear; Guacamayas, onde os artesãos criavam artigos de fibra da planta fique, muito comum na região e Chocó, que abriga a admirável fabricação de cestos impermeáveis em güérregue.

Em cada caso, a organização foi fundamental para aumentar o potencial de mercado, mas o caminho para organizações estáveis e viáveis é cheio de percalços. Alguns grupos demoraram muito para amadurecer; outros logo prosperaram mas tiveram dificuldades mais adiante. A maioria evoluiu e, com o passar do tempo, produziu benefícios. Vários registraram ganhos espetaculares em filiação e renda. O projeto teve seus altos e baixos, mas forneceu aos dedicados voluntários da ACPA e à equipe do museu exatamente o que precisavam: a compreensão e a credibilidade que se adquire com a experiência em primeira mão com a arte e o artesão e com os fatores que estavam contribuindo para o desaparecimento do artesanato tradicional.

Avancemos novamente para 1990, quando o recémeleito Presidente César Gaviria tomou conhecimento do Museo e de que modo havia melhorado as vidas dos artesãos por meio de mudanças positivas na organização e comercialização mais inteligente. Seguindo o conselho do seu ministro de desenvolvimento econômico, o presidente convidou Cecília Duque para dirigir Artesanías de Colômbia, órgão de certa forma apagado, filiado ao ministério do desenvolvimento, encarregado de ajudar os artesãos. Ela transformou o lugar —não sem antes incomodar alguns, pisar em outros e enfrentar algumas vacas sagradas, mas finalmente ganhando apoio e respeito. “Não pensava no dia de amanhã; pensava em dez anos à frente,” observou. O que lhe permite ver além de “amanhã” e conseguir seu objetivo é sua total dedicação e capacidade de trabalhar das oito da manhã às duas da manhã seguinte e a serenidade interior para afastar-se dos pequenos incêndios que ardem no seu caminho. O que atesta o êxito de Cecília é sua permanência à frente da Artesanías durante os mandatos de quatro presidentes e oito ministros de partidos políticos contrários.

Cecília e sua equipe cuidadosamente selecionada da Artesanías começaram por respeitar os artesãos e suas habilidades e por introduzir maneiras de ampliar o atrativo de seus trabalhos tradicionais, seguindo a bem-sucedida abordagem do Museo. Por exemplo, as coloridas redes de Morroa são muito apreciadas, duram a vida toda, portanto, seu mercado é limitado. Cecília havia ajudado os tecelões a visualizar outros usos para o mesmo material, começando por forros de almofadas e estofamento. Quando os cestos usados para pesar lã nas tradicionais balanças de Guacamayas ficaram obsoletos, a designer da ACPA, Lígia de Wiesner trabalhou com as mulheres artesãs para transferir as habilidades familiares e a matéria-prima para itens decorativos com novos atrativos comerciais. Em Ráquira, onde numerosos fornos queimam vasilhas de cerâmica, os artesãos pesquisaram desenhos ancestrais que transformaram a cerâmica do dia-a-dia —superada pelo plástico —em finos aparelhos de jantar e objetos de arte para residências luxuosas.

A ideia de modificar um produto para impulsionar as vendas não é nova. Voluntários do Peace Corps e outros o incentivaram mas, muitas vezes, com vistas ao mercado de massa, geralmente estrangeiro. Os colombianos adoram citar o exemplo de artesãos que obedientemente criam figuras do Mickey Mouse. Mas o objetivo da abordagem idealizada pelo Museu e ampliada pela Artesanías de Colombia foi aprimorar e adaptar os produtos mantendo suas qualidades naturais, e ser mais ambiciosos. “Não podemos competir com cadeias de lojas; o artesanato exige muito mais tempo e habilidade”, explicou Cecília. “Mas podemos explorar nichos de mercado, onde a qualidade é vendida a preços justos.”

Ironicamente, é o fascínio de Cecília pelos últimos avanços técnicos que está ajudando a preservar os artesanatos mais tradicionais. Sob sua liderança, Artesanías de Colombia foi pioneira no uso da tecnologia para trocar informações, criar mercados, descentralizar recursos, oferecer treinamento e capacitar os artesãos para fazer experimentos. Utilizando o simples e antigo contato pessoal, Cecília estabeleceu proveitosos relacionamentos com autoridades estaduais e locais, educadores, empresas, universidades e instituições internacionais, como a OEA e o Conselho Mundial de Artesanato.

Artesanías de Colombia patenteou seu nome e sua logomarca e instituiu o sello de calidad, uma certificação que torna os produtos artesanais elegíveis a direitos de exportação e, se o país de destino tiver convênio com a Colômbia, a redução dos impostos de importação. Cecília levantou a questão dos conceitos de propriedade intelectual e sua proteção—como eles se aplicam aos artesãos—com funcionários do governo colombiano e em nível internacional. Esses tópicos também são abordados em cursos de capacitação para que os artesãos se conscientizem de que têm certos direitos e que existem recursos para defendê-los.

Uma das principais inovações de Cecília é a ExpoArtesanías, a fantástica produção artística anual de inverno que atualmente é uma instituição de Bogotá. Para os bogotanos e compradores estrangeiros é o acontecimento que marca o início do período natalino. Centenas de artesãos de toda a Colômbia expõem artigos aprovados nessa feira que se estende por mais de 20.000 metros quadrados no coração da cidade. Para aqueles que consideram elitista a imposição de padrões elevados para a participação, Cecília responde que os artistas que concordarem em cumprir certas normas, aprimorarão seus produtos e, como resultado, suas rendas.

Para promover o orgulho no patrimônio cultural colombiano, Cecília empreendeu uma campanha para elevar o padrão da artesanía. Colombianos com elevado poder aquisitivo, que demonstravam preferência pelo continental ou cosmopolita, responderam. Como resultado, as artes populares colombianas não são mais consideradas adequadas apenas para decorar a finca, ou casa de campo. Em conformidade com sua visão de longo prazo sobre o potencial do setor de artesanato da Colômbia, Cecília estudou o que possibilitou o êxito em outros países. Identificou P.J. Arañador, um designer filipino aclamado internacionalmente, que havia definido habilmente o “estilo” do seu país inspirando-se em sua arte e suas tradições folclóricas. “Se ele é o mago”, resolveu Cecília, “vou trazê-lo para cá.” Mediante um contrato com Artesanías de Colombia, Arañador trabalhou com desenhistas e artesãos para selecionar as cores, texturas, materiais e temas que definiam o estilo colombiano na decoração de ambientes. Esse estilo foi apresentado pela primeira vez na forma de La Casa Colombiana—modelos de espaços totalmente mobiliados com produtos projetados e produzidos pelos artesãos do país. Os cômodos foram exibidos na Expoartesanías e apareceram em uma publicação anual da Artesanías. Um excelente exemplo de sua elegância e sofisticação pode ser visto no Salão Presidencial, uma sala VIP no novo centro de convenções de Cartagena, onde o piso, a mobília e as cortinas foram criados por artesãos colombianos.

Outra vitória de Cecília foi a incorporação ao mundo da alta-costura de produtos têxteis, motivos e acessórios artesanais manufaturados. Foram necessários quatro anos de pressão e a ajuda da primeira-dama Lina María de Uribe e do Instituto para la Exportación y Moda para que os artesãos e os desenhistas de moda de Bogotá trabalhassem juntos para criar coleções que desfilariam nas passarelas da Colombia Moda, o evento de moda mais exclusivo do país. O sucesso da estreia de 2003 não escapou à atenção do diretor da Câmara Italiana de Moda que estava entre os presentes. A seu convite, os modelos viajaram até Milão para uma segunda apresentação. “Foi espetacular” lembrou Cecília. “Foi lançado um surto e o trabalho dos artesãos de moda tomou impulso.” (Depois disso, os colombianos voltaram duas vezes a Milão.) Um empreendimento tão ousado exigia, como observa Cecília, “sinergia entre desenhistas, artesãos, dirigentes de empresas, políticos e a alta sociedade.” Popularizou o conceito de “identidade colombiana”, abriu oportunidades lucrativas e foi, segundo o autor de um livro sobre moda, um momento decisivo na história da moda na Colômbia.

Em 2006, Cecília anunciou sua aposentadoria da Artesanías de Colômbia. O resumo de realizações em seu relatório final, pelas quais ela não hesitou em dar crédito à sua “extremamente competente e dedicada equipe de profissionais,” é impressionante. Embora o rumo que Cecília traçou para a instituição não tenha agradado a todos, o que não deixa dúvida é que um patrimônio cultural que estava morrendo ganhou vida nova e milhares de artesãos estão se sustentando dignamente com ele. Essas realizações foram reconhecidas na Colômbia e no exterior. Em 1997, a UNESCO presenteou a Artesanías de Colombia com sua mais alta honraria, a Medalla de Oro Pablo Picasso. A Expoartesanías recebeu a distinção colombiana Premio Nacional de Alta Gerencia. E quando Cecília deixou seu posto, o Presidente Alvaro Uribe a homenageou com a prestigiosa Medalla al Mérito Cultural da Colômbia.

Apesar de tanta agitação, Cecília permanece encantadoramente modesta. Quando se perguntou para onde iria direcionar sua notável energia, determinação e visão depois de se aposentar, ela respondeu com um sorriso: “Para trabalhar com os artesãos, é claro. É a única coisa que sei fazer.”

* Nota de rodapé: o Museo fechou suas portas em 2006, quando a ACPA foi dissolvida. O acervo foi colocado em museus de várias províncias da Colômbia.

Marion Ritchey Vance foi Representante da IAF na Colômbia de 1974 até 1979 e mais tarde Diretora para a Região Andina e Diretora de Ensino. Ela aposentou-se da IAF em 1995.