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APAEB: Desenvolvimento no sertão do Brasil de Sean Sprague

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A Associação dos Pequenos Agricultores do Município de Valente (APAEB) atua na região mais carente do Brasil — o interior seco do nordeste conhecido como sertão. A palavra significa deserto, local afastado e imensidão pode, mas não é assim que o ousado slogan da APAEB define a área. “O Sertão tem tudo de que precisamos”, afirma, “se faltar alguma coisa, então inventaremos”. Isto poderia soar como uma hipérbole, não fosse o estrondoso sucesso da APAEB. A organização centrou foco naquele que é o único recurso agrícola abundante do sertão, a planta de sisal, e transformou este item na base de um conglomerado industrial e em uma gama variada de instituições comunitárias.

A APAEB foi fundada em 1980 por 70 plantadores de sisal de Valente (BA) e região, inicialmente com o objetivo de ampliar o poder de barganha junto aos intermediários que os remuneravam muito mal. Ao passar a colher e comercializar a colheita por si mesmos, os produtores elevaram os preços em todo o sertão. Ascenderam na cadeia de produção ao passar a extrair as fibras de sisal manualmente. O momento decisivo aconteceu em 1984. Foi então que o diretor-executivo da APAEB, Ismael Ferreira de Oliveira, líder dos sisaleiros de Valente há mais de 30 anos, conseguiu inserir a cooperativa no setor de exportação. Cinco anos depois, a APAEB recebeu uma doação da IAF para estudar processos de mecanização e também capital inicial para uma fábrica de processamento de sisal de US$2.5 milhões. Na metade da década de 1990, a APAEB já produzia tapetes. De acordo com Ferreira, outras duas doações da IAF, concedidas em 1996 e 1997, foram fundamentais para a expansão do negócio e deram credibilidade à APAEB perante bancos, agências brasileiras e outros programas de ajuda e fundações. Organizações católicas também fizeram contribuições, o que não surpreende, já que a APAEB teve origem no Movimento de Organização Comunitária, (também donatário da IAF), um desdobramento do movimento da Teologia da Libertação. Atualmente, a APAEB é basicamente auto-sustentável.

“Tenha a mente nas nuvens, mas seus pés no chão”, é como Ferreira explica o fato de a APAEB ser bemsucedida. Ferreira é filho de lavradores e passa a maior parte do tempo no chão de fábrica. Ele recebeu diversos prêmios pela atuação no grupo. Em 2001, a Schwab Foundation da Suíça conferiu-lhe o título de empreendedor social do ano e 10 anos antes, Ferreira havia sido escolhido como fellow da Ashoka. Os diversos empreendimentos sociais e produtivos da APAEB impressionam por conta de sua diversidade e do impacto agregado nos cerca de 20.000 moradores de Valente. Mais de 650 sisaleiros compõem a organização atualmente e 5.000 famílias se beneficiam da renda gerada. Na maior parte das pequenas cidades do nordeste brasileiro, o governo municipal é a única fonte de empregos, mas em Valente, a APAEB é parte central da economia e sua influência se espalha para outros 19 municípios, com cerca de 45.000 habitantes. Resumindo, a proximidade com Valente representa maior renda per capita e maior expectativa de vida.

As exportações rendem à APAEB entre US$5 milhões e US$10 milhões de dólares, dependendo da taxa de câmbio. O lucro é utilizado para pagar os produtores e também investido em uma vasta infraestrutura que inclui um supermercado, uma emissora de rádio (Valente FM) e uma cooperativa de crédito tão bem-sucedida que ajudou a APAEB a obter um financiamento bancário que custeou 75% dos recursos necessários para construir a fábrica, 20 anos atrás (os próprios produtores arcaram com 5% do custo). Negócios paralelos confirmam a coerência de uma estratégia de movimentos de base de utilizar o que têm em mãos. Apenas 5% das plantas de sisal geram fibra, então a APAEB usa o restante para alimentar cabras, elemento central de sua produção de leite e de seu curtume. “No caso do sisal, investe-se 35% dos lucros em mão-de-obra para a colheita da fibra”, afirma o produtor Joselito Carneiro da Cruz. “No caso das cabras, o único custo é com a alimentação”. A APAEB comercializa seus laticínios no mercado local e também os distribui como parte do programa Fome Zero do governo brasileiro.

A participação na economia global inclui viver as turbulências da mesma e a crise mundial afetou a fábrica de tapetes. Até 2004, 70% da renda da APAEB advinda da tapeçaria era atribuída a exportações. Mas a desvalorização do dólar tornou os produtos caros. Para ajustar-se, a APAEB reduziu a força de trabalho, abandonou a jornada de 24 horas, implementou dois turnos de trabalho e tomou empréstimos. Atenta a um outro recurso disponível, o mercado brasileiro, redistribuiu sua produção de tapetes passando a vender diretamente aos consumidores do norte e nordeste e, usando diversos pontos de venda, aos consumidores de todas as grandes cidades do sul e do sudeste. No ano passado, o departamento de pesquisa e desenvolvimento da APAEB, financiado pelo governo da Bahia, intensificou o foco no consumo doméstico e na crescente concorrência com a China. Em 2007, foi criada a Fundação APAEB para gerenciar os programas comunitários e levantar fundos para diminuir o vácuo deixado pela falta de recursos.

Estes novos desafios não podem obscurecer o fato de que um grupo determinado e hábil de sisaleiros derrotou um sistema sufocante e explorador, desafiando a história, a geografia, o clima e o senso comum. Na década de 1980, o diretor francês Jacques Hubschman registrou a realidade do grupo no documentário Os sisaleiros. No ano passado, ele voltou com sua colega Claire Sarazin para comemorar as conquistas da APAEB em um novo filme, Miracle au sertão? Nós também celebramos a conquista deste grupo com as imagens de uma história que nunca vamos nos cansar de contar.

Sean Sprague é fotógrafo profissional e vive no País de Gales. Contribuíram com este texto Judith Morrison, diretora regional da IAF para a América do Sul e Caribe e Juliana Menucci, contratista da IAF no Brasil.